Eurocopa

Nos 10 anos da Espanha campeã da Euro 2012, uma lembrança do futebol sublime oferecido por Iniesta naquele torneio

Iniesta saiu daquela Eurocopa sem marcar gols, mas colecionou lances mágicos para conduzir os melhores momentos da Espanha

A dinastia estabelecida pela seleção espanhola se tornava completa há exatos 10 anos. Em 1° de julho de 2012, no Estádio Olímpico de Kiev, a Roja conquistava seu terceiro título na Eurocopa – o segundo consecutivo. Num intervalo de quatro anos, o time de Vicente del Bosque havia dominado o continente duas vezes e ainda vivido sua maior glória na Copa do Mundo de 2010. A consagração na Euro 2012 ocorreu de maneira avassaladora, com uma irrepreensível goleada por 4 a 0 sobre a Itália na decisão. Existiam desgastes na equipe que acabavam ignorados pelo brilho do ouro, mas que tinham dado as caras numa campanha arrastada, e que se evidenciariam mais claramente nos anos seguintes. Fato é que, antes da derrocada, aquele era um símbolo supremo do domínio espanhol. E que servia também como recital a um craque: Don Andrés Iniesta.

A aposentadoria de Iniesta poderia ter acontecido dois anos antes, com o gol do título na Copa do Mundo, que seu lugar na história estaria garantido. Contudo, o desempenho do meia na Euro 2012 superou em qualidade o que tinha se visto no Mundial de 2010. Numa Espanha que abusava da posse de bola e usava até Cesc Fàbregas como falso 9, Don Andrés foi o respiro da equipe. Cadenciava, mas também deslumbrava com seus dribles e suas jogadas partindo para cima da marcação. Mais calejado no alto nível, atuou com grande leveza ao longo da competição. Justificadamente, seria eleito o melhor do torneio.

Os números frios não indicam tão bem a bola que Iniesta jogou na Polônia e na Ucrânia. O ponta esquerda não marcou um gol sequer na competição, enquanto suas duas assistências vieram na fase de grupos. Entretanto, a qualidade estava expressa em suas mágicas e na categoria de cada movimento. Com a caminhada ótima da Itália, chegou a existir uma disputa com Andrea Pirlo para saber quem ficaria com o prêmio de melhor do torneio. Veio então a decisão, com o Don Andrés acariciando a bola e movimentando as engrenagens espanholas para a goleada. Foi escolhido o melhor em campo na final e, invariavelmente, ganhou a Bola de Ouro da competição.

O melhor parâmetro para Iniesta naquela Euro 2012 era Zinédine Zidane. Foi o momento em que mais se comparou o futebol do espanhol como digno herdeiro da classe do francês. E não eram apenas opiniões quaisquer. O próprio Zizou ratificava essa visão: “Iniesta está realmente me impressionando. Ele exerce grande influência na seleção espanhola. Eu o vejo e lembro das minhas atuações”. Era esse o nível do meia naquelas semanas.

Dá para discutir quem foi o jogador mais cerebral da Espanha naquela sequência de títulos, e o mais provável é que muita gente prefira escolher Xavi. O papel decisivo de Iniesta pela Roja, entretanto, é maior. Quando coletivamente as ideias dos espanhóis se tornavam mais escassas, o talento individual do camisa 6 precisava prevalecer. Assim rendeu o gol agonizante numa final de Copa e também a renovação das alegrias numa Eurocopa em que o time de Vicente del Bosque parecia jogar no piloto automático. Don Andrés foi quem mais auxiliou a quebrar os padrões.

No final do ano, Iniesta não chegou a concorrer seriamente pela Bola de Ouro. Messi fez um 2012 demolidor por seus gols e ficaria com o troféu, seguido por Cristiano Ronaldo. As chances de Don Andrés eram até maiores em 2010, quando ficou em segundo. Não é isso, porém, que deve diminuir o papel que desempenhou naquela Eurocopa. Seu lugar entre os maiores da história está assegurado por muitos motivos. A Euro 2012 é um dos principais, num patamar parecido àquilo que aconteceu no Soccer City.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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