Eurocopa

O capitão da Finlândia escreveu um texto bem legal para ressaltar a importância da Euro 2020 à sua seleção

Tim Sparv assinou um artigo para o jornal The Guardian, em que traduz o significado de estrear numa competição internacional por seu país

Talvez você nunca tenha ouvido falar sobre Tim Sparv. É até natural, considerando a carreira relativamente modesta do meio-campista. Formado na base do Southampton, não chegou a estrear como profissional pelo clube. Rodou por Halmstad, VPS, Groningen, Greuther Fürth e passou bons anos no Midtjylland. Na temporada passada, mudou-se para a Grécia, onde atua pelo Larissa. Mas, aos 34 anos, viverá o ponto alto de sua carreira neste sábado. Sparv é um dos jogadores mais importantes da seleção da Finlândia e terá o gosto de capitanear a equipe na primeira partida da história do país por uma competição internacional. Certamente o volante se tornará bem mais célebre nesta Euro 2020, sobretudo entre seus orgulhosos compatriotas.

Além de ser um dos jogadores mais representativos da Finlândia, Sparv também escreve bem. O veterano mantém um blog em seu site oficial, no qual fala sobre a carreira. Já nesta sexta, o capitão assinou um texto no jornal inglês The Guardian, em que comenta a importância do momento à sua seleção e ao seu país. “A Finlândia esperou tanto por isso: a Euro 2020 finalmente é nossa vez” é o título. As palavras de Sparv oferecem um pouco mais de simpatia sobre os finlandeses, que enfrentarão neste sábado a Dinamarca, em Copenhague. Abaixo, traduzimos o artigo na íntegra:

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Torcer pela seleção da Finlândia raramente foi um passatempo confortável e agradável. Gols contra ao acaso no último minuto e secas sem vitórias durante todo o ano ajudaram a moldar a imagem de uma equipe nacional azarada e malsucedida.

Certamente tivemos alguns jogadores individualmente brilhantes e uma alta ocasional, mas muitas vezes isso foi ofuscado pela incapacidade da equipe de se classificar para um grande torneio. A cada dois verões, assistíamos sem acreditar quando nossos vizinhos nórdicos viviam momentos inesquecíveis em uma Copa do Mundo ou em uma Eurocopa, enquanto éramos forçados a assistir tudo isso na TV. A cada dois verões, nos perguntávamos amargamente: “Quando será a nossa vez?”

Eu tinha 13 anos quando vi no estádio o meu primeiro jogo da Finlândia. Eu faltei na escola para viajar a Helsinque, com meu pai e seus amigos, para ver o jogo contra a Inglaterra pelas Eliminatórias da Copa do Mundo em 2000. Jari Litmanen, Sami Hyypiä, Paul Scholes, Teddy Sheringham e todos os outros jogadores que eu admirei por tanto tempo estavam ali. Fiquei hipnotizado pelo Estádio Olímpico com seus refletores e 35 mil torcedores malucos por futebol. O jogo terminou num 0 a 0 tedioso, mas isso era completamente irrelevante. Meu eu de 13 anos tinha se inspirado e eu disse a mim mesmo que um dia estaria jogando pelo meu país.

Eu era um garoto alto e magricela, com problemas de estirão de crescimento – e, portanto, uma séria falta de coordenação. Meus treinadores me chamavam de “Bambi no gelo”. Apesar dos desafios físicos que enfrentei, eles também puderam ver um menino consciente, com um desejo ardente de melhorar. Por trás do exterior frágil, eles viram meu potencial quando tive dificuldade em vê-lo sozinho.

Meus sonhos de virar profissional e representar meu país se tornariam realidade. Joguei pela seleção em todas as categorias de base e fui capitão da nossa equipe sub-21 no Campeonato Europeu da categoria, disputado na Suécia em 2009. Fiz minha estreia pela seleção principal no mesmo ano e me tornei parte integrante da Finlândia pela década seguinte.

Eu deveria ter ficado feliz e satisfeito com o que tinha alcançado, mas não estava. Eu tinha 32 anos na primavera de 2019 e minha amada Finlândia ainda era um dos poucos países que não tinha se classificado para um grande torneio. Outras nações que compartilhavam nossas frustrações eram, por exemplo, Luxemburgo, Ilhas Faroe e San Marino. O tempo estava passando para mim e para meus companheiros mais velhos. Se quiséssemos fazer algo extraordinário, se quiséssemos escrever nossos nomes nos livros de história, teríamos de fazer isso agora.

Itália, Bósnia-Herzegovina, Grécia, Armênia e Liechtenstein estavam em nosso grupo das eliminatórias para a Euro 2020. As duas melhores seleções se classificariam diretamente para o torneio e como a Itália é, francamente, muito boa, cabia ao resto batalhar pela segunda vaga.

Jogamos bem ao longo da campanha de qualificação. Éramos sólidos e robustos defensivamente, e mortais nas transições. Tivemos a presença tranquila em Lukas Hradecky na meta, um dinâmico Glen Kamara no meio-campo, Robin Lod criando chances e Teemu Pukki em excelente forma para marcar gols. Fomos duros, agressivos e organizados, como todas as seleções da Finlândia deveriam ser, mas demos um toque internacional. Uma equipe moderna estava se formando.

Em 15 de novembro de 2019 estávamos jogando contra Liechtenstein em casa, naquele que se tornou um dos dias mais memoráveis ​​na história do futebol finlandês. Graças a uma vitória por 3 a 0, garantimos nosso lugar em um importante torneio masculino pela primeira vez.

Ainda me lembro da invasão em campo após o apito final, e de como eu e meus companheiros fomos erguidos pelos torcedores em êxtase. Ainda me lembro de cantar músicas pop finlandesas no vestiário e de tomar champanhe goela abaixo. E ainda me lembro de nós, jogadores, sentados na sauna, rindo e brincando, quando de repente alguém disse: “Rapazes, que caralhos acabamos de fazer?”

A história do futebol finlandês não é das melhores, mas também não é a história do nosso país. Viver com dificuldades faz parte do DNA de um finlandês. Apesar das guerras, recessões financeiras e crises de fome, ainda estamos firmes. Apesar das derrotas no último minuto e dos anos de fracasso, jogadores e torcedores não desistiram. Somos um grupo de pessoas resilientes, dentro e fora do campo.

O fato de uma pandemia adiar nosso grande dia sob os holofotes se encaixa na narrativa. Não é para ser fácil e tranquilo torcer pela Finlândia. Surpresas incômodas estão sempre na esquina e talvez seja por isso que tendemos a celebrar um pouco mais os dias bons.

Foi a decisão correta adiar o torneio, mas ainda existe aquela sensação de descrença e aceitação mal-humorada entre aqueles que passaram por tantas adversidades para chegar a este ponto. É claro que haveria uma pandemia mortal que levou a Uefa a atrasar o início da Euro 2020, quando a Finlândia estava prestes a participar pela primeira vez em sua longa história.

Os finlandeses impacientes podem agora dizer “é a nossa vez”: a espera acabou. A Finlândia é participante da Euro 2020 e isso me deixa extremamente orgulhoso. Estou feliz por meus companheiros e por nossa comissão técnica, mas estou ainda mais feliz por nossos torcedores que esperaram tanto por este dia. Eles merecem um pouco de sorte depois de décadas apoiando um time que parecia destinado ao azar. Eles merecem seu momento ao sol. Esperamos que este seja o início de um futuro mais promissor para a seleção da Finlândia.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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