Hamsik é daqueles grandes jogadores que se eternizam mais pelo que representam na seleção

Tem lances que a gente lamenta por não ver a bola entrar. Um exemplo disso aconteceu logo na estreia da Eslováquia na Eurocopa, diante de Gales. No primeiro lance de perigo, Marek Hamsik deslumbrou. Fez fila, deixando na saudade quatro marcadores. Mas, de frente para o gol, parou em uma defesaça de Danny Ward. Seria o gol do torneio. Os eslovacos, por fim, tiveram que amargar a derrota por 2 a 1. Mas a redenção do meio-campista não tardou. Hamsik não anotou um gol de placa como aquele, mas marcou o seu golaço e ainda deu uma assistência sensacional para Vladimir Weiss abrir o placar. Merecidamente, saiu com o prêmio de melhor em campo na vitória por 2 a 1 sobre a Rússia, que aproxima seu país da classificação às oitavas de final da competição.
Hamsik é daqueles jogadores que são excepcionais por seus clubes, mas se tornam ainda maiores por aquilo que conseguem representar na seleção, sem tanta tradição no cenário internacional. Desde que a Tchecoslováquia se desmembrou, os eslovacos não contaram com um jogador mais importante do que o meio-campista. Miroslav Karhan disputou mais jogos, Róbert Vittek balançou mais as redes, Martin Skrtel se tornou referência em um clube mais midiático. Mas, em talento e liderança, ninguém se compara a Hamsik. Às vésperas de completar 23 anos, ele já foi capitão e um dos protagonistas do time que chegou às oitavas de final da Copa do Mundo de 2010. Na Euro 2016, tem nova oportunidade de brilhar.
O garoto que logo explodiu no Brescia e se tornou titular absoluto no Napoli há nove temporadas pode não ter cumprido as expectativas de muita gente sobre a sua carreira. No entanto, é ídolo de uma das maiores e mais apaixonadas torcidas do futebol italiano. E segue como um meio-campista de capacidade inegável, entre os melhores da Serie A. O eslovaco já tinha feito uma temporada enorme com os celestes, apesar do vice-campeonato italiano. Segue em grande forma na Eurocopa. E com um peso maior sobre as costas, de ser, além de líder, também o cara com o maior papel decisivo – o que não acontece necessariamente no Napoli.
Embora a Euro esteja apenas no começo, Hamsik já desponta como um dos jogadores mais influentes do torneio. A equipe da Eslováquia gira ao seu redor, centralizado na trinca de meias, uma posição diferente da que desempenha no clube. E, nesta quarta, sua capacidade de definição valeu demais. O lançamento cirúrgico para Weiss se complementou com a frieza do ponta no arremate. Já aos 44, coube ao craque do time chamar para si os holofotes, antes de dar um belo drible no marcador e soltar a bomba no ângulo. Pintura de quem arrematou e recebeu a bola mais do que qualquer outro de sua equipe. Ainda assim, em função primordial, ele não abandona as suas características como operário, sendo o primeiro a dar combate para a recuperação da bola.
A Eslováquia não tem um grande time, mas se torna mais competitiva a partir da capacidade de sua grande estrela – e tanto pela maneira como faz o coletivo funcionar quanto pelo talento para resolver sozinho. As qualidades individuais de Hamsik se ressaltam mais com a seleção. Por isso, uma grande campanha com o país é também o melhor caminho para o meio-campista deixar as memórias sobre o seu futebol mais vivas na cabeça de quem o viu. Esta já é a “Eslováquia de Hamsik”. Resta saber quão longe o protagonista poderá leva-la.

