Eurocopa

Portugal e Gales usaram uniformes reservas por um motivo mais nobre do que se pensa

Uma das explicações para que Portugal e Gales usassem seus uniformes reservas mostra que talvez tenhamos que pensar um pouco melhor antes de reclamar

ATUALIZADO: 07/07/2016, 12h51: incluída resposta da Uefa sobre o uso dos uniformes reservas no jogo entre Portugal x Gales

Quando Portugal e Gales entraram em campo com seus uniformes reservas, a maioria dos torcedores estava sem entender. Os dois usaram seus uniformes reservas. Portugal, que era mandante do jogo pelo sorteio, entrou com o seu uniforme verde bem claro, enquanto Gales usou o uniforme escuro, que parece preto, mas é um verde escuro. Difícil entender por que isso aconteceu, certo? A explicação que surgiu no Twitter mostra uma questão que poucos consideram: daltonismo.

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Vale a explicação aqui: o daltonismo verde/vermelho é o mais comum que existe no mundo, com muitas variações de níveis de daltonismo. Lembrando que Portugal usa um uniforme todo vermelho e o reserva, verde claro, foi justamente o utilizado nesta quarta-feira contra Gales. Os britânicos, por sua vez, usam o vermelho como cor principal e a cor reserva é um verde bem escuro, que dá a sensação de preto. Segundo as regras da Uefa, é preciso ter uma diferenciação entre cores claras e escuras. Uma das razões é justamente permitir que os daltônicos possam assistir aos jogos na TV sem problemas. Ao saberem que Portugal vestiria verde claro, os galeses fizeram um pedido para jogar de vermelho, como reporta o Gales Online, mas foi negado pela Uefa.

Consultamos a Uefa sobre o caso. “Em relação às cores dos times na partida entre Portugal e Gales, nós informamos que o time A [Portugal, no caso] não pôde vestir o seu primeiro uniforme (o contraste não era suficiente entre o vermelho escuro de Portugal e o vermelho ou preto de Gales). Portanto, como compromisso, os dois times tiveram que vestir o seu segundo uniforme. A decisão final na escolha dos uniformes é tomada na reunião organizacional na manhã da partida”, diz a resposta enviada à Trivela. “Em nível similar, nós gostaríamos de informar que a Uefa implantou um serviço específico para cegos ou pessoas com visão parcial na Uefa Euro 2016, visando deixar um legado e melhorar a acessibilidade ao futebol”, diz ainda a resposta da entidade que dirige o futebol europeu.

A razão que normalmente se ouvia anos atrás era que as televisões em preto e branco poderiam confundir os uniformes. Isso não parece ser uma questão relevante atualmente. A questão é que a confusão de cores pode afetar uma grande parte da audiência que é daltônica. E se você acha que isso não é importante, nós temos um exemplo que mostra o quanto isso pode ser excludente. Um jogo da NFL em 2015 mostrou que uma má escolha de uniformes torna o jogo impossível de assistir para quem é daltônico. O Deadspin explicou a questão e simulou um vídeo de como pessoas com daltonismo viram o jogo. É frustrante, para dizer o mínimo.

Matheus Rocha, que já escreveu aqui para a Trivela e também para o Extratime, alertou sobre a possível confusão que haveria com um dos times usando o seu uniforme principal, ainda no início do jogo.

São diversos tipos de daltonismo, com diferentes consequências e percepções. A Colour Blind Awareness, entidade que trata disso no Reino Unido, tem uma ótima explicação em inglês. Há diversos sites que falam sobre o daltonismo, inclusive em português. E esta é uma questão muito importante, que muitas vezes nós ignoramos. E por isso é preciso prestar atenção. Talvez esteja aí uma chave para entender por que há uma regulamentação, tanto na Uefa quanto na Fifa, para que os times joguem com uniformes claros x uniformes escuros. Alguém pode perguntar: considerando que Portugal teria que usar uma cor clara, uma vez que os dois uniformes de Gales são escuros, os galeses não poderiam usar vermelho? Bom, a explicação também pode ser pela via do daltonismo. Um dos tipos de daltonismo é a Protanopia, que confunde, entre outras cores, preto com alguns tons de vermelho. Ou seja: Portugal, de verde, ainda que claro, poderia ter seu uniforme confundido com o vermelho de Gales. É por isso que a Uefa teria negado um pedido galês para jogar de vermelho. Com os portugueses de verde claro e os galeses de preto, não há problema algum. Para outros tipos de daltonismo, a mera confusão do verde (de Portugal) com o vermelho (de Gales) impediria mais de 1,25 milhão de pessoas só no Reino Unido.

A Uefa não divulgou qualquer explicação oficial sobre as razões para a mudança de uniforme, mas esta é uma explicação plausível e que faz todo sentido, ainda mais considerando que entidades como a Colour Blind Awareness solicita à entidade que trate com cuidado esta questão. Vale lembrar que um em cada 12 homens sofre de daltonismo, além de uma em cada 200 mulheres. Pode parecer pouca gente considerando o total do público, mas para estas pessoas, a escolha dos uniformes é a diferença entre conseguir ou não assistir ao jogo. Nós adoramos que os uniformes sejam mantidos de forma tradicional, que os times não sejam modificados e as cores tradicionais sejam valorizadas nos uniformes. Mas se o motivo de os times terem que sair do seu uniforme tradicional, como no caso de Portugal x Gales, for permitir que daltônicos apaixonados por futebol assistam ao jogo, não nos incomodaremos mais.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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