Eurocopa

Ótimo na final, Chiesa cresceu na hierarquia da Itália e elevou um pouco mais o nome de sua família no Calcio

Chiesa ganhou a posição nos mata-matas e se tornou um dos melhores no ataque italiano

Federico Chiesa ainda não era nem um projeto na barriga da sua mãe quando seu pai disputou a Euro 1996 com a seleção italiana. Enrico Chiesa esteve na Inglaterra e marcou um gol em Anfield, que não evitou a eliminação da Itália na fase de grupos. O filho nasceu em 1997, um ano antes que o atacante estivesse presente na Copa do Mundo. Enrico era um excelente jogador, com grande qualidade técnica e marcou 139 gols pela Serie A. Conquistou títulos por Parma e Fiorentina, também foi ídolo em Sampdoria e Siena. Todavia, o início de carreira de Federico indica que ele pode ainda mais. E bota na prateleira de casa uma medalha de ouro que o pai não conseguiu: a da Eurocopa, sendo um dos melhores jogadores da Azzurra na competição. Enrico certamente se sente orgulhoso pelo impacto do garoto e pela forma como ele deve crescer na seleção.

Comparar Enrico e Federico não é simples, por mais que ambos sejam atacantes. O pai costumava jogar como centroavante, enquanto o filho é um ponta. Enrico não precisava de força ou altura para prevalecer na área. O veterano sobrava por sua capacidade técnica. Era inteligente, muito dinâmico, ótimo nos dribles curtos. Mais importante, não tinha problema com distância para bater na bola. Seu arsenal de chutes era imenso, de cobranças de falta perfeitas a toques cheios de requinte dentro da área. Apenas as lesões atravancaram um pouco seu talento, em especial durante a estadia na Fiorentina.

Federico Chiesa herdou a habilidade do pai, mas para usá-la em velocidade máxima pelos lados do campo, produzindo muitos gols. E sua precocidade também é marcante. O garoto explodiria exatamente na Fiorentina, e já era um dos melhores do time com 19 anos. Faria três temporadas em altíssimo nível com a Viola, antes de transferir à Juventus no último ano e ser um dos melhores da equipe, independentemente das frustrações coletivas com Andrea Pirlo. Já conseguiu fazer tanto com 23 anos e ainda parece que é apenas seu começo na elite do esporte. Aos 23 anos, seu pai estava marcando gols pelo Modena na Serie B e realmente estouraria aos 25, quando foi eleito o melhor jogador da Serie A por uma campanha fantástica com a camisa da Sampdoria – na qual tinha como companheiro de ataque Roberto Mancini.

A estreia de Enrico Chiesa pela seleção aconteceu com 25 anos, levado à Euro 1996 exatamente em reconhecimento ao brilho na Samp. Disputaria 17 partidas, com sete gols marcados. Aos 23 anos, Federico já o superou com 32 partidas. Curiosamente, de seus três gols, dois vieram na Euro 2020. A primeira convocação do ponta aconteceria em março de 2018, por Luigi Di Biagio, no período transitório após a saída de Giampiero Ventura. A partir da chegada de Roberto Mancini, o garoto perderia apenas duas convocações, e por lesão. Estava claro como seria uma das faces nesse processo de renovação.

Nem sempre Chiesa foi titular na preparação à Eurocopa. Porém, participou de grande parte das Eliminatórias no 11 inicial e desequilibrou partidas jogando nas duas pontas. Era uma arma importante de se contar no elenco. Mesmo que Roberto Mancini tenha começado o torneio continental com Domenico Berardi e Lorenzo Insigne como titulares, o garoto seguia em alta conta, sempre entrando no segundo tempo. E sua fome de bola preponderaria exatamente nos mata-matas, quando confirmou seu espaço de vez como um dos melhores italianos da Euro 2020.

Chiesa ajudou a mudar o jogo contra a Áustria, ao lado de Matteo Pessina. Berardi não vinha mal, mas o camisa 14 pedia passagem e tomou a posição na ponta direita. Daria mais velocidade ao time contra a Bélgica, ainda que não tenha acertado a conclusão das jogadas. E serviria de respiro contra a Espanha, arranjando um gol quando os italianos sofriam, graças à sua inteligência na movimentação do contra-ataque. Estava em alta e não seria nem mesmo o sistema defensivo da Inglaterra que conseguiria brecá-lo por completo em Wembley.

Durante o primeiro tempo, a Itália parou na marcação cerrada da Inglaterra e pouco criou. O melhor lance do time foi de Chiesa, numa arrancada na qual brigou pela bola e chutou perigosamente ao lado da trave. Já no segundo tempo, a Azzurra se acendeu com as alterações e também com a intensidade do camisa 14. Chiesa driblou, criou, arriscou. Forçou uma defesaça de Pickford, participou dos principais lances do time. Inclusive, daria o cruzamento que resultou no escanteio para o gol de empate. A habilidade do garoto desequilibrava a decisão para os italianos e a liberdade de movimento permitiu que o ponta aparecesse em todos os lados.

Uma pena que, exatamente numa grande jogada, Chiesa tenha se lesionado. Deixou o campo aos 41 do segundo tempo e estava claro como Federico Bernardeschi não ofereceria os mesmos recursos. A Itália perdeu sua principal peça ofensiva em Wembley e o camisa 14 precisou se angustiar no banco, vendo os companheiros lutarem na prorrogação até Gianluigi Donnarumma virar o herói nos pênalti. Por fim, pôde comemorar com a medalha de campeão – com muita importância para que ela chegasse no peito, considerando o seu nível ao longo dos mata-matas.

O caminho para Chiesa está aberto na Juventus. Considerando a ótima temporada de estreia, numa equipe que não era a mais forte dos bianconeri, o ponta tende a crescer muito mais na Velha Senhora. E tal amadurecimento pode ajudá-lo ainda mais na seleção. Numa equipe jovem da Azzurra, não seria surpreendente se o camisa 14 recebesse o rótulo de protagonista desta geração ao lado de Donnarumma. Chiesa tem talento e correspondeu nesta Eurocopa, se tornando um dos jogadores que mais subiram na hierarquia italiana durante a competição. Sai bem na foto, ainda mais pela influência nesses últimos jogos. Escreve o nome da família Chiesa com mais força no Calcio. É ver o que o irmão mais novo, Lorenzo, centroavante do time sub-17 da Fiorentina, poderá também construir.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo