Eurocopa

Sem nunca convencer totalmente à frente da seleção, Frank de Boer deixa o comando de Países Baixos

A eliminação contra a República Tcheca pesou para a saída do comandante, após nove meses no cargo

A eliminação de Países Baixos nas oitavas de final da Euro 2020 resultou no fim da passagem de Frank de Boer à frente da seleção. O ex-zagueiro ficou apenas nove meses no cargo, lidando com muitas críticas pela falta de rendimento no período e também por suas escolhas. Nesta Eurocopa, a boa fase de grupos parecia garantir uma sobrevida ao seu trabalho, mas a derrota diante da República Tcheca seria cabal ao seu adeus. Existia uma cláusula em seu contrato que exigia uma campanha até as quartas de final para que o vínculo fosse renovado. Porém, o veterano se antecipou a uma possível avaliação da federação e pediu o chapéu, em decorrência da pressão encarada desde o domingo.

Frank de Boer chegou ao comando da seleção neerlandesa com pouco tempo para se preparar ao desafio. O técnico pegava uma equipe arrumada, diante do bom trabalho de Ronald Koeman à frente da Oranje. Entretanto, com a saída do ex-companheiro para assumir o Barcelona, De Boer não teria margem de adaptação – com Liga das Nações, Eliminatórias da Copa e Eurocopa pela frente. A um treinador que vinha sob extrema desconfiança por conta de seus trabalhos à frente de clubes, o peso da missão preocupava ainda mais seus compatriotas se ele seria capaz de dar conta do recado.

Aquele Frank de Boer multicampeão à frente do Ajax ficou para trás. O treinador da seleção se assemelhou muito mais ao comandante de passagens errantes por Internazionale, Crystal Palace e Atlanta United. O ex-zagueiro conhecia o ambiente da Oranje por seu passado como jogador, assim como por ter sido assistente no vice-campeonato durante a Copa do Mundo de 2010. Todavia, os resultados não engrenaram. Foram cinco partidas até a primeira vitória, sem que Países Baixos conquistassem a classificação ao Final Four da Liga das Nações. Depois, perdeu para a Turquia nas Eliminatórias, um resultado logo custoso. Isso até a Euro 2020 elevar o desafio.

Países Baixos precisariam se virar sem Virgil van Dijk na zaga, um desfalque de peso. Frank de Boer insistiu no seu 3-5-2 utilizado nos jogos preparatórios, quebrando o dogma do 4-3-3 na Oranje. E o técnico até parecia ter razão pelo bom desempenho durante a fase de grupos. Numa chave nivelada por baixo, os neerlandeses mantiveram os 100% de aproveitamento e fizeram grandes partidas. O problema veio nas oitavas, diante de uma equipe organizada como a República Tcheca. Os tchecos se defenderam muito bem e aproveitaram as dificuldades dos laranjas após a expulsão de Matthijs de Ligt.

Lances circunstanciais marcaram a derrota de Países Baixos. A expulsão de De Ligt se provou extremamente custosa, assim bem o gol perdido por Donyell Malen no início do segundo tempo. Ainda assim, o treinador teve dificuldades para acertar o time com um a menos. A Oranje não conseguiu conter a pressão da República Tcheca para construir o placar de 2 a 0 e não indicou qualquer força para reagir depois de ser vazada. Isso pesou nas críticas contra o comandante. Ainda na saída de campo, as perguntas já eram se continuaria à frente da equipe nacional. Por decisão sua, não ficou.

Frank de Boer completou 15 partidas à frente de Países Baixos, com nove vitórias conquistadas e três derrotas. Cabe dizer, entretanto, que o grosso dos triunfos se concentrou diante de adversários medianos ou irrisórios. Nas principais partidas, faltou um pouco mais da Oranje. Até por isso, parecia difícil imaginar a continuidade do ex-zagueiro no cargo. Resta saber qual a aposta para o próximo ciclo, sem um nome que pinte com força, mesmo entre os antigos jogadores da seleção.

Como lembra o ótimo Espreme a Laranja, do trivelista Felipe dos Santos Souza, os veteranos da Oranje à disposição não inspiram confiança pela maneira como suas carreiras como treinadores não desabrochou. Clarence Seedorf, Gio van Bronckhorst e Phillip Cocu integram esse grupo. Louis van Gaal seria outra possibilidade aventada, mas nem todos concordam em tirar o veterano da aposentadoria para mais um período à frente dos laranjas. Erik ten Hag, o principal treinador em atividade no país, provavelmente não abriria mão do Ajax – até pelo mercado que possui em clubes de ligas maiores para um futuro próximo. Fica a chance de buscar um estrangeiro, o que também encontraria resistência por quebrar a tradição dos comandantes locais.

A seleção de Países Baixos volta a campo na Data Fifa de setembro, quando faz três jogos duros pelas Eliminatórias – pega Noruega, Montenegro e Turquia. Vale lembrar que a campanha no Grupo G do qualificatório acaba ainda em novembro, deixando pouco tempo para a escolha, diante da pressão para conquistar a vaga direta no Mundial após a ausência em 2018. Está claro como o ambiente que o sucessor de Frank de Boer encontrará será pior que o deixado por Koeman. Se havia um clima positivo pela reconstrução do trabalho, isso se perde com a campanha modesta na Eurocopa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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