Eurocopa

O clube que domina a Áustria teve seu empurrão inicial graças a uma lenda da Itália: A passagem de Trapattoni pelo Red Bull Salzburg

Trapattoni foi escolhido para ser um nome de peso à frente do clube da Red Bull e faturou o primeiro título após a chegada da empresa

A Red Bull possui um perfil muito claro em seus clubes de futebol: investe geralmente em jogadores jovens e também em treinadores que representem uma vanguarda. Para começar a colecionar títulos na Áustria, porém, a empresa de energéticos recorreu a um veteraníssimo multicampeão. Giovanni Trapattoni se tornou o primeiro técnico de peso do Red Bull Salzburg ainda em 2006 e, bem, deixaria seu nome marcado na história outra vez. O comandante foi o responsável pelo primeiro título austríaco do clube com a nova roupagem. Uma lenda do futebol italiano que, de certa maneira, teria sua influência sobre o desenvolvimento do principal time da Bundesliga local – e que formaria tantos jogadores da seleção que, neste sábado, encara a Itália.

Lenda do Milan como jogador, Trapattoni conquistou todos os títulos possíveis como treinador. E isso não é figura de linguagem sobre o comandante que conseguiu “unificar o cinturão europeu” com as taças de Copa dos Campeões, Copa da Uefa e Recopa. Trap viveu seus melhores momentos à frente da Juventus, onde acumulou todos os troféus continentais possíveis e ainda levou seis Scudetti. Viraria a casaca rumo à rival Internazionale, na qual faturou sua Serie A mais dominante e também uma Copa da Uefa. Além disso, seria campeão nacional no Bayern de Munique. Conquistas não faltavam a uma verdadeira lenda.

Talvez a maior frustração de Trapattoni tenha sido não causar grande impacto à frente da seleção italiana. O treinador assumiu a equipe em julho de 2000, substituindo Dino Zoff após a derrota na final da Eurocopa contra a França. Trap conseguiu levar a Azzurra de maneira invicta à Copa de 2002, mas a campanha no Mundial seria morna, até a eliminação para a Coreia do Sul no gol de ouro deixar marcas profundas pelos erros de arbitragem. Também não teria um bom desempenho na Euro 2004, com a queda precoce na fase de grupos. Ao sair da equipe nacional, o italiano seria campeão português no Benfica, antes de uma passagem turbulenta pelo Stuttgart. De casa, veria seus antigos jogadores na Azzurra conquistarem o Mundial de 2006 sob as ordens de Marcello Lippi.

Os trabalhos no futebol alemão aproximaram Trapattoni do Red Bull Salzburg, que o anunciou como novo treinador em 2006. Aquela era a segunda temporada do clube sob investimento da empresa de energéticos. Ainda como Casino Salzburg, a equipe tinha conquistado três edições do Campeonato Austríaco nos anos 1990 e foi vice-campeã da Copa da Uefa. A mudança abrupta dos símbolos da agremiação com a venda à Red Bull gerou cisões entre os torcedores, mas ficava claro como o projeto esportivo era promissor quando, sob as ordens do austríaco Kurt Jara, a equipe conquistou uma vaga para a Champions League pelo bom desempenho na Bundesliga 2005/06. Trap capitanearia o barco a partir de então.

A contratação de Trapattoni não visava apenas um treinador experiente, como também o nomeava como novo diretor de futebol. Ele ajudaria a fundar as diretrizes do que seria seguido na agremiação a partir de então. Também não chegaria sozinho, já que Lothar Matthäus o seguia como assistente – meses depois de sua meteórica passagem como técnico do Athletico Paranaense. Craque da Inter e do Bayern comandados por Trap, o antigo capitão da seleção alemã daria mais vivência aos vestiários do Red Bull Salzburg. Os juniores ainda seriam dirigidos por Thorsten Fink, outro antigo atleta do italiano na Baviera.

Naquele momento, o Red Bull Salzburg não contava com uma equipe tão jovem assim, como se caracterizou depois. E confiava bastante em antigos jogadores do Bayern também em campo. Thomas Linke e Alexander Zickler tinham trocado Munique por Salzburgo na temporada anterior. Trapattoni também acertou a vinda de Niko Kovac, outro que atuou na Baviera, mas estava no Hertha Berlim. Num time que se reforçou bastante para disputar a Champions, uma contratação curiosa era do meia / lateral Alex Santos, brasileiro que defendeu por anos a seleção japonesa. E alguns garotos também começavam a despontar ali. Marc Janko era opção no ataque, enquanto o suíço Johan Vonlanthen vinha do PSV.

O Red Bull Salzburg decepcionou nas competições europeias. Pegou o Valencia no qualificatório da Champions e acabou eliminado, assim como não passou pelo Blackburn na primeira fase da Copa da Uefa. Na Bundesliga, em compensação, houve um voo de brigadeiro. Os Touros Vermelhos só não lideraram uma das 36 rodadas. Terminaram com uma vantagem de 19 pontos sobre o segundo colocado Ried e mostraram como a empresa de energéticos estava pronta para dominar as competições locais. O time de Trap ainda fechou a caminhada com o melhor ataque e a melhor defesa, somando 72 gols marcados e 25 sofridos. Era o décimo título nacional do treinador, acumulados em quatro países distintos.

Para a temporada seguinte, desavenças com a diretoria culminaram na saída de Matthäus. O novo assistente de Trapattoni seria outro ex-jogador do Bayern, ainda que sua passagem pelo clube tenha antecedido a chegada do italiano. Seu nome? Hansi Flick, logo após deixar o Hoffenheim nas divisões de acesso do Campeonato Alemão. Já em campo a equipe adicionava o talento do meio-campista Christoph Leitgeb, que seria um nome simbólico na ascensão do clube e defenderia por muito tempo a seleção austríaca. Todavia, os resultados não se manteriam e a própria jornada de Trap pela Áustria veria um final abrupto.

O Red Bull Salzburg de novo decepcionou nas copas europeias em 2007/08. Caiu diante do Shakhtar Donetsk nas preliminares da Champions e não durou mais de uma fase na Copa da Uefa, despachado pelo AEK Atenas. Já no Campeonato Austríaco, o time oscilou bastante durante a campanha. Não conseguiu acompanhar o ritmo do Rapid Viena e, ainda em abril de 2008, Trapattoni pediria o boné. Àquela altura, o italiano já tinha negociado com a Irlanda para dirigir a seleção local no ciclo rumo à Copa de 2010. Já vinha sofrendo com as críticas na Red Bull Arena, especialmente por seu futebol defensivista. Mas o feito de iniciar a era vitoriosa dos Touros Vermelhos na Bundesliga já estava na história, de qualquer maneira.

O Red Bull Salzburg depois abraçaria a escola holandesa, com Co Adriaanse e Huub Stevens dirigindo a equipe entre 2008 e 2011. Depois se aproximaria mais dos alemães, com destaque a Roger Schmidt e Marco Rose. O futebol ofensivo passou a florescer e até mesmo um ex-jogador de Trapattoni auxiliaria nesse processo: artilheiro da equipe no título de 2006/07, Alexander Zickler treinou a base, assim como foi assistente de Marco Rose. Na última temporada, também era o braço direito do compatriota no Borussia Mönchengladbach.

O elenco atual da seleção austríaca conta com apenas um jogador do Red Bull Salzburg, o lateral Andreas Ulmer, no clube desde 2009. Em compensação, a lista de atletas formados pelos Touros Vermelhos é extensa e inclui sete nomes: Alexander Schlager, Martin Hinteregger, Stefan Ilsanker, Stefan Lainer, Valentino Lazaro, Xaver Schlager e Konrad Laimer – sem contar ainda Marcel Sabitzer, que passou uma temporada emprestado em Salzburgo antes de se juntar ao RB Leipzig. Alguns deles já estavam na base quando Trapattoni era diretor de futebol, a exemplo de Ilsanker e Ulmer. E se a lenda italiana tem seu dedo na afirmação da equipe dona de 12 títulos nacionais, desde aquela primeira taça de 2006/07, sua influência também respinga no Áustria x Itália das oitavas de final da Euro 2020.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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