Eurocopa

Primeira em um mata-mata desde 1938, vitória da Suíça é para marcar uma geração talentosa, mas que devia algo especial

Nomes como Seferovic, Xhaka, Shaqiri e Rodríguez enfim entregaram a campanha que deles se esperava

Quase doze anos atrás, em Abuja, capital da Nigéria, a Suíça, depois de eliminar o Brasil na fase de grupos, derrotou a dona da casa por 1 a 0, gol de Haris Seferovic, e conquistou o Mundial Sub-17. Além de Seferovic, Granit Xhaka e Ricardo Rodríguez foram titulares naquela partida.

Dois anos depois, em 2011, Xherdan Shaqiri, Yann Sommer e Admir Mehmedi começaram jogando, ao lado de Xhaka, na decisão da Eurocopa sub-21 contra a Espanha. Mario Gavranovic saiu do banco de reservas, mas não conseguiu impedir a derrota por 2 a 0, gols de Ander Herrera e Thiago.

Ao longo da última década, esses e outros jogadores, alguns dos quais ficaram pelo caminho, como o volante Fabian Frei, formaram a espinha dorsal de uma seleção suíça que prometeu muito, justamente pelas boas campanhas em torneios de base e por fornecer bons nomes para clubes importantes, mas que ainda não havia entregado nada de muito especial.

Não que se esperasse o título da Copa do Mundo ou da Eurocopa. Não era para tanto, embora fosse a melhor geração da Suíça em muito tempo. Mas, as campanhas entre 2014 e 2018, em duas Copas do Mundo e uma Eurocopa, frustraram porque não parecia que a seleção havia aproveitado essa reunião de talento para marcar seu nome na história.

Foram três eliminações nas oitavas de final. Uma para a Argentina, normal, mas duas que deixaram a sensação de que poderiam ser evitadas, para a Polônia, na Euro 2016, nos pênaltis, e para a Suécia na Rússia. Nenhum vexame, mas seguiam sem fazer nada especial. A última vitória da Suíça em um jogo de mata-mata continuava sendo no Mundial de 1938, quando derrotou a Alemanha nos pênaltis. Em Paris.

Até chegar esta segunda-feira. Lá estavam todos eles em campo: Yann Sommer, Ricardo Rodríguez, Granit Xhaka, Xherdan Shaqiri e Haris Seferovic. Admir Mehmedi e Mario Gavranovic entraram no segundo tempo. Cada um contribuiu em níveis diferentes. Seferovic e Gavranovic fizeram os gols. Rodríguez perdeu um pênalti. Shaqiri teve atuação apagada. Xhaka foi um dos melhores em campo, e Sommer defendeu a cobrança decisiva de Mbappé.

Mas a caminhada para sair daquela partida em Abuja e chegar à vitória desta segunda-feira em Bucareste contra atual campeã do mundo foi mais longa do que 90 minutos.

E, para ser sincero, nem parecia que era a hora. A Suíça não fazia uma campanha especial. Jogou melhor que Gales, sem contundência para fazer mais do que um gol, e levou o empate nos minutos finais. Foi atropelada pela Itália, como todos foram na primeira fase, e atropelou a Turquia, como todos fizeram na primeira fase. Era, mais uma vez, nada muito especial.

Até começar o jogo contra a França. A formação com três zagueiros, Ricardo Rodríguez na zaga, e Steven Zuber como ala, com Shaqiri livre para armar atrás de Seferovic e Breel Embolo, foi mantida. E, aos 15 minutos, algo de especial: Zuber cruzou, Seferovic matou de cabeça, e a França se viu atrás no placar.

Um gol cedo foi um golpe complicado ao plano de jogo da França, que havia deixado clara sua intenção de defender com um bloco baixo e contra-atacar. Precisaria tomar mais iniciativa. Tomou, mas não criou muita coisa. A chance de ouro apareceu para a Suíça. Um pênalti logo aos oito minutos do segundo tempo. Diante da inaptidão francesa, abrir 2 a 0 não mataria o jogo, mas seria um belo avanço. Rodríguez, porém, parou em Hugo Lloris.

O roteiro que caminhava para uma vitória apertada e suada da Suíça passou por uma reviravolta. Karim Benzema bagunçou tudo com um golaço para empatar, matando o passe ruim de Mbappé sabe-se lá como, e depois virando o jogo com uma cabeçada na segunda trave. Para piorar, Pogba ampliou para 3 a 1 com um lindo arremate de fora da área.

E a história da partida parecia muito mais comum: um time inferior se esforçou para complicar a vida do favorito, teve a oportunidade de cortar a cabeça da serpente, vacilou e agora seria engolido. Uma frustração a mais à lista de chances desperdiçadas. Mas desta vez foi diferente porque Seferovic descontou, e Gavranovic empatou, na marca dos 45 minutos do segundo tempo, para forçar a prorrogação.

Houve demérito da França, muito relaxada na marcação, mas principalmente muito mérito da Suíça para não desistir nunca, talvez inspirada pelo que a Croácia havia feito no jogo anterior contra a Espanha – buscando o empate após também estar perdendo por dois gols de diferença. Ao contrário dos croatas, os suíços seguraram os franceses durante o tempo extra, e tudo passou a depender da capacidade de cobrar pênaltis.

Curiosamente, em uma Euro com índice de conversão tão baixo, os nove primeiros batedores acertaram. Para a Suíça, bateram Gavranovic, Fabian Schär, Manuel Akanji, Ruben Vargas e Mehmedi, representantes de gerações diferentes da Suíça. Todos converteram. A França também estava perfeita até Mbappé parar em Sommer, o goleiro daquele vice-campeonato europeu sub-21 de 2011.

Até houve uma hesitação antes da comemoração. Parecia que o árbitro checaria se ele havia se adiantado ou não, mas a defesa foi confirmada. E, finalmente, aquele geração havia conseguido algo de especial. Eliminou a atual vice-campeã da Eurocopa. Eliminou a atual campeã do mundo. Eliminou aquela que era apontada por muitos como a principal candidata ao título da Euro 2020. Conseguiu a melhor campanha da Suíça desde as quartas de final da Copa do Mundo de 1954, em casa.

A caminhada pode terminar na próxima fase contra a Espanha. Ou seguir por mais uma ou duas rodadas. De qualquer maneira, Seferovic, Xhaka, Rodríguez, Shaqiri, Sommer, Mehmedi, Gavranovic e outros sobrenomes que denotam as diferentes origens de um mesmo time já cavaram um lugar de destaque na história da seleção suíça.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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