Eurocopa

Se a Bundesliga nunca viu Gosens, hoje não há alemão que não aplauda o talento explosivo da Atalanta e da seleção

Gosens demorou a ganhar sua primeira convocação, mas mostrou seu valor ao conduzir a partidaça contra Portugal

Robin Gosens nunca atuou profissionalmente no futebol alemão. Nascido numa cidade fronteiriça com os Países Baixos, o lateral seria descoberto pelo Vitesse antes que os principais times da Bundesliga pudessem detectá-lo. Assim, a carreira do jogador de 26 anos permaneceu alheia ao seu país, ao menos no nível de clubes. Seria impossível à seleção ignorar o talento de Gosens, afinal, considerando seu impacto no sucesso da Atalanta nas últimas temporadas. E se muita gente avaliava o camisa 20 como uma das melhores adições de Joachim Löw à Mannschaft nos últimos anos, a certeza de sua importância veio neste sábado de Euro 2020. O ala esquerdo fez uma senhora partida na Allianz Arena, comandando a importantíssima vitória contra Portugal. Ficou 60 minutos em campo e saiu ovacionado pela torcida de Munique, num reconhecimento merecido. Participou dos quatro gols no triunfo por 4 a 2 e certamente provocará pesadelos em Nélson Semedo por algum tempo.

Gosens nasceu em Emmerich, uma cidadezinha de 30 mil habitantes às margens do Rio Reno. O município pode não ser tão conhecido, mas possui sua importância à história do futebol alemão. Afinal, por lá nasceu também Rainer Bonhof, um dos maiores meio-campistas da história da seleção. Neto de holandeses, o craque até poderia ter defendido a seleção vizinha, mas acabou vestindo a camisa da Mannschaft após despontar num timaço do Borussia Mönchengladbach. Sorte dos alemães-ocidentais que Bonhof estaria do lado certo em 1974, quando a equipe nacional conquistou a Copa do Mundo em cima da Oranje. A assistência para Gerd Müller marcar o gol do título seria exatamente do camisa 16.

Emmerich também possui seu lugar na história da Eurocopa. Bonhof é o único jogador a ter disputado três finais do torneio e o único não-espanhol a ser bicampeão, levantando as taças de 1972 e 1980 com a Alemanha Ocidental. Mais de 40 anos depois, a cidadezinha volta ao mapa do torneio continental através de Gosens. E bem que os holandeses cruzaram o caminho outra vez nessa história. Filho de mãe alemã e pai holandês, Gosens deu seus primeiros passos em pequenos clubes germânicos e vestia a camisa do sub-19 do Rhede, um time que atualmente figura na sexta divisão alemã. Foi lá que o Vitesse o descobriu, contratando o adolescente na véspera do seu aniversário de 18 anos.

Gosens, assim, passou longe das seleções de base da Alemanha. Até chegou a fazer um teste no Borussia Dortmund, mas descreveria aquela tentativa de assinar com os aurinegros como um “fiasco”. Ainda assim, não seria aproveitado pelo Vitesse de imediato. Ele só ganharia a primeira chance como profissional no Dordrecht, ao sair por empréstimo à segundona da Eredivisie. Foi lá que começou a apresentar seu valor, ajudando no acesso e defendendo a equipe também na primeira divisão. De começo aparecia mais como volante, até se firmar como lateral. O Vitesse, no entanto, não apostaria no garoto e o venderia ao Heracles em 2015. Aos 21 anos, Gosens teria que buscar mesmo seu lugar ao sol entre equipes mais modestas do Campeonato Holandês.

Naquele momento, Gosens agarrou a oportunidade. Fez duas boas temporadas com o Heracles, no primeiro ano até mais usado como ponta esquerda, até se estabelecer na lateral. E, por sorte, topou com a excelente rede de olheiros da Atalanta. Os Orobici possuem um olhar clínico para garimpar talentos em ligas menos badaladas e foi assim que resolveram contratá-lo em 2017. Custando apenas €1,2 milhão, o lateral passava longe dos holofotes no famoso Calciomercato. Gian Piero Gasperini, porém, sabia o que estava fazendo e não demorou a incluir o alemão na rotação principal da Dea. Em sua primeira temporada, Gosens tomou a posição de Leonardo Spinazzola com a lesão do companheiro na reta final da Serie A. E depois que o italiano retornou à Juventus no fim de seu empréstimo, o camisa 8 tomou conta da ala esquerda.

Lá se vão três temporadas de Gosens como um dos principais jogadores da Atalanta. E as duas últimas são espetaculares, em termos de participação ofensiva. O ala esquerdo anotou 20 gols e seu 14 assistências em 66 partidas pela Serie A no período, uma média respeitabilíssima para um jogador da sua posição. Numa equipe que conta bastante com as subidas dos alas, seu protagonismo ao lado de Hans Hateboer no funcionamento da Dea é evidente. Já não dava mais para Löw fechar aos olhos a Gosens, ainda mais considerando sua cidadania holandesa. Ronald Koeman até chegou a contatá-lo nos tempos em que treinava a Oranje, mas o alemão preferia o país onde nasceu e cresceu. Depois do sucesso da Atalanta na Champions e de ser eleito para o time ideal da Serie A 2019/20, o novato enfim ganhou suas primeiras convocações ao Nationalelf em setembro de 2020, para disputar a Liga das Nações.

Gosens chegou já ganhando suas primeiras chances como titular. Escapou do fiasco nos 6 a 0 contra a Espanha, quando Philipp Max sofreu com a presença de Ferran Torres. E a consistência do jogador da Atalanta abriu as portas rumo à Euro 2020. De certa maneira, as virtudes de Gosens inclusive permitiram que Löw moldasse sua equipe. A Alemanha passava a apostar num 3-4-3 com o corredor livre pelo seu lado esquerdo. Enquanto Joshua Kimmich tem um estilo de jogo totalmente distinto pela direita, mais cadenciado, a agressividade do camisa 20 até se tornou complementar do outro lado. Não à toa, virou uma combinação a se explorar.

Na estreia contra a França, Gosens não apareceu tanto. A Alemanha pendia muito seu jogo à direita e o ala esquerdo participou menos. Ainda assim, teria uma das melhores chances de empate num cruzamento que tentou completar pelo alto. Daria lugar a Kevin Volland na reta final. Contra Portugal, a Mannschaft corrigiu mecanismos. Botou Matthias Ginter para cobrir melhor o lado direito, deixou Antonio Rüdiger construindo pela esquerda, permitiu que os dois alas avançassem feito pontas. E se Kimmich permanece como uma importante fonte na criação, Gosens apresentou todo seu furor na definição das jogadas.

A partidaça de Gosens já começou com um gol seu, mas bem anulado. A Alemanha sofreria o primeiro tento de Portugal, mas seguiria tentando abafar. E o escape pela esquerda, num ataque mais equilibrado desta vez, se provaria fundamental. Tanto é que a combinação entre Kimmich e Gosens deu certo para o empate. Num cruzamento do ala direita, o ala esquerda se infiltrou e passou com qualidade para o meio da área, de primeira. Rúben Dias marcou contra. Logo depois, Gosens também teve influência no segundo gol. Foi ele quem puxou o avanço pela esquerda e passou a Thomas Müller totalmente sozinho. Na sequência, Raphaël Guerreiro repetiu o parceiro e fez outro gol contra. E não que o camisa 20 se contivesse aos passes. Chegava sempre rasgando, também forçando defesas de Rui Patrício.

No começo do segundo tempo, Portugal tentava sair mais para o jogo. A Alemanha, com tranquilidade, desenhou a goleada parcial. E foi impressionante como os lusitanos não contiveram a hemorragia pelo lado direito de sua defesa, onde Gosens deitava e rolava para cima de Nélson Semedo. O mecanismo da Mannschaft fluía: Thomas Müller era importante para se movimentar e puxar a defesa. Pela direita, preparava à criatividade de Kimmich, bem resguardado por Ginter. Então, a inversão encontrava as costas portuguesas sempre livres para Gosens, como uma lança, dar suas estocadas na meta adversária.

O terceiro gol não mudou muito a combinação, com Gosens recebendo uma abertura de Müller e cruzando para Havertz marcar. O ala esquerdo, ainda assim, merecia uma recompensa maior. E ela veio no quarto tento, livre para cumprimentar de cabeça o cruzamento de Kimmich rumo às redes. O gol era merecido pela partidaça do camisa 20. Mais merecidos ainda foram os aplausos da torcida em sua saída de campo, numa substituição que não era necessariamente boa à Mannschaft, mas dava para entender no intuito de poupar o protagonista do jogo. Marcel Halstenberg entrou para fechar mais o lado esquerdo e nem de longe repetiria o escape de Gosens. Os alemães perderam poder de fogo, mas não desperdiçaram a ótima vitória construída por seu destaque.

A lateral esquerda era exatamente vista como um ponto fraco da Alemanha na Copa do Mundo de 2014. Benedikt Höwedes deu conta do recado por ali, mas era menosprezado na equipe tetracampeã. Com Gosens na Euro 2020, acontece exatamente o contrário, até considerando a forma como ele e Kimmich podem oferecer características distintas pelos lados. O sucesso dos alemães na Eurocopa depende de um encaixe e a defesa por vezes pareceu vulnerável contra os portugueses. Porém, numa partida em que o ataque funcionou tão bem, as esperanças de uma boa campanha se revigoram. Melhor ainda quando alguns atletas se mostram tão à vontade. E o esquema adotado por Löw parece o ideal para explorar o potencial de Gosens. Sai em alta de Munique. Se ninguém nunca o viu na Bundesliga, certamente hoje não existe torcedor alemão que não o agradeça pelo que ofereceu ao time.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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