Eurocopa

Quando a Islândia ficou a 20 minutos de barrar a consagração da França de Zidane na Euro 2000

A França representará aquele que (ao menos por enquanto) será o momento mais grandioso do futebol da Islândia. Entrar em campo no Stade de France e ter a chance de eliminar os anfitriões nas quartas de final da Euro já é um enorme prêmio para os nórdicos, diante de tudo o que têm protagonizado nos últimos anos – e que pode ir além, considerando a capacidade que o time demonstrou até o momento. Os próprios Bleus, no entanto, também figuram outro capítulo bastante lembrado do passado da seleção islandesa. Tempos de vacas magras, quando conquistar uma vitória contra uma grande seleção era um Cometa Halley e as grandes competições internacionais não passavam de um sonho distante.

Entre 19998 e 2000, a França viveu o seu período mais vitorioso da história. Época inspiradíssima de Zidane, de uma linha defensiva excepcional, de ótimos volantes, de atacantes notáveis que começavam a surgir. No fatídico 12 de julho, todos aqui se lembram o que os Bleus fizeram contra a seleção brasileira. Pois menos de dois meses depois eles já iniciavam a campanha rumo à Eurocopa. Começavam as Eliminatórias viajando a Reykijavík. Pegariam uma Islândia que não era necessariamente o time mais fraco do grupo, mas também não brigaria pela classificação, até pela presença da embalada Ucrânia (baseada no timaço do Dynamo Kiev) e da Rússia.

Roger Lemerre, substituto de Aimé Jacquet à frente dos Bleus, escalou muitos dos titulares na final da Copa do Mundo: Barthez, Thuram, Lizarazu, Deschamps, Karembeu, Djorkaeff, Zidane. Do outro lado, a Islândia contava com uma equipe muito mais modesta, de destaques atuando majoritariamente em clubes da Escandinávia ou times secundários do futebol inglês. O desnível era evidente, mas dava para ter confiança. Em seis encontros anteriores pelas eliminatórias da Euro, os nórdicos já tinham segurado dois empates diante dos franceses em Reykijavík: 0 a 0 em 1975 e 1 a 1 em 1986 – sem Platini, mas com Tigana, Amoros, Bats, Battiston e outras referências da época.

Os islandeses cometeriam o crime de novo. Aos 33 minutos do primeiro tempo, Ríkhardur Dadason aproveitou uma péssima saída de Barthez do gol para marcar de cabeça. A alegria pela vantagem não durou muito, quando Zidane resolveu jogar. A partir de um lance individual do camisa 10, se originou o empate, com Dugarry aproveitando o rebote de uma defesaça do goleiro Birkir Kristinsson. Já no segundo tempo, Djorkaeff ia marcando um lindo gol para virar. Sua cobertura acabou impedida pelo travessão. Não era dia da França, mas era da Islândia, que já comemorou aquele placar como um feito. Eles pararam a melhor seleção do mundo.

Na sequência da campanha, os islandeses conquistaram alguns resultados notáveis: venceram a Rússia de Mostovoi e Karpin em Reykijavík por 1 a 0, graças a um gol contra de Kavtun, além de buscarem o empate por 1 a 1 diante da Ucrânia de Shevchenko e Rebrov em Kiev. A França, por sua vez, não foi tão dominante quanto se esperava. Empatou os dois jogos contra os ucranianos, mas realmente jogou fora pontos importantes quando perdeu para os russos dentro do Stade de France, por 3 a 2. Chegou à última rodada com a classificação ameaçada.

Os Bleus foram ao último compromisso na terceira colocação do Grupo 4. Estavam um ponto atrás da Ucrânia e igualados à Rússia, embora ficassem atrás por causa dos critérios de desempate. As antigas repúblicas soviéticas se enfrentariam em Moscou. Mas os franceses não encontraram um adversário fácil no Stade de France, mesmo com a Islândia eliminada. Por 32 minutos, os nórdicos tiraram os então campeões do mundo da Eurocopa.

Lemerre, mais uma vez, escalou o seu timaço, com algumas mudanças: Lama, Thuram, Desailly, Blanc e Lizarazu; Deschamps, Boghossian, Djorkaeff e Zidane; Wiltord e Laslandes. E tudo parecia sob controle quando, aos 17 minutos, a França abriu o placar e ia adiantando a classificação. Justo Dadason, o herói um ano antes, marcou contra as próprias redes. Aos 38, mais tranquilidade. Diante do esforço débil da defesa nórdica, Djorkaeff ampliou a diferença. Enquanto isso, o placar em Moscou seguia zerado.

Mas a Islândia demonstrou no segundo tempo uma força que nenhum dos 78,3 mil presentes no Stade de France esperava. Meio-campista do Hertha Berlim, Eyjolfur Sverrisson anotou um golaço. Em uma falta de longa distância, soltou a bomba no canto, para vencer o goleiro Bernard Lama. E o empate se concretizou com apenas 11 minutos da etapa complementar. A boa trama coletiva não foi devidamente acompanhada pelos defensores adversários. Volante do Stoke City, Brynjar Gunnarsson apareceu como elemento surpresa para finalizar e igualar o marcador. “Isso não é impossível… Não dá pra acreditar…”, exclamava o comentarista da TV francesa, sem esconder o seu abatimento.

A salvação da França viria apenas do banco de reservas. David Trezeguet substituiu Laslandes. E, sete minutos depois, aos 26, marcou o gol da vitória. Mas foi chorado: após uma cobrança de escanteio, os Bleus ainda pararam no goleiro Birkir Kristinsson e o centroavante só conseguiu estufar as redes no rebote. O triunfo por 3 a 2 colocou a França na Euro 2000. Não seria de outra maneira. Com gols depois dos 30 do segundo tempo, Rússia e Ucrânia empataram por 1 a 1 em Moscou. Um tropeço dos franceses não daria direito nem mesmo à repescagem.

Apesar da derrota, aquele jogo de outubro de 1999 entrou para o imaginário do futebol islandês, até pelo golaço de Sverrisson. Já a França caminharia para o seu segundo título continental. Coube justamente a Trezeguet marcar o gol de ouro que ratificou a conquista, na decisão contra a Itália. Passado que se revisita outra vez no Stade de France. Mas que, agora, tem a esperança de um feito gigante para os próprios islandeses.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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