O drone de Belgrado motivou Ajeti a optar pela Albânia, e ele foi um leão contra a França

A responsabilidade era enorme. Capitão e principal referência da seleção albanesa, Lorik Cana foi expulso na estreia da Eurocopa e precisava ser substituído. Missão difícil não apenas pela importância do titular, mas também pela grandeza da ocasião, contra a favorita França no caldeirão em Marselha. Uma responsabilidade que coube a Arlind Ajeti, jovem de 22 anos que sequer havia entrado em campo diante a Suíça. Se a história quase sempre é dividida entre vencedores e vencidos, não dá para colocar o zagueiro do lado derrotado. Ajeti fez uma partidaça no Estádio Vélodrome. E não é mera coincidência que sua substituição aos 40 minutos do segundo tempo, após se lesionar, tenha permitido a vitória dos Bleus no final.
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Como tantos jogadores da Albânia, Ajeti possui uma história peculiar. Sua família migrou do Kosovo para a Suíça em 1988, muito antes das guerras assolarem os Bálcãs. Filho de um mestre-de-obras e de uma faxineira, o defensor nasceu na Basileia. E por lá iniciou sua carreira, chegando às categorias de base do Basel quando tinha 11 anos. A paixão pelo futebol, aliás, foi incentivada dentro de casa. Seu pai jogava como goleiro amador nos tempos em que morava na Iugoslávia. Já seus irmãos mais novos, gêmeos, também são profissionais.
Bem cotado, Ajeti chegou à equipe principal do Basel em agosto de 2011, semanas antes de completar 18 anos. Enquanto isso, passou por todas as seleções de base da Suíça desde o sub-17. Inclusive, dividiu os vestiários com alguns jogadores que disputam a Eurocopa, entre eles Ricardo Rodríguez e Haris Seferovic. O zagueiro defendeu até a sub-21, disputando sua última partida em setembro de 2014. Até que um evento excepcional o levou a optar por suas raízes kosovares e pela nacionalidade albanesa de seus pais.
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Ajeti foi um dos jogadores que ficaram mexidos com a confusão ocorrida em Belgrado, durante o Sérvia x Albânia válido pelas Eliminatórias da Euro. Na ocasião, um drone com a bandeira da “Grande Albânia” (área histórica pleiteada pelos albaneses, que inclui também Kosovo) invadiu o campo, desencadeando a fúria dos torcedores sérvios e provocando o cancelamento da partida. Após o incidente, em outubro de 2014, alguns jogadores com a nacionalidade albanesa manifestaram seu desejo de defender o país. Entre eles, Ajeti. Exatamente um mês depois do episódio, o zagueiro fazia a sua estreia pela Albânia, ao lado de outros suíços de nascimento, como o companheiro de clube Taulant Xhaka. Justo diante da França, em empate por 1 a 1 realizado na cidade de Rennes.

A partir de então, Ajeti trabalhou para se firmar na seleção albanesa. O zagueiro disputou nove partidas e participou da conquista da classificação à Eurocopa. Neste interim, também trocou de clube, deixando o Basel para fechar com o Frosinone. E, nesta quarta, recebeu a grande chance da carreira. Não desperdiçou.
Ajeti parecia onipresente em Marselha. Embora a França fosse pouco produtiva, a Albânia se defendia com todas as suas forças. Todos os jogadores de linha que começaram o jogo, sem exceção, realizaram ao menos um desarme. Ainda assim, o zagueiro emergencial se sobressaía, com uma maturidade imensa. Entre roubadas, bloqueios e bolas afastadas, nenhum outro jogador em campo trabalhou tanto: foram 17 ações defensivas. Se Giroud viveu noite apagada, muito foi por conta do excelente posicionamento e da solidez do jovem defensor. Ao lado de Hysaj e Mavraj, o camisa 18 foi um leão para segurar o 0 a 0 no placar durante 85 minutos. A melhor atuação de um jogador de sua posição nesta Euro.
Porém, a noite perfeita de Ajeti teve fim quando precisou deixar o campo. Custou muito caro à Albânia. Quando Griezmann subiu sozinho para abrir o placar, o erro de marcação foi justamente de Veseli, o substituto escolhido pelo técnico Gianni De Biasi. E o reserva falhou também no segundo tento, ao não dar o combate sobre Payet.
Apesar da derrota, que compromete a campanha da Albânia na Eurocopa, Ajeti se coloca como um nome para ser observado. Aos 22 anos, deixou claro o seu potencial. E não apenas para outros clubes, mas também à seleção kosovar – já que a Fifa ainda não determinou se equipe nacional recém-filiada poderá admitir atletas com jogos oficiais por outras seleções. Se acontecer, e Ajeti optar pela terra de seus pais, os kosovares um belo talento para lidera-los em seus primeiros anos.

