Eurocopa

Pandev se despede da seleção da Macedônia do Norte como um verdadeiro herói de seu país

Pandev disputou o último de seus 122 compromissos pela equipe nacional, sob diversas homenagens

Goran Pandev é daqueles jogadores que se transformam em sinônimo do futebol de seu país. A Macedônia do Norte tem seu reconhecimento no esporte, em partes, por conta do atacante. Dá até para discutir se Pandev foi o maior craque macedônio, considerando o auge de Darko Pancev. Porém, em relação à seleção, não há dúvidas da maneira como Pandev é mesmo insuperável. O veterano vestiu a camisa da equipe nacional ao longo de 20 anos, quebrando os recordes de gols e aparições. E o desfecho não poderia ser mais reluzente, ao liderar a campanha inédita da Macedônia do Norte a um torneio internacional. Se os resultados na Euro 2020 não foram bons, a grandeza de Pandev ainda assim ficou expressa. Seria assim em seu 122° e último jogo pela seleção, homenageado e ovacionado mesmo com a derrota por 3 a 0 diante de Países Baixos / Holanda.

Quando Pandev estreou pela seleção da Macedônia do Norte, em 2001, a equipe tinha apenas oito anos desde sua estreia oficial após a independência da Iugoslávia. O time havia disputado as eliminatórias para a Euro 1996 e para a Euro 2000, enquanto faria um papel razoável no qualificatório à Copa de 1998. Mas não que trouxesse grandes perspectivas, se comparada a outras ex-repúblicas iugoslavas vizinhas. O grande craque do país em seus primórdios era Darko Pancev, artilheiro do Estrela Vermelha campeão europeu e dono até de Chuteira de Ouro, mas que não faria muito no período independente e só disputou seis partidas pela seleção macedônia. Havia basicamente uma história por se escrever.

Pandev disputou sua primeira partida pela seleção da Macedônia do Norte em junho de 2001. Tinha apenas 17 anos e despontava com a camisa do Belasica na liga local, quando saiu do banco para o duelo contra a Turquia pelas Eliminatórias da Copa de 2002. Ainda levaria um tempo para que ele se firmasse na equipe nacional, até pelos rumos que sua carreira tomou entre os clubes. A promessa se juntaria inicialmente ao sub-19 da Internazionale, mas não seria aproveitado de imediato, emprestado a Spezia e Ancona.

Pandev começou a se firmar como uma grande figura da seleção a partir de 2004, liderando o ataque nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006. A Macedônia do Norte faria uma campanha modesta, mas os gols do atacante garantiram vitórias sobre a Armênia. Paralelamente, mais notável era o seu sucesso na Serie A, deslanchando com a camisa da Lazio. Não era o atacante mais efetivo, mas se empenhava demais e combinava uma boa dose de inteligência com qualidade técnica, o que resultava em muitos lances criativos. As temporadas com dois dígitos de gols se tornaram frequentes, alçando Pandev como protagonista do futebol em seu país.

Os sucessos da Macedônia do Norte entre as seleções eram bem esporádicos, com a equipe permanecendo entre os coadjuvantes dos qualificatórios. O astro também entraria em rota de colisão com o técnico Srecko Katanec, no que resultaria na demissão do comandante em 2009. Entretanto, a bandeira do país começou a tremular nas principais competições de clubes. Depois de entrar em litígio com a Lazio, Pandev se transferiu à Internazionale em janeiro de 2010 e seria uma peça complementar importante na equipe de José Mourinho, que devastou a Europa naquela temporada.

Pandev virou titular na metade final das campanhas, ocupando a ponta esquerda no time pentacampeão da Serie A e que também faturou a Champions, além da Copa da Itália. Ganharia um carinho especial da torcida nerazzurra, especialmente por sua adaptação imediata e pela maneira como era versátil, dando passes preciosos. Depois de 19 anos, como tinha conseguido Pancev e também Ilija Najdoski com o Estrela Vermelha em 1991, um jogador macedônio era campeão continental novamente. O interista, de qualquer maneira, seria o primeiro com a bandeira do país já depois da independência.

Pandev ficou apenas uma temporada e meia na Inter, fazendo as malas para o Napoli em 2011, onde também deixou uma boa impressão. Seria duas vezes campeão da Copa da Itália com os celestes, chegando a conquistar a competição cinco vezes em seis edições desde sua última temporada na Lazio. O problema estaria na seleção. A Macedônia do Norte faria uma campanha fraquíssima nas Eliminatórias para a Copa de 2014 e terminou na lanterna de seu grupo. Aos 30 anos, Pandev preferiu dar um passo atrás e anunciou sua aposentadoria da equipe nacional em 2013. Àquela altura, já era o recordista em gols pelo país.

Naquele momento, até parecia que Pandev se encaminhava ao fim de sua carreira, sem a explosão de outros tempos. Teve uma passagem frustrada pelo Galatasaray, antes de reduzir o sarrafo na Serie A e assinar com o Genoa. Se não brigava mais por títulos com o Grifone, continuava como um jogador útil para as ambições do clube. E voltaria a vestir a camisa da Macedônia do Norte a partir de 2016, encerrando um hiato de dois anos e meio longe das convocações. Reassumiu logo a braçadeira de capitão. Virou referência a uma geração talentosa que começava a despontar no país.

A Macedônia passou longe de disputar a Copa do Mundo de 2018, ainda que tenha atrapalhado a Itália com um empate. Mas a reta final da campanha já indicava a melhora do time, que daria saltos maiores logo depois. Com Pandev gastando a bola, os macedônios conquistaram seu grupo na quarta divisão da Liga das Nações e também fizeram uma campanha digna nas Eliminatórias da Euro 2020, ficando com o terceiro lugar de sua chave. Então, viria o atalho oferecido pela Uefa na repescagem. Titular absoluto, Pandev conduziu o time nas vitórias sobre Kosovo e Geórgia. Mais emblemático, anotou o gol em cima dos georgianos, que valeu a vitória por 1 a 0 e classificou o país pela primeira vez a um torneio internacional.

O bom momento da Macedônia do Norte coincidiu com as duas melhores temporadas de Pandev no Genoa. O atacante se mostrava comprometido ao sucesso da seleção e brilharia em outros duelos, como na vitória sobre a Alemanha nas Eliminatórias, em que marcou um dos gols de sua equipe em Düsseldorf. Mas nada se compararia à Euro 2020. Seria a chance de ouvir o hino macedônio numa grande competição internacional. Seria também a deixa ao grand finale de Pandev, aos 37 anos, com duas décadas defendendo o país. Uma trajetória que pode até não ser linear, mas deixou sua melhor parte à despedida.

A Macedônia do Norte perdeu os três jogos na Euro 2020, mas fez pelo menos um bom tempo em cada partida. Pandev ajudou a manter as esperanças dos azarões. E o primeiro gol dos macedônios numa competição deste porte não poderiam vir de outros pés. Que o lance diante da Áustria não tenha sido dos mais bonitos, com uma lambança dos adversários, a bola parecia pedir para ser concluída pelo capitão. Na primeira finalização do país numa Eurocopa, gol. O último dos 38 gols de Pandev servindo a equipe nacional, que até valeu o empate momentâneo, mas não renderia o triunfo ao final.

A derrota contra a Ucrânia seria mais dura, sem que a reação no segundo tempo valesse algo à Macedônia do Norte. Então, na véspera do encontro com Países Baixos / Holanda, Pandev confirmou que aquele seria seu adeus. Antes que a bola rolasse, os próprios adversários ofereceram uma camisa comemorativa ao adversário. Gentileza que traduzia grandeza. E o capitão parecia até mais leve em Amsterdã, como em seus melhores anos. Flutuava, lia muito bem os espaços, dava passes sensacionais. Por um momento, os macedônios até pareceram capazes de complicar. Muito graças ao camisa 10, que deu um lindo passe ao gol anulado de início e ainda habilitou outro companheiro para chutar na trave. O medalhão destilava sua qualidade técnica.

No segundo tempo, chegou o momento de sair. Chegou o momento de exaltar ainda mais Pandev. Aplaudido de pé na Johan Cruyff Arena, o atacante viu ainda seus companheiros formarem um corredor na beira do gramado para que ele fosse cumprimentado. Mesmo com toda a sua experiência, o camisa 10 não escondeu a comoção. É a imagem que fica, ao lado daquela vista durante a classificação à Euro 2020, quando os colegas carregaram o capitão e herói nos braços. Pandev é mais que um exemplo ou um parâmetro a se seguir, ele é um ídolo aos demais jogadores. Não há reverência maior a um gigante.

Pandev bota o ponto final numa história que fica para sempre à Macedônia do Norte. Ainda não se sabe quais serão seus próximos passos também a nível de clubes, após o fim de seu contrato com o Genoa. Seria poético se voltasse à Akademija Pandev, clube que fundou para desenvolver talentos e não demorou a se tornar uma das principais agremiações do país. Se decidir pendurar as chuteiras, Pandev já eternizou seu nome como aquele atacante marcante da Serie A, campeão pela Inter, mas também adorado em outras equipes tradicionais. De qualquer maneira, a grande façanha é esta Eurocopa e o gosto de botar sua nação no mapa das grandes competições. Melhor ainda quando pôde apresentar um pouco mais de sua classe e receber tamanhas homenagens de seus pares.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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