Eurocopa

Inglaterra 1996: Várias mortes lentas, uma morte súbita

Vendo a crescente dificuldade que vários países europeus tinham para conseguir uma vaga no próprio torneio continental, enquanto o número de vagas do Velho Continente continuava grande nas Copas, a UEFA decidiu fazer uma grande alteração no formato da Euro: ao invés de oito, seriam 16 times a participar da competição, agora, divididos na primeira fase em quatro grupos, o que obrigou também o surgimento da fase de quartas-de-final.

O cenário para a competição recauchutada seria a Inglaterra, que, após ver o Relatório Taylor enterrar as lembranças das tragédias de Heysel e Hillsborough, reformulando profundamente a organização e os estádios ingleses, teria a chance de provar sua ressurreição futebolística para o continente.

O grupo A ajudou a Inglaterra a mostrar que estava recuperada e pronta para ocupar o terreno perdido. Terry Venables treinava um time que mesclava a experiência de Gascoigne, Platt, Paul Ince, Stuart Pearce e Tony Adams à juventude dos novos talentos, como os irmãos Neville (Phil e Gary), McManaman e Robbie Fowler, sem contar a fase abençoada que Alan Shearer vivia, fazendo gols no atacado e no varejo.

Não foi preciso muito mais para, em Wembley, após um empate contra a Suíça, superar Holanda (com um categórico 4 a 1) e a rival Escócia (um 2 a 0 que conteve um lendário gol de Gascoigne: “Gazza” recebeu lançamento alto de Darren Anderton, deu um chapéu humilhante em Colin Hendry e mandou, sem deixar a pelota cair, no ângulo de Andy Goram, no que foi um dos mais bonitos gols de uma carreira tão fulgurante quanto conturbada, que teve um de seus pontos altos na Euro).

A outra vaga nas quartas dependeu de um gol. Embora a Holanda já tivesse a geração do Ajax campeão da Liga dos Campeões 1994/95, ela sofria com gravíssimos problemas de relacionamento entre os jogadores, por questões raciais entre alguns jogadores brancos e alguns negros. Tais discussões podem ter colaborado para a péssima performance na derrota para a Inglaterra. Mas, com 4 a 0, os ingleses relaxaram e Kluivert conseguiu fazer o gol de honra, ao passo que os escoceses não saíram do 1 a 0 contra uma Suíça que via necessário o início da renovação da geração que levara o país à Copa de 1994. Com 4 pontos para cada um, a Laranja chegava às quartas no número de gols feitos (3 contra 1).

O grupo B mostrou a recuperação de outro gigante europeu adormecido: a França. Aimé Jacquet conservou veteranos que mostraram serviço na fraca campanha da Euro-92, como Blanc, Angloma e Deschamps, e começou a azeitar o time para a Copa em casa, dali a dois anos, com Thuram, Lizarazu, Karembeu, Dugarry e, principalmente, Zidane, todos ligados por gente com certo tempo nas costas, como Desailly, Djorkaeff, Di Meco e Guerin. O único da “nova geração” a não ter oportunidades foi Barthez, que ainda seria reserva de Bernard Lama.

E, assim como no caso inglês, os gauleses não suaram muito para sobrepujar Romênia (que, mesmo com boa parte do time que fez bonito na Copa, como Belodedici, Hagi, Munteanu e Raducioiu, foi irreconhecível na Euro, não somando ponto algum) e Bulgária (esta, com a geração 4ª colocada na Copa de 1994, de Mihaylov, Ivanov, Balakov, Kostadinov, Letchkov e, claro, Stoichkov, já mostrando os sinais do esgotamento que levariam à péssima campanha em 1998). E lá foi a França para as quartas, seguida de uma Espanha que mesclava velhos-de-guerra como Zubizarreta, Alkorta, Hierro, Nadal e Salinas a experimentos com gente que não emplacaria a Copa de 1998, como Manjarín, Amavisca e até o brasileiro naturalizado Donato.

No grupo C, um cenário parecido com o A: três seleções a brigar pelas duas vagas (Alemanha, Itália e República Tcheca, na sua primeira aparição após a Revolução de Veludo) e uma completa coadjuvante (Rússia). Com um time esbanjando experiência em Köpke, Helmer, Kohler, Dieter Eilts, Sammer, Möller, Hässler e Klinsmann, somado a gente que tinha naquela Euro sua primeira oportunidade (como Bobic, Scholl e um certo Bierhoff), os germânicos conseguiram a vaga nas quartas sem tanta dificuldade, passando facilmente por russos (3 a 0) e tchecos (2 a 0).

A segunda vaga, também como no grupo A, foi definida no número de gols. A República Tcheca, se tinha decanos da Tchecoslováquia da Copa de 1990, como os zagueiros Kubik e Kadlec e o meia Nemec, mostrava os primeiros frutos de uma geração que faria sempre bons papeis, como Nedved, Poborsky, Smicer e Patrik Berger. E os italianos não deixavam por menos, somando a veteranos do vice mundial – Maldini, Costacurta, Dino Baggio, Donadoni, Albertini e Casiraghi – ora gente que não estivera nos EUA (exemplos maiores no goleiro Peruzzi, no lateral Carboni e no atacante Ravanelli), ora novos valores, como Del Piero e Nesta.

O segundo lugar do grupo talvez tenha se definido na vitória tcheca sobre a Azzurra – 2 a 1, em Liverpool. Daí, a falta excessiva de gols no último jogo italiano (empate sem gols contra a Alemanha) e o inverso para os tchecos (3 a 3 contra a Rússia) encarregaram-se de levar o time de Dusan Uhrin para a próxima fase.

O lugar das surpresas da Euro foi no grupo D. Após dez anos sem estar numa competição relevante, Portugal surpreendeu. Veteranos como o zagueiro Oceano viram florescer, pela primeira vez, a já madura geração de Vitor Baía, Fernando Couto, Rui Costa, Figo e os dois “Pintos” do ataque, João e Ricardo Sá. Resultado: um estilo de jogo ofensivo e insinuante, que trouxe vitórias com autoridade, como o 3 a 0 aplicado na outra boa surpresa do grupo, os croatas.

Poucos sabiam, mas o esqueleto do time que seria 3º lugar em 1998 já estava prontinho. Já estavam lá os esteios da zaga, o goleiro Ladic, o beque Bilic e o lateral-esquerdo Jarni; Asanovic e Stimac, dois bons cabeças-de-área; Prosinecki e Boban, dois armadores à moda antiga, que alimentavam de chances como poucos a dupla de ataque Boksic e Suker, dos melhores atacantes europeus. Portugueses e croatas foram surpresas negativas somente para os dinamarqueses. Mesmo com Michael Laudrup de volta, jogando junto com o irmão Brian, Schmeichel e Vilfort (e como gente nova, como Tofting e Helveg), os escandinavos só conseguiram um empate por um gol contra os Tugas e uma derrota desalentadora contra os da camisa quadriculada. Só restou vencer a Turquia, esta última também uma surpresa, mas sem causar perigo algum, saindo sem pontos da Euro, embora já com gente como Rüstü e Hakan Sükür para dar esperança.

Quartas-de-final iniciadas, iniciado também o período das “mortes lentas”: dos quatro jogos, dois foram definidos nas penalidades. Num Wembley apinhado, a Inglaterra, mesmo com um começo de pressão sobre Zubizarreta, sofreu com a Espanha, que teve dois pênaltis não marcados no tempo normal. Com os 120 minutos encerrados sem gols, restaram as cobranças. Hierro acabou chutando a sua no travessão, enquanto Nadal teve a cobrança defendida por David Seaman. Convertendo as quatro cobranças, o English Team saiu com a vaga nas semifinais, empolgando o país, que sonhava com um novo título em casa.

Em Liverpool, Anfield viu uma partida das mais modorrentas. França e Holanda jogaram os 120 minutos pobres, o que resultou, claro, em novo 0 a 0. Nas cobranças, tudo certo até o quarto chute holandês, com Lama barrando o chute de Seedorf, que saiu inconsolável. Foi a única cobrança perdida: os franceses seguiam às semifinais com o 5 a 4, enquanto o time de Guus Hiddink até conseguia um bom resultado, tendo em vista as turbulências internas.

Nas outras duas partidas, foi a vez de as surpresas verem o fim do sonho: respectivamente em Manchester e Birmingham, Alemanha e República Tcheca também economizaram nos gols para, ainda no tempo normal, serem os estraga-prazeres de croatas (vitória do Nationalelf por 2 a 1) e Portugal (tchecos 1 a 0).

As semifinais resultariam em mais “mortes lentas” nos pênaltis. No Old Trafford, mais um jogo chatíssimo. Franceses e tchecos pareciam com medo de fazer gols: ambos entraram em campo com só um atacante no esquema. Novos 120 minutos sem gols, e novo 0 a 0. Nos tiros da marca penal, todo mundo converteu, até Reynald Pedros chutar nas mãos de Petr Kouba e o veterano Kadlec decretar o 5 a 4 que colocaria a República Tcheca em sua primeira final de Euro logo após a independência. E os Bleus, mesmo curtindo a dor de ver a série de 30 partidas de invencibilidade acabar de maneira tão decepcionante, tiveram o consolo de ver premiada com uma boa campanha a equipe que já estava quase pronta para as alegrias que daria dois anos depois.

O jogo da Euro-96 a ficar na história seria a outra semifinal. Num Wembley – o velho Wembley, ainda com torres e tudo – com o maior público do torneio (75.862 pessoas) a Inglaterra via a chance de igualar 1966 e derrotar os rivais alemães. O começo não poderia ser melhor: já aos 3 minutos, Tony Adams escorou, de cabeça, um escanteio de Ince, e o inefável Shearer fez seu quinto gol na Euro (seria o artilheiro). Mas o otimismo não durou muito: logo aos 16 minutos, Stefan Kuntz, livre na área, empatou. Dali em diante, mesmo sem gols, um jogo elétrico, com a Inglaterra, liderada por um inspirado Gascoigne, mais perto do gol – mas sempre bloqueada pela matreira dupla de cabeças-de-área germânicos Eilts e Helmer. E o 1 a 1 persistiu até o fim da prorrogação.

Nos pênaltis, tudo certo para britânicos e tedescos até o sexto pênalti. Ali, Gareth Southgate, com uma cobrança fraca, entraria para a lista inglesa de vilões de decisões por pênaltis, que já tinha o também presente em campo Pearce (que, por sinal, convertera sua cobrança, exorcizando o fantasma que ainda era o chute desperdiçado na semifinal da Copa de 1990, também entre alemães e ingleses). E Andreas Möller pôs a Alemanha na quinta final de Eurocopa, para desespero inglês.

No mesmo Wembley, a final entre alemães e tchecos começou morna, com aqueles pressionando mais e estes apostando nos contra-ataques. O jogo só esquentaria no segundo tempo. Aos 14 minutos, Matthias Sammer derrubou Poborsky na área e Patrik Berger converteu o penal. Repetição do cenário de 1976? Não, porque, dez minutos depois, Berti Vogts colocou em campo o até então coadjuvante Oliver Bierhoff. Emparceirando-se no ataque com Klinsmann – que seria consagrado o melhor jogador do torneio -, Bierhoff teria logo na final o momento de aparição para o mundo. Com apenas quatro minutos em campo, aos 28 do 2º, empatou. E a final foi para a prorrogação, não sem antes Vladimir Smicer, no último minuto, acertar a trave de Köpke. A prorrogação resultaria em uma “morte lenta”? Não. Logo aos 5 minutos, veria-se a primeira aparição do “Golden Goal”, a famosa “morte súbita”, num torneio internacional.

E a única “morte súbita” da Euro seria decisiva: o iluminado Bierhoff, na área, mandaria de canhota. O desvio em Hornak tornaria a bola perigosa para Kouba, que tentou encaixá-la, mas deixou que ela escapasse e fosse para as redes. O tri chegava para a seleção alemã por meio do coadjuvante Bierhoff – que, diz a lenda, só foi incluído entre os 22 convocados por Berti Vogts por conselho da esposa do treinador. Mas, num torneio enfadonho, a grande vencedora foi a Inglaterra – o país, não a seleção, que provava a recuperação interna de seus estádios e preparava-se para voltar a ganhar espaço no futebol mundial.

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