Eurocopa 2024

Guia da Eurocopa 2016: Grupo C

A Alemanha emerge como franca favorita na chave, mas as previsões são mais delicadas do que parecem no Grupo C. Afinal, o futebol do Nationalelf não tem sido tão convincente assim nos últimos tempos, e não é de se duvidar que os adversários arranquem pontos da potência. A Polônia, sobretudo, se coloca como segunda força, tanto pelo bom momento quanto por ter batido os próprios alemães nas Eliminatórias. Já Ucrânia e Irlanda do Norte também possuem predicados para sonharem com a classificação.

ALEMANHACopa do Mundo - Alemanha X Argentina

O favoritismo da Alemanha é inquestionável, tanto por qualidade do elenco quanto por vir de um título mundial. No entanto, em um ciclo de renovação, o Nationalelf deixou poréns. Se os amistosos não servem tanto de parâmetro, com o time muitas vezes relaxado demais mesmo contra outras seleções de peso, a campanha nas Eliminatórias da Euro também ficou devendo, especialmente pelas dificuldades demonstradas contra os rivais mais cascudos, Polônia e Irlanda. De qualquer forma, negar a força dos alemães é um erro, até porque o poder de decisão costuma crescer nas fases finais do torneio. É o que o time de Joachim Löw precisará fazer, mesmo trocando suas lideranças em relação à Copa de 2014.

Como joga

Qualidade técnica, toque de bola, postura incisiva. A maneira como a Alemanha se consagrou nos últimos anos não é segredo para ninguém. E a espinha dorsal permanece intacta com Neuer, Hummels, Kroos, Özil e Thomas Müller. Os problemas pontuais, contudo, perturbam. Os laterais, mais uma vez, não se sugerem tão confiáveis. Há interrogações sobre a cabeça de área, especialmente diante dos problemas físicos de Schweinsteiger, que deve ficar no banco. E o comando de ataque permanece como grande dor de cabeça, o que se evidencia com a volta de Mario Gómez, apesar da boa fase no Besiktas. Ele ou Götze devem jogar como referência em um time que tem posse de bola, mas que nos últimos tempos demonstrou dificuldades em abrir retrancas. Além disso, uma virtude de Löw tem sido a variação de sistemas táticos, o que pode ser um trunfo no torneio.

Destaque

Thiago Motta, da Itália, marca Müller, da Alemanha (AP Photo/Kerstin Joensson)

Thomas Müller. Em um elenco tão recheado de estrelas, é possível citar diferentes nomes. Mas, em uma linha de ataque que, apesar das opções, sofre com mudanças constantes, o papel do artilheiro é indiscutível. Em alguns momentos de incerteza nos últimos dois anos, Müller chegou mesmo a carregar o Nationalelf nas costas. Na campanha das Eliminatórias, teve atuações decisivas contra Polônia, Escócia e Geórgia. Além disso, a sua versatilidade é de grande valia. Geralmente atua aberto na meia direita, mas as constantes dúvidas ainda podem desloca-lo como homem de referência.

Fique de olho

Julian Draxler. Para quem estourou com apenas 17 anos, a afirmação do meia vem deixando um pouco a desejar. Independente disso, para quem tem só 22, a Eurocopa pode significar um ponto de passagem. Contratado a peso de ouro, Draxler viveu bons momentos com o Wolfsburg na temporada. E há também uma lacuna no time titular, na ponta esquerda, que tende a cair no seu colo, com o corte de Marco Reus. Talento não falta para que o jovem, enfim, consiga fazer o grande torneio de sua carreira. Embora reservas, outros nomes para o futuro da Alemanha são Julian Weigl e Leroy Sané.

Histórico na Eurocopa

A Alemanha até demorou para estrear na Eurocopa. Ausente nas três primeiras edições, fez a sua primeira aparição em 1972. Já levantou a taça naquela competição e nunca mais se ausentou, estabelecendo um recorde no total de participações e na assiduidade. Os momentos na década de 1970 foram os melhores, com o bicampeonato entre as gerações de Beckenbauer e Rummenigge, além do doloroso vice para a Tchecoslováquia de Panenka. Em 1996, Klinsmann liderou os germânicos a mais uma conquista. Mas, desde então, o jejum se alonga. Das fracas campanhas no início dos anos 2000, o Nationalelf se frustrou com os bons times em 2008 e 2012. Tarimbada pela Copa do Mundo, a atual geração agora espera triunfar também no continente.

Fora de campo

Poucas seleções possuem traços multiétnicos tão fortes em seu elenco quanto a Alemanha. Em um país que se reconstruiu também graças aos imigrantes, nada mais natural que isso se refletisse na seleção nacional. Porém, a xenofobia se tornou assunto de debates intensos nas últimas semanas, depois que um político radical do país atacou publicamente Mesut Özil e Jérôme Boateng. A lucidez, ao menos, resiste em boa parte da população, com seguidas manifestações de apoio aos protagonistas da equipe.

IRLANDA DO NORTE

Northern Ireland's Kyle Lafferty celebrates at full time following his goal against Hungary during their Euro 2016 Group F qualifying soccer match at Windsor Park, Belfast, Northern Ireland, Monday, Sept. 7, 2015. (AP Photo/Peter Morrison)

Dentre os líderes de grupo nas Eliminatórias da Euro, sem dúvidas a grande surpresa. Tudo bem que a Irlanda do Norte não tinha adversários de tanto peso assim, mas não dá para negar o sucesso da campanha, com apenas uma derrota. A força como visitante, sobretudo, garantiu pontos importantíssimos na classificação. E o equilíbrio dos britânicos em campo se evidenciou. Embora seja o time menos cotado no Grupo C, dá para fazer um papel digno – para cair de pé ou mesmo beliscar a classificação.

Como joga

Sem ser brilhante, a Irlanda do Norte consegue ter bastante solidez. Michael O’Neill sabe trabalhar com suas peças conseguindo muita aplicação e variando os sistemas de jogo. Sem a bola, os norte-irlandeses oferecem grande empenho na marcação, especialmente no meio-campo recheado por cinco homens. A grande arma ofensiva, porém, é conhecida: o jogo aéreo e os centros para o artilheiro Kyle Lafferty, autor de sete gols nas Eliminatórias.

Destaque

Northern Ireland Greece Euro Soccer

Steven Davis. Em um time sem astros, o operário do Southampton se destaca por sua qualidade e por sua regularidade. Ajuda a organizar o meio-campo fazendo o simples na distribuição. Além disso, é o capitão e o segundo mais experiente da seleção, com 83 partidas na equipe nacional. Aos 31 anos, tem a oportunidade de sua vida ao disputar um torneio de primeira grandeza. E deu sua contribuição, com dois gols na vitória por 3 a 1 sobre a Grécia, que selou a inédita classificação.

Fique de olho

Paddy McNair. Lançado no Manchester United por Louis van Gaal, o garoto de 21 anos serve de coringa a Michael O’Neill. Zagueiro de origem, McNair também cumpre as funções de lateral direito e volante. Com vitalidade e capacidade física, consegue reforçar o sistema defensivo norte-irlandês, um tanto quanto envelhecido. Quem também pede passagem é Conor Washington, atacante em ascensão com o Queens Park Rangers.

Histórico na Eurocopa

Dona de três aparições em Copas do Mundo, a Irlanda do Norte fará a sua estreia na Euro. E sua melhor campanha anterior nas Eliminatórias tinha sido justamente na Euro 1984, no intervalo entre os Mundiais de 1982 e 1986, nos quais esteve. A equipe de Pat Jennings, Martin O’Neill e Norman Whiteside terminou com os mesmos 11 pontos da Alemanha Ocidental. No entanto, só um time avançava, e os germânicos tinham melhor saldo de gols. Outra grande frustração veio também em 1996, quando, por um gol de saldo, quem avançou à repescagem foi a rival Irlanda.

Fora de campo

Apesar do sectarismo histórico, a Irlanda demorou mais a se dividir no futebol do que na política. Quarta seleção mais antiga do mundo, disputou a sua primeira partida em 1882. E, apesar da independência da República da Irlanda em 1923, a ilha seguiu formando uma só seleção até 1950. Juntas, disputaram o Home British Championship, tradicional torneio entre as nações britânicas. A separação definitiva aconteceu em 1950, após a competição servir de Eliminatórias para a Copa do Mundo. Desde então, norte-irlandeses e irlandeses se enfrentaram em 10 oportunidades, a primeira delas em 1978. E não seria de se duvidar que formassem uma forte seleção durante a década de 1980.

POLÔNIA

Lewandowski comemora a classificação da Polônia à Eurocopa com champanhe em campo

Por mais que as aparições em torneios internacionais tenham sido constantes a partir dos anos 2000, nunca a Polônia apareceu com um time tão confiável. O momento de Robert Lewandowski é um trunfo notável, mas os poloneses também apresentam boas alternativas em todos os setores e vêm de um excelente desempenho nas Eliminatórias, quando ameaçaram até mesmo roubar a liderança da Alemanha – sobretudo depois da vitória em outubro de 2014, por 2 a 0. Já nos amistosos recentes, apesar de boas vitórias sobre Islândia e República Tcheca, os tropeços recentes contra Holanda e Lituânia tiram um pouco do embalo. Mas nada que pareça ameaçar a força dos poloneses rumo aos mata-matas.

Como joga

Poucas seleções europeias possuem uma dupla de ataque tão qualificada quanto a Polônia. Lewandowski e Milik combinam-se muito bem, entre presença de área e voluntarismo para buscar o jogo. Não à toa, produziram 19 gols nas Eliminatórias. De qualquer maneira, a chave para os poloneses está em seu meio de campo. Em uma equipe que preza pela posse de bola, o trabalho nos passes para ajudar os atacantes se faz fundamental, assim como para não expor uma defesa que deixa reticências. Além disso, uma válvula de escape se constrói no lado direito do campo, onde Kuba e Piszczek oferecem o entrosamento dos tempos de Borussia Dortmund e velocidade.

Destaque

Robert Lewandowski. Uma escolha mais do que óbvia, até por tudo aquilo que jogou durante as Eliminatórias. Tudo bem, Gibraltar deu uma boa ajuda. Ainda assim, marcar 13 gols ao longo da campanha tem uma representatividade imensa, não apenas sobre o ótimo momento do centroavante, mas também sobre a sua influência para o sucesso dos poloneses. Ter um homem de referência deste porte é decisivo. Além do mais, o camisa 9 também ajuda bastante na construção do jogo, abrindo espaços aos companheiros.

Fique de olho

Lewandowski comemora um dos seus gols com os companheiros (AP Photo/Czarek Sokolowski)

Grzegorz Krychowiak. Aos 26 anos, o meio-campista não é bem uma novidade na Polônia. Já são oito anos sendo convocado pela equipe principal, embora esta seja apenas sua primeira participação em um torneio continental. Contudo, a ótima fase no Sevilla também se estende à seleção. O volante serve de ponto de equilíbrio ao time, protegendo a linha defensiva e distribuindo o jogo com simplicidade. Além do mais, por seu porte físico, costuma ser uma alternativa de peso para as jogadas aéreas. O problema é que volta de lesão, o que pode tirá-lo dos primeiros jogos.

Histórico na Eurocopa

Apesar do sucesso das gerações encabeçadas por Lato e Boniek entre os anos 1970 e 1980, com grandes participações em Copas do Mundo, aquele timaço da Polônia nunca conseguiu disputar a Eurocopa. A estreia só veio a acontecer em 2008, com o envelhecido time estrelado por Zurawski e Smolarek. Já em 2012, classificados como sede, os poloneses contavam com uma base significativa da equipe atual. Em ambas as participações o fracasso foi retumbante: lanternas do grupo e sem uma vitória sequer conquistada.

Fora de campo

Entre conflitos e laços, Polônia e Alemanha possuem uma relação intrínseca que atravessou séculos e teve o seu (triste) ápice durante a Segunda Guerra Mundial. Por isso mesmo, a vitória da seleção local sobre os alemães em 2014, dentro do Estádio Nacional de Varsóvia, teve um simbolismo imenso. Era uma maneira de se impor contra a potência que deflagrou tantos episódios de imperialismo no território. Atualmente, a Alemanha é a maior parceira econômica da Polônia. O que não evita as rusgas, especialmente diante da eleição de Andrzej Duda, da direita conservadora, à presidência.

UCRÂNIA

Ukraine Slovenia Euro Soccer

A Ucrânia já contou com gerações mais talentosas desde a sua independência. De qualquer forma, o nível de maturidade da atual equipe se faz fundamental para o seu sucesso. Conhece as suas limitações e, assim, desenvolve o seu jogo. A consciência levou os ucranianos à repescagem e garantiu a vitória sobre a Eslovênia, que selou a presença na França. E, como terceira força da chave na teoria, a equipe de Mykhaylo Fomenko confia em seus dois grandes artífices para ao menos chegar às oitavas de final.

Como joga

O conservadorismo no jogo da Ucrânia é evidente. Montada quase sempre no 4-2-3-1, a equipe não tem problemas em jogar na defesa, com nove de seus homens de linha empenhados na marcação. Sem um goleiro tão confiável, a estratégia se faz mais do que necessária. Já com a bola, a alternativa são os lançamentos longos e os contra-ataques puxados pelos dois craques da equipe, Yarmolenko e Konoplyanka. Além disso, com um time titular alto, as bolas aéreas sempre incomodam.

Destaque

yarmolenko

Andriy Yarmolenko. Por mais que o veteraníssimo Anatoliy Tymoshchuk permaneça com a braçadeira de capitão, outra liderança natural é o camisa 7. Com 59 partidas pela seleção nacional, nem parece que o meio-campista segue com apenas 26 anos. Dono de técnica apurada e boa chegada ao ataque, se torna um ponto vital no time ao lado de Yevhen Konoplyanka, reforçando as chegadas pelas pontas. Segundo maior artilheiro da história da equipe nacional, teve peso decisivo na repescagem, marcando dois gols diante da Eslovênia. É um dos remanescentes da Euro 2012, quando já teve boas atuações.

Fique de olho

Viktor Kovalenko. O meia de 20 anos é o único armador verdadeiro no elenco ucraniano. Por decisões técnicas, deve começar o torneio no banco. Mas não será surpreendente se ganhar a confiança, diante dos momentos de apuros na campanha. Dono de ótima criatividade e visão de jogo, o garoto fez boa temporada com o Shakhtar Donetsk, mesmo incumbido de ser o substituto de Alex Teixeira.

Histórico na Eurocopa

Como parte fundamental da União Soviética, a Ucrânia pode reclamar o seu peso nas boas campanhas do antigo país. No vice-campeonato de 1988, sobretudo, a base do técnico Valeri Lobanovsky era formada pelo Dynamo Kiev, com 11 jogadores convocados – entre eles, Igor Belanov e Aleksandr Zavarov. Depois da independência, contudo, nem mesmo Shevchenko em seu auge foi capaz de colocar os ucranianos na Euro. A estreia aconteceu em 2012, como país-sede, e já com o veterano em seus últimos momentos. A campanha que parou na fase de grupos, ao menos, serviu para preparar muitas das referências da atual equipe.

Fora de campo

O conflito na região leste da Ucrânia e as disputas recentes com a Rússia são problemas latentes. Prejudicaram a liga nacional e tiraram força da principal potência da região, o Shakhtar Donetsk. Ao que tudo indica, um cruzamento com os russos é improvável. Mas não duvide se a questão voltar à tona, principalmente por conta de Yevhen Seleznyov, centroavante que costuma ser alvo de críticas por jogar no Kuban Krasnodar, do país vizinho.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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