Eurocopa

Mais ligado e mais à vontade, Pogba deu continuidade ao seu inesquecível 2018 nesta estreia da Euro

Meio-campista foi o grande condutor da França na vitória sobre a Alemanha em Munique

A Copa do Mundo de 2018 elevou o status de Paul Pogba. Se não havia dúvidas sobre o talento do meio-campista, sua importância dentro da França campeã mundial reservou pelo menos um lugar na história ao camisa 6. Pogba costuma ser cobrado por sua irregularidade e isso até existiu no Mundial da Rússia, mas o volante cresceu com a equipe e encerrou a competição com uma grande atuação na final. Nos três anos seguintes, Pogba seguiu lidando com questionamentos. Seu nível no Manchester United não desabrochou, mesmo que tenha feito uma boa campanha em 2018/19. E, apesar da melhora na reta final da última temporada com os Red Devils, a estreia na Euro 2020 bastou para mostrar como o Pogba dos Bleus consegue ser de outro nível. Fez uma partidaça contra a Alemanha e teve influência direta na vitória por 1 a 0 em Munique.

A Euro 2020 é a quarta competição internacional de Pogba com a seleção francesa. A trajetória começou na Copa do Mundo de 2014, quando o garoto surgia como uma aposta de Didier Deschamps. Tomou a posição de titular na reta final das Eliminatórias e saiu do Mundial como uma certeza dos Bleus para o futuro, eleito o melhor atleta sub-21 da competição. A percepção sobre a sua carreira também mudou neste período, firmando-se cada vez mais como um dos destaques da Juventus. Na Euro 2016, Pogba já desembarcou como um dos protagonistas da França. E, ainda que eclipsado por outros companheiros, deu sua contribuição na caminhada até a final. A semifinal contra a Alemanha, inclusive, guardaria uma de suas melhores atuações.

Os alemães estavam entalados na garganta de Pogba após a eliminação nas quartas de final da Copa de 2014. Herói na classificação contra a Nigéria nas oitavas de final, o meio-campista criou algumas das melhores chances diante da Alemanha, mas pecaria exatamente no lance do gol adversário. Foi dele a falta na intermediária que permitiu o tento de Mats Hummels. Dois anos depois, então, Pogba se empenhou no troco. Foi um dos melhores em campo no Vélodrome e teve grande atuação especialmente no segundo tempo. O gol que fechou a vitória em 2 a 0 saiu numa jogada sua: deu um drible desconcertante em Shkodran Mustafi antes de cruzar e, sem que Manuel Neuer afastasse o perigo, Antoine Griezmann marcou na sobra.

O sucesso de Pogba levou o Manchester United a quebrar a banca por sua contratação em 2016 e, bem, o negócio nunca se justificou totalmente. A Copa de 2018, ainda assim, marcou sua volta por cima. O meio-campista chegou criticado ao torneio, cobrado para que rendesse mais, e ele correspondeu. Já apresentou suas credenciais desde a fase de grupos, mas cresceu mesmo com o time nos mata-matas e brilhou nos momentos decisivos. O camisa 6 era o ponto de equilíbrio do time de Didier Deschamps, por armar a equipe a partir do meio de campo e ditar o ritmo de jogo nos Bleus. Foi merecidamente um dos protagonistas na conquista e saiu enorme da decisão contra a Croácia. Não poderia haver prova maior de talento.

Nestes últimos três anos, sem que Pogba conseguisse exercer tamanha influência no Manchester United, um debate recorrente é quanto ao seu comprometimento. De fato, o meio-campista por vezes parece menos ligado do que deveria nos jogos do clube. Manter a regularidade numa temporada longa exige muito mais do que estourar numa competição de tiro curto. Mas também não dá para negar que o ambiente nos Bleus o favorece bem mais do que em Old Trafford. Se nos Red Devils é comum lidar com uma equipe que demora a se acertar e com outras pressões num gigante abaixo de sua grandeza, a França aproveita bem melhor as capacidades do craque em sua faixa central.

O próprio Didier Deschamps foi um especialista de meio-campo e entende bem como acomodar Pogba. Com N’Golo Kanté limpando os trilhos e um jogador de explosão mais ao lado (antes Blaise Matuidi, agora Adrien Rabiot), Pogba pode assumir o papel de maestro na faixa central. E fica mais fácil quando há três flechas à frente, com um tridente ofensivo formado por Kylian Mbappé, Antoine Griezmann e Karim Benzema. Essa versão mais confortável de Pogba, e mais participativa, foi o que se viu em Munique. Não que o camisa 6 viesse de atuações tão marcantes assim no ciclo anterior à Euro 2020, atrapalhado por lesões, mas sem produzir nada tão excepcional – uma exceção foi o amistoso recente contra a Bulgária. Na hora de corresponder contra a Alemanha, ainda assim, o astro chamou a responsa.

Pogba ajudou a França a crescer nos primeiros minutos do jogo, quando empurrou a Alemanha contra a parede e pressionou até abrir o placar. O lance do gol, mesmo contra, foi emblemático. Pogba já protegeu a bola com enorme imponência, para escapar da marcação de Toni Kroos e também do tranco de Antonio Rüdiger. Depois de entregar a redonda, o meio-campista apareceu mais à frente e recebeu de volta nas imediações da área. Então, um breve lampejo que mostrou como o volante é mesmo diferenciado. Nem mesmo o câmera percebia a passagem de Lucas Hernández, mas o camisa 6 viu a disparada do companheiro e entregou um lançamento sublime com a parte de fora do pé. O que aconteceu depois foi uma consequência de sua jogadaça, com a ironia do gol ter sido anotado por Hummels, o mesmo carrasco de sete anos atrás.

A grande partida de Pogba não se limitou ao lance do gol. O meio-campista pareceu não ter problemas para achar um elo temporal com 2018 e reapresentar aquela classe vista na semifinal ou na decisão na Rússia. Controlou o tempo, segurou a marcação, apresentou-se bastante, abriu espaços e passou a bola para os companheiros arrancarem. A arte de pentear a bola é muito bem dominada pelo camisa 6. E quando foi preciso contar com a atenção máxima do astro na marcação, diante da posse de bola superior da Alemanha, ele estava lá ajudando a fechar a cabeça de área. Deu combate e ajudou ao ótimo desempenho defensivo dos Bleus. Foram 13 duelos vencidos, além de 12 bolas recuperadas – melhores números da noite entre todos os jogadores.

A vitória da França poderia ter mais gols, não fossem os impedimentos – corretamente marcados. Mbappé teve suas melhores demonstrações de talento nestes momentos, mas sem mudar o placar com sua habilidade. Pogba também seria importante para acionar o companheiro com seus lançamentos. O tento anulado de Benzema, por exemplo, foi iniciado por uma enfiada ótima do camisa 6. Ter um jogador com sua capacidade para trabalhar a bola e ver o jogo em profundidade faz uma enorme diferença. Ainda mais contra uma defesa relativamente lenta como a dos alemães.

A França tem o melhor elenco do futebol de seleções e essa afirmação não costuma gerar muitas objeções. Mais do que isso, possui a equipe mais madura do futebol de seleções. Possui mecanismos muito bem assimilados e uma linearidade que começou a ser construída ainda em 2014, que foi aprimorada em 2016 e que atingiu o ápice em 2018. Mas esse apogeu pode não ter acabado há três anos. Pogba é um dos que mais beneficiam dessas ideias, não apenas pela bola que pode jogar, como também pela forma como se sente à vontade. E que bom é vê-lo com essa fome, como foi nessa estreia, mostrando uma qualidade técnica rara no futebol atual.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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