Eurocopa

Quando os ucranianos enfrentaram os ingleses pela Euro ainda como parte da União Soviética

URSS x Inglaterra disputaram a decisão do terceiro lugar em 1968 e também o jogo que classificou os soviéticos à semifinal em 1988

Os ucranianos quase sempre tiveram presença expressiva (quando não a maioria) nas seleções da antiga União Soviética, que enfrentou a Inglaterra duas vezes pela Eurocopa. Na primeira, em 1968, o English Team campeão do mundo de Alf Ramsey venceu bem por 2 a 0 no mesmo Estádio Olímpico de Roma – local do confronto deste sábado – e garantiu o terceiro lugar, sua melhor posição no torneio. Vinte anos depois, o timaço de Valeriy Lobanovskiy, repleto de jogadores do Dynamo Kiev, deu o troco em Frankfurt, atropelando a equipe de Bobby Robson por 3 a 1 e avançando às semifinais.

Em 1968, a Inglaterra leva o bronze em Roma

Terceira edição da história da Euro, o torneio de 1968 foi o primeiro a ter a fase classificatória composta de grupos, em vez de um mata-mata direto em ida e volta. Curiosamente, a Uefa cedeu ao pedido das federações do Reino Unido para que o tradicional Campeonato Britânico formasse ele próprio um dos grupos. Assim, as edições de 1966/67 e 1967/68 do quadrangular que reunia Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales valeram também, somadas, uma vaga nas quartas de final da competição europeia.

Apesar das dificuldades enfrentadas diante dos eternos rivais escoceses, que arrancaram uma vitória histórica em Wembley por 3 a 2 em abril de 1967, os ingleses confirmaram a classificação às quartas com um empate em 1 a 1 no Hampden Park e teriam pela frente a Espanha, no que seria o primeiro confronto da história entre um campeão do mundo e um campeão europeu. A equipe de Alf Ramsey, entretanto, passou sem maiores problemas: venceu em casa por 1 a 0 e também em Madri, de virada, por 2 a 1.

Quatro dias antes de estrear na fase final, a ser disputada na Itália, a Inglaterra foi a Hannover para um amistoso contra a Alemanha Ocidental e sofreu a primeira derrota de sua história para o Nationalelf: 1 a 0. O desgaste deste revés teria seus efeitos na partida contra a Iugoslávia, pela semifinal da Euro em Florença. Num jogo muito truncado e até violento, os balcânicos acabariam marcando com Dragan Džajić a quatro minutos do fim e vencendo por 1 a 0. Mas outro incidente entrou para a história pelo lado ruim.

Pouco depois do gol, já perto do fim da partida, o volante Alan Mullery sofreu uma entrada dura de Dobrivoje Trivić e revidou, sendo expulso pelo árbitro espanhol José María Ortiz de Mendíbil. Naquele momento, ele se tornava o primeiro jogador da história da seleção inglesa a ser excluído de uma partida. “O calcanhar do meu meião estava vermelho, o sangue escorria e meu coração batia muito rápido. Furioso, eu me virei e lhe dei um chute naquele lugar. Ele caiu feito um saco de batatas”, relembrou Mullery.

Suspenso do jogo seguinte e multado pela própria Football Association, além de ter sua participação na seleção eternizada de uma maneira não muito agradável e que o persegue até hoje, o volante pediu desculpas aos companheiros, mas não foi repreendido pelo técnico Alf Ramsey. Pelo contrário: “Estou feliz que alguém tenha revidado contra esses filhos da puta”, foi a reação do treinador, que fez questão de pagar do próprio bolso a multa de 50 libras (boa quantia para a época) imposta pela federação.

Na outra semifinal, a União Soviética teve pela frente a anfitriã Itália em Nápoles. O time dirigido por Mikhail Yakushin superara com facilidade o grupo eliminatório pelo qual enfrentou Áustria, Grécia e Finlândia, antes de reverter uma derrota de 2 a 0 para a Hungria em Budapeste com um 3 a 0 em Moscou pelas quartas. Porém, a exemplo dos ingleses, também havia entrado em campo apenas quatro dias antes da estreia na Euro, jogando contra a Tchecoslováquia pelo torneio pré-olímpico dos Jogos da Cidade do México.

Naquela partida, a equipe sofreria duas baixas importantes: a do defensor Murtaz Khurtsilava e a do atacante Igor Chislenko, ambos lesionados e fora do jogo contra a Azzurra. Mesmo assim, os soviéticos conseguiram segurar o ímpeto dos donos da casa, empurrados pela torcida local, e o empate em 0 a 0 prevaleceu pelo tempo normal e prorrogação. Na época, a decisão nos pênaltis ainda não havia chegado às competições oficiais, e o regulamento da Eurocopa previa um jogo desempate apenas para a final.

A definição do classificado veio por sorteio, na insólita moedinha jogada ao ar pelo árbitro Kurt Tschenscher, da Alemanha Ocidental. E a Itália do capitão Giacinto Facchetti levou a melhor. Com apenas um gol marcado em 210 minutos de futebol, as semifinais da Euro apontaram a decisão entre italianos e iugoslavos, enquanto ingleses e soviéticos jogariam pelo terceiro lugar. Ambos os jogos seriam no Estádio Olímpico de Roma, no mesmo dia 8 de junho (o jogo pelo bronze à tarde e a decisão do título à noite).

Contra a Inglaterra, Mikhail Yakushin escalou o mesmo time do jogo de três dias antes. Entre os titulares, o atacante Anatoliy Byshovets era o único jogador do Dynamo Kiev, porém outros dois ucranianos também figuravam: o zagueiro Vladimir Kaplichny e o meia Yuri Istomin, ambos atletas do CSKA Moscou. Era uma equipe jovem, com apenas dois jogadores acima de 26 anos, mas ainda assim com bastante rodagem internacional: mais da metade dos titulares já havia ultrapassado as 15 partidas pela seleção soviética.

Base daquela equipe, o CSKA também cedia o goleiro Yuri Pshenichnikov, o lateral-direito Valentin Afonin e o líbero e capitão Albert Shesternyov, que atuava ao lado de Kaplichny pelo centro. A defesa se completava com o lateral-esquerdo Gennady Logofet. No meio, Istomin fazia dupla com Aleksandr Lenev, enquanto no ataque havia os pontas Eduard Malofeev (pela direita) e Gennady Yevriuzhikin (pela esquerda), com os goleadores Byshovets e Anatoliy Banishevskiy pelo miolo. Uma equipe perigosa.

Pelo lado inglês, Alf Ramsey promoveu algumas modificações após a derrota para a Iugoslávia. Além da saída do suspenso Alan Mullery para o retorno do velho cão de guarda Nobby Stiles na cabeça de área, havia uma troca na lateral-direita – Keith Newton cedia o posto ao estreante Tommy Wright – e outra no setor ofensivo, entre dois titulares de 1966 – o meia-direita Alan Ball saía do time para o atacante Geoff Hurst reaparecer na frente. Ao todo, eram oito jogadores da final da Copa do Mundo em campo.

O desenho tático, no entanto, era ligeiramente diferente e um pouco torto em relação ao famoso 4-4-2 com o meio-campo em formato de diamante apelidado “Wingless Wonders” que Ramsey utilizara na reta final do Mundial. Sem Alan Ball, o curinga Norman Hunter (zagueiro de origem, mas utilizado em diversos outros papeis) formava uma dupla de volantes com Stiles. O lado direito do ataque, porém, ficava um tanto abandonado, à mercê das descidas de Tommy Wright ou do próprio Hunter ou ainda de Hurst.

Assim, a equipe contaria com Gordon Banks no gol, atrás da linha de quatro defensores formada por Tommy Wright, Brian Labone (o novo titular da zaga no lugar de Jack Charlton), Bobby Moore e Ray Wilson; Nobby Stiles e Norman Hunter como uma dupla de volantes, tendo Martin Peters mais aberto pelo lado esquerdo e Bobby Charlton fazendo a ligação com o ataque. E na frente, a mesma dupla da final de 1966: Roger Hunt (que recuava mais para buscar jogo) e Geoff Hurst (às vezes caindo pelas pontas).

A tônica do jogo na primeira etapa são os soviéticos atacando pelas pontas, enquanto os ingleses tentam infiltrar pelo meio. Porém, é pelo lado esquerdo do ataque que surge a primeira grande chance do time de Alf Ramsey, na marca dos 20 minutos, numa descida de Martin Peters até a linha de fundo, cruzando para trás para a chegada de Roger Hunt. A finalização, no entanto, sai bem acima do gol. Já aos 39, enfim a Inglaterra vê uma boa combinação ofensiva por aquele lado ser concluída em gol.

Bobby Moore avança com a bola dominada desde a defesa e entrega a Martin Peters na meia esquerda. O camisa 11 gira e alça para a área. Hurst ganha a disputa pelo alto e ajeita para Bobby Charlton chegar de trás e fuzilar Pshenichnikov de perna esquerda. O segundo gol sai na metade da etapa final, de novo pelo meio: Martin Peters desarma Afonin na intermediária, avança e chuta mascado. A bola resvala na defesa, Kaplichny escorrega e Hurst pega a sobra para driblar o goleiro soviético e fechar o placar em 2 a 0.

Em 1988, os soviéticos avançam afundando os ingleses

Duas décadas depois, quando a Euro já mudara seu formato, as duas seleções se reencontraram no mesmo Grupo B da edição realizada na Alemanha Ocidental, que também incluía Holanda e Irlanda. Se os ingleses vinham de excelente campanha nas Eliminatórias, os soviéticos não ficavam atrás e apresentavam uma base bastante coesa: nada menos que oito dos titulares da equipe de Valeriy Lobanovskyi atuavam pelo Dynamo Kiev, que dois anos antes conquistara a Recopa sob o comando do mesmo treinador.

Com isso, a seleção cumpriu campanha bastante segura no Grupo 3 das Eliminatórias, apesar de ter como adversária uma França vinda de um terceiro lugar na Copa do Mundo do México e que ainda contou com Michel Platini em seus primeiros jogos. Os soviéticos, que chegaram a bater os Bleus por 2 a 0 no Parque dos Príncipes, avançaram invictos, com cinco vitórias e três empates num grupo em que a Alemanha Oriental acabaria se revelando a perseguidora mais consistente e que ainda tinha Noruega e Islândia.

Já a Inglaterra sobrou no Grupo 4 das Eliminatórias. Mesmo incluída numa chave com quatro equipes, teve o melhor ataque da fase de classificação – marcou 19 gols em seis jogos – e mostrou também força defensiva ao ser vazada apenas uma vez. Somou cinco vitórias e um empate, sendo que nos dois últimos duelos amassou a Turquia em Wembley por 8 a 0 e a Iugoslávia em Belgrado por 4 a 1, confirmando a vaga neste confronto. Esse cartel, juntamente com os bons resultados em amistosos, credenciava até ao título.

Pouco depois de se classificar, porém, a equipe de Bobby Robson sofreu uma baixa importante: a do experiente zagueiro Terry Butcher, líder do setor defensivo, que fraturou a perna atuando por seu clube, o Rangers escocês, em novembro de 1987 e perdeu o resto daquela temporada, o que incluiria a Eurocopa. Com a zaga assistindo a um rodízio entre Tony Adams (Arsenal), Mark Wright (Derby County) e Dave Watson (Everton), o setor deixou de transmitir a mesma segurança e se tornou um problema para Bobby Robson.

Do meio para a frente, porém, a ótima fase de John Barnes e Peter Beardsley no Liverpool era um ponto a favor, embora Bobby Robson hesitasse em utilizar de início Glenn Hoddle, o meia mais talentoso da equipe e que também vivia momento especial ao levar o Monaco ao título francês. Já Gary Lineker, com prestígio em alta pela artilharia do Mundial mexicano, experimentava momento instável pela relação conturbada com Johan Cruyff no Barcelona, mas continuava marcando com regularidade pela seleção.

E a primeira rodada do grupo já reservaria surpresas: a Inglaterra seria batida pela zebra Irlanda, que marcou logo aos cinco minutos com Ray Houghton e se defendeu como pôde pelo resto do jogo, garantindo o 1 a 0. O mesmo placar foi registrado no outro jogo, no qual a União Soviética derrotou a Holanda, que voltava a um grande torneio de seleções após oito anos ausente como favorita ao título. Um gol de Vasiliy Rats no começo da etapa final definiu a vitória de uma equipe que se candidatava a sensação do torneio.

Na segunda rodada, porém, a União Soviética também teria dificuldades contra a Irlanda, saindo atrás em um golaço de Ronnie Whelan no primeiro tempo e só chegando ao empate a 16 minutos do fim da partida com Oleg Protasov. Além de manter as duas seleções empatadas na liderança da chave com três pontos, o resultado encerrou as chances da Inglaterra, que mais cedo perdeu para a Holanda por 3 a 1 com três gols de Marco van Basten, num jogo em que chegou a buscar o empate no começo da etapa final.

Diante disso, as duas equipes chegavam ao confronto pela última rodada com ambições distintas. Os soviéticos buscavam confirmar a classificação, que viria com pelo menos um empate. Porém procuravam a vitória para evitar um duelo com a anfitriã Alemanha Ocidental nas semifinais. Já os ingleses, sem chances matemáticas, jogavam apenas pela honra, para não terminarem zerados na competição. Em todo caso, Bobby Robson promoveu três alterações na equipe – algumas um tanto contestadas por imprensa e torcida.

No gol, Chris Woods ganhava uma chance no lugar do veterano Peter Shilton, que aos 38 anos havia completado 100 jogos pelos Three Lions contra a Holanda. No criticado miolo de zaga, era a vez de Dave Watson formar a dupla com Tony Adams. E houve ainda a entrada do meia Steve McMahon, jogador mais “pegador”, no lugar do atacante Peter Beardsley, seu companheiro de Liverpool. Assim, a equipe trocaria o tradicional 4-4-2 com duas linhas de quatro por uma espécie de 4-1-4-1 com Lineker sozinho na frente.

De resto, permaneciam Gary Stevens e Kenny Sansom nas laterais, Bryan Robson e Glenn Hoddle no centro do meio-campo, além de Trevor Steven (que ganhou a posição de Chris Waddle durante o torneio) e John Barnes nas pontas. Lobanovskyi também fez mudanças na União Soviética, mas no lado direito da equipe, com as entradas do experiente lateral Vladimir Bessonov e do meia Gennady Litovchenko nos lugares do veterano Tengiz Sulakvelidze (que saíra no intervalo contra a Irlanda) e de Anatoli Demianenko.

Com isso, a escalação inicial da seleção naquela tarde de 18 de junho no Waldstadion de Frankfurt teria oito nomes do Dynamo Kiev, todos eles ucranianos de nascimento, à exceção do líbero Oleg Kuznetsov, natural da Alemanha Oriental, mas com família originária daquela república soviética e que se mudaria para lá ainda pequeno. Os outros três eram o goleiro Rinat Dasaev e o zagueiro Vagiz Khidiyatullin, russos e jogadores do Spartak Moscou, e o meia Sergei Aleinikov, bielorrusso que defendia o Dinamo Minsk.

O time de Lobanovskyi alinharia, portanto, Dasaev no gol e Bessonov, Khidiyatullin, Kuznetsov e Rats no quarteto de defesa. No meio, Aleinikov era o vértice mais recuado, com Litovchenko pelo lado direito, Aleksei Mikhailichenko pelo esquerdo e Aleksandr Zavarov na ligação com o ataque. Os dois homens de frente eram Oleg Protasov e Igor Belanov. E essa equipe já abre o placar aos três minutos: Aleinikov desarma Hoddle na saída de bola inglesa, invade a área, dribla Watson e bate sem chance de defesa para Woods.

Atônita, a Inglaterra ainda assiste a Protasov acertar o pé da trave com uma finalização cruzada e rasteira após receber passe de Mikhailichenko num contra-ataque fulminante. Porém, o gol de empate também não demora a sair. Aos 15 minutos, numa cobrança de falta pelo lado direito do ataque, Hoddle se recupera do erro anterior ao fazer um levantamento perfeito para a área na cabeça de Adams, que toca para longe do alcance de Dasaev. Os ingleses crescem na partida e vivem seu melhor momento.

O time de Bobby Robson chega muito perto da virada ainda na primeira metade da etapa inicial: Barnes faz grande jogada pela esquerda e cruza na área. Dasaev salta, mas não acha nada. Trevor Steven cabeceia forte para o chão, a bola quica e pega no travessão. O castigo vem aos 26 minutos: Mikhailichenko recebe perto da área, abre na esquerda com Litovchenko e aparece infiltrado no meio da defesa inglesa para receber de volta o cruzamento e escorar de cabeça, sozinho, recolocando os soviéticos na frente.

O gol é um balde de água fria nos ingleses, que tentam reagir, mas carecem de força no ataque –isolado, Lineker é muito pouco acionado – e não chegam a levar perigo. E as alterações de Bobby Robson no segundo tempo também não mudam muito a estrutura da equipe (o centroavante Mark Hateley entra, mas no lugar de Lineker, depois que McMahon dá lugar a outro volante, Neil Webb). O banco que funciona é o soviético: aos 28, Rats pega uma sobra da defesa e cruza para o reserva Viktor Pasulko mandar às redes.

A vitória por 3 a 1 deixou a seleção de Valeriy Lobanovski na liderança do grupo ao mesmo tempo em que mandou os ingleses de volta para casa sem marcar nenhum ponto. Na semifinal, a União Soviética ainda despacharia a Itália por 2 a 0, antes de reencontrar a Holanda na decisão e, desta vez, sair derrotada também por 2 a 0. Aquela seria a última edição da Eurocopa antes de o bloco de nações que formava o país socialista novamente se fragmentar. E a Ucrânia somente estrearia no torneio em 2012, quando foi uma das sedes.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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