Eurocopa 2024

O futebol-arte em Gales idealizado por um gênio da Dinamarca: Michael Laudrup e o seu “Swansealona”

Antes de Gales x Dinamarca pela Euro 2020, vale lembrar a passagem marcante de Laudrup à frente do Swansea

Dificilmente alguém responderá um nome diferente de Michael Laudrup quando se perguntar qual o maior jogador da história da Dinamarca. O meio-campista teve um papel fundamental na revolução vivida pela seleção local a partir dos anos 1980, mesmo ausente da Euro 1992, e também marcou seu nome em grandes clubes da Europa. A trajetória do cracaço como treinador não atingiria o mesmo patamar, restrita a equipes mais modestas. Ainda assim, muito provavelmente o local onde o Michael Laudrup técnico foi mais querido é exatamente Gales. À beira do campo, o dinamarquês liderou um dos momentos mais brilhantes dos clubes locais, com o Swansea fazendo barulho na Premier League. Uma história que volta à tona com o Dinamarca x Gales na Euro 2020.

A carreira de Michael Laudrup como jogador fala por si. O meio-campista certamente foi um dos jogadores mais talentosos de sua geração, com uma visão de jogo ímpar e também uma precisão incrível nos passes. Como esse armador cerebral, Laudrup foi um dos protagonistas do Dream Team de Johan Cruyff no Barcelona. Também levantou taças por Juventus, Real Madrid e Ajax. Porém, mesmo que sua trajetória por clubes seja bastante respeitável, é pela seleção dinamarquesa que o meia ganhou o status de lenda. Ele era a pólvora da Dinamáquina que dinamitou adversários na Copa do Mundo de 1986, assim como voltou ao Mundial em 1998 jogando muito. Disputou ainda três Eurocopas, ausente por problemas de relacionamento exatamente em 1992, quando o irmão Brian era uma das referências no inacreditável título continental.

Se a Eurocopa não faz tanta falta assim à imagem ao redor de Michael Laudrup, da mesma maneira a carreira modesta como treinador não é problema ao seu currículo. Pelo contrário, até confere certa peculiaridade a esta história. Laudrup começou na casamata como assistente do igualmente histórico Morten Olsen, seu companheiro nos tempos de seleção. Aposentados, os dois lideraram a campanha da Dinamarca à Copa do Mundo de 2002, quando os escandinavos cumpriram um papel digno rumo aos mata-matas. Depois do Mundial, porém, o velho craque decidiu dar seus próprios passos. Quem abriu as portas foi o Brondby, clube onde explodiu como jogador antes de se transferir à Lazio.

Michael Laudrup permaneceu como treinador do Brondby por quatro temporadas, de 2002 a 2006, e conquistou duas vezes o prêmio de técnico do ano na Dinamarca. Não era apenas empolgação por seu passado em campo, já que os auriazuis conquistaram uma vez o Campeonato Dinamarquês e duas vezes a Copa da Dinamarca. O veterano deixaria a equipe para voltar à Espanha, onde vivera seu ápice como jogador. Mas começou num ambiente bem mais simples, liderando o ascendente Getafe, que estreara na primeira divisão pouco antes. O dinamarquês também brilhou nos Azulones. Com uma equipe ofensiva, seria finalista da Copa do Rei em 2007/08 e alcançaria as quartas de final da Copa da Uefa, vendendo caro a eliminação diante do Bayern. Porém, ficou apenas um ano trabalhando no Coliseum Alfonso Pérez.

Michael Laudrup dirigiria depois o Spartak Moscou, sendo o sucessor de Stanislav Cherchesov (o atual comandante da Rússia) no cargo. Ficaria apenas sete meses por lá, sem emplacar no clube. Já em 2010, o dinamarquês retornou à Espanha e assumiu o Mallorca. Não seria uma missão simples, considerando o baixo investimento de um clube em severa crise financeira. Ainda assim, o veterano conseguiu garantir a permanência na elite, antes de sair por desavenças com a diretoria em setembro de 2011. Levaria quase um ano sem trabalho, até desembarcar em Gales como o nome ideal para seguir um legado em 2012.

O Swansea atravessava uma ascensão marcante a partir de 2007/08. O clube tinha firmado as bases de um jogo ofensivo e de qualidade nos passes idealizado a princípio por Roberto Martínez. O atual treinador da Bélgica conseguiu levar os Cisnes da League One à Championship. O espanhol aceitou uma proposta do Wigan em 2009 e Paulo Sousa (o atual treinador da Polônia) não daria continuidade ao sucesso. Quem voltou a impulsionar os galeses foi Brendan Rodgers, que precisou de apenas uma temporada para conquistar o acesso à Premier League, recolocando o Swansea na elite do Campeonato Inglês pela primeira vez em 29 anos. E depois de uma boa campanha na primeira divisão em 2011/12, ele acabaria fisgado pelo Liverpool.

O Swansea procurava um treinador capaz de sustentar essa sede ofensiva construída por Martínez e Rodgers. Encontrou a solução em Michael Laudrup, mesmo que seus trabalhos mais recentes não fossem tão bons assim. O sucesso inicial no Brondby era a melhor mostra do que poderia fazer, assim como suas ideias de jogo calcadas na troca de passes e no domínio dos adversários através da posse. Laudrup tinha uma experiência que falava por si como jogador, com o gosto de ter aprendido um bocado sob as ordens dos revolucionários Sepp Piontek e Johan Cruyff. De certa maneira, o que aprontaria no Estádio Liberty também foi grandioso, ponderadas as limitações dos Cisnes dentro da Premier League.

O Swansea reunia uma série de bons jogadores no elenco desde os tempos de Brendan Rodgers. Michel Vorm era o goleiro, Ashley Williams liderava a zaga, Leon Britton ditava o ritmo no meio-campo, Wayne Routledge acelerava na ponta ao lado de Nathan Dyer, Danny Graham servia de referência ao ataque. As contratações melhorariam a equipe, sobretudo do meio para frente. Ki Sung-yueng e Jonathan de Guzmán deixaram o meio-campo mais recheado após a saída de Joe Allen, enquanto Pablo Hernández garantia mais agressividade na ligação. O ataque ainda ganharia Michu, trazido do Rayo Vallecano para se transformar na sensação da temporada. Seria uma das equipes mais legais de ver na Premier League, por não se intimidar contra adversários mais badalados e dominar oponentes de mesmo nível. O bom toque de bola rendeu até o apelido de “Swansealona”.

O Swansea conseguiu se sair melhor na Premier League 2012/13, terminando em nono, duas posições acima da campanha anterior sob as ordens de Brendan Rodgers. O time dirigido por Michael Laudrup chegou até a liderar depois de duas rodadas, graças às goleadas iniciais para cima de QPR e West Ham. Não se manteria lá por tanto tempo, mas conseguiu resultados expressivos ao longo da competição. Derrotou o Arsenal no Estádio Emirates, além de segurar empates contra Chelsea, Liverpool, Manchester City e Manchester United. Com 18 gols, Michu seria o quinto na lista de artilheiros. E a glória ficaria para a Copa da Liga, com a conquista do maior título da história dos Cisnes.

Aquela campanha histórica do Swansea teria momentos especiais contra Liverpool e Chelsea. Os galeses eliminaram os Reds nas oitavas de final, batendo o time de Brendan Rodgers por 3 a 1 dentro de Anfield. Já na semifinal, viria a classificação em cima dos Blues, com os 2 a 0 em Stamford Bridge antecedendo o empate por 0 a 0 no Estádio Liberty. A final em Wembley seria bem mais tranquila, contra uma surpresa até maior: o Bradford City, na época jogando a quarta divisão. O time de Michael Laudrup não deu chance às zebras e goleou por 5 a 0, com dois gols de Dyer e De Guzmán, além de mais um assinalado por Michu. Pela primeira vez desde 1927, quando o Cardiff City levou a Copa da Inglaterra, um time de Gales erguia um dos principais troféus da pirâmide do futebol inglês.

“Cada treinador traz coisas diferentes. Michael Laudrup foi um jogador incrível. A experiência e o conhecimento que ele tem são inacreditáveis. É sobre contratar o treinador certo, mas no fim das contas ainda temos jogadores que podem jogar bem”, comentaria Nathan Dyer, melhor em campo naquela decisão, depois da partida. Que a linha de trabalho no Swansea fosse positiva desde antes, a impressão era de que o comandante potencializava o ambiente. Naquele momento, começava a ser especulado até por Real Madrid e Barcelona.

Laudrup dizia não ter vontade de assumir um grande clube porque “os feitos alcançados em dez anos não são considerados depois de dez meses ruins”. Preferia um ambiente como o do Swansea, em que a pressão pelas vitórias eram menores. Porém, elas também existiam. E o dinamarquês acabou demitido em sua segunda temporada, independentemente da conquista da Copa da Liga. A lesão de Michu seria cabal, apesar da chegada de Wilfried Bony, assim como a saída de Ki para o Sunderland. Além do mais, a maratona provocada pela Liga Europa aumentou os desgastes. Desta maneira, os Cisnes ocupavam a parte inferior da tabela na Premier League e uma sequência de oito rodadas sem vitórias culminou na demissão de Laudrup em fevereiro de 2014. Garry Monk o substituiria, conciliando o papel de zagueiro com o de técnico.

O Swansea chegaria a ser oitavo colocado na Premier League 2014/15 sob as ordens do próprio Garry Monk, mas sem a exuberância dos tempos de Michael Laudrup. E o próprio dinamarquês não dirigiria outros clubes na Europa depois disso. Seus únicos trabalhos na sequência foram à frente de Lekhwiya e Al Rayyan, em passagens curtas. No Lekhwiya, Laudrup até conquistou o Campeonato Catariano debulhando recordes em sua única temporada, mas decidiu não renovar o contrato. A quem já tinha sua história construída no futebol, o trabalho como técnico parecia mais uma ocupação do que uma paixão. Não valia o cansaço.

Alguns pupilos de Michael Laudrup marcaram seus nomes na seleção de Gales tempos depois. A equipe semifinalista da Euro 2016 tinha como titulares três jogadores dirigidos pelo dinamarquês no Estádio Liberty: o capitão Ashley Williams, o lateral Neil Taylor e o zagueiro Ben Davies. Nesta Euro 2020, Davies é o único que permanece no elenco. O jogador do Tottenham é titular na lateral esquerda dos galeses. Curiosamente, embora nascido na cidade galesa de Neath, ele passou três anos de sua adolescência na Dinamarca depois que sua família mudou a trabalho, e voltou à base do Swansea antes de se profissionalizar, virando titular exatamente pelas mãos de Laudrup. É o elo desta seleção com um período inesquecível do futebol de clubes em Gales.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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