Eurocopa

Espanha x Croácia completarão uma “trilogia de confrontos” na Eurocopa – depois de 2012 e 2016, o mais importante em 2020

Espanha e Croácia fizeram jogos decisivos por fases de grupos, mas nenhum com o peso destas oitavas

Espanha e Croácia se enfrentarão pelas oitavas de final da Eurocopa completando uma trilogia de confrontos. Pela terceira edição consecutiva, as duas equipes medirão forças pelo torneio continental. Desta vez, porém, o duelo terá o peso inédito de um mata-mata. Em 2012, a Croácia seria uma das primeiras vítimas no tricampeonato espanhol. Já em 2016, a Espanha acabaria tomando o troco e elevaria as expectativas sobre um sucesso croata que não se confirmou. E ainda que sejam cinco anos desde aquela partida, este intervalo ainda contou com embates notáveis pela Liga das Nações, que jogam um pouco mais de tempero sobre a partida desta segunda-feira, dentro do Estádio Parken.

Durante as duas primeiras décadas de independência da Croácia, as únicas partidas contra a Espanha aconteceram em amistosos. O Campeonato Espanhol foi um dos primeiros a abrir as portas para os principais talentos croatas e dá para dizer que existia uma ligação umbilical desde aquela época. Atual presidente da federação, Davor Suker foi o grande nome a emplacar em La Liga durante os anos 1990, primeiro no Sevilla e depois no Real Madrid. Ainda assim, outros tantos destaques da seleção balcânica povoaram os clubes espanhóis no período – como Robert Prosinecki, Goran Vlaovic, Zvonimir Boban, Robert Jarni e Igor Stimac. Nem todos brilharam por lá, mas raízes estavam firmadas rumo à geração de Luka Modric e Ivan Rakitic.

Entre as seleções, o primeiro encontro aconteceu em março de 1994, como preparação à Copa do Mundo. A Croácia não somava ainda dez partidas oficiais e trazia cinco titulares em atividade por clubes espanhóis – Suker, Prosinecki, Stimac, Stjepan Andrijasevic e Nikola Jerkan. Pois os croatas conseguiram surpreender a Espanha de Javier Clemente, vencendo por 2 a 0 em Valencia. Prosinecki e Suker sublinharam o posto de estrelas daquele time, anotando os tentos no Mestalla. O treinador da Croácia na ocasião já era Miroslav Blazevic, que conduziria o país à semifinal da Copa do Mundo de 1998.

O segundo amistoso entre Espanha e Croácia ocorreu já em outro contexto, em 1999, com o futebol croata reconhecido pelo resto do mundo após o Mundial da França. E seria a Espanha a vencer o embate dentro do Estádio Olímpico de La Cartuja, mesmo com uma porção de novatos dentro de campo. A Fúria emplacou uma vitória por 3 a 1 de virada. Suker até abriu a contagem em Sevilha, mas Vicente Engonga, Fernando Hierro e Dani conduziram a reação espanhola. Desta vez, quatro jogadores da Croácia em campo atuavam em La Liga, com Suker já campeão europeu e mundial pelo Real Madrid. Na Roja, um dos titulares foi exatamente Luis Enrique, o atual treinador da equipe nacional.

Em fevereiro de 2000, às vésperas da Eurocopa, as duas seleções se pegaram em Split. O empate por 0 a 0 não deixou tantas memórias, novamente com Luis Enrique em campo. Por fim, o último amistoso  ocorreu em junho de 2006, na França, já às vésperas da Copa do Mundo na Alemanha. A Espanha se deu melhor mais uma vez, ao ganhar por 2 a 1. Pablo Ibáñez marcou um gol contra que deixou os croatas em vantagem, mas Mariano Pernía e Fernando Torres viraram antes do fim. Aquele foi o primeiro jogo sem nenhum atleta da Croácia em atividade na Espanha. Depois disso, os últimos quatro duelos entre os países foram em competições continentais.

A Euro 2012

Espanha e Croácia foram sorteadas no Grupo C da Euro 2012, que também contava com Itália e Irlanda. Os croatas assumiam o papel de terceira força na chave, considerando o peso de italianos e espanhóis. E seria no confronto direto que a Roja, atual campeã continental, selaria sua classificação para os mata-matas. Uma apertada vitória por 1 a 0 sobre a Croácia confirmou a passagem da Espanha na primeira colocação, para encarar a França nas quartas de final.

A Croácia abriu o Grupo C na liderança, ao vencer a Irlanda por 3 a 1. No mesmo dia, Espanha e Itália ficaram no empate por 1 a 1. A Roja subiu para a ponta na segunda rodada, ao golear os irlandeses por 4 a 0. No embate com os italianos, os croatas também ficaram no 1 a 1. Assim, na rodada final, a Croácia precisava derrotar a Espanha para conseguir alcançar os mata-matas, já que muito provavelmente a Azzurra faria sua parte contra a Irlanda. O triunfo espanhol por 1 a 0 em Gdánsk, porém, confirmou a classificação das duas favoritas – depois que a Itália realmente ganhou dos irlandeses por 2 a 0.

A Espanha vivia o ápice de sua fama com Vicente del Bosque, ainda que não fosse necessariamente o melhor futebol apresentado. A equipe se mantinha num 4-3-3 que aproveitava a força de Real Madrid e Barcelona naqueles anos. Iker Casillas era o goleiro. A linha defensiva reunia Gerard Piqué e Sergio Ramos no miolo da zaga, além de Álvaro Arbeloa e Jordi Alba nas laterais. O meio-campo vinha com Sergio Busquets, Xabi Alonso e Xavi. Mais à frente, David Silva e Andrés Iniesta eram os pontas, municiando Fernando Torres no comando de ataque. Qualidade técnica não faltava, mas o faro de gol era um problema naquele momento, até pela queda de desempenho do camisa 9.

A Croácia vinha dirigida por Slaven Bilic. E reunia alguns jogadores que permanecem no atual elenco. Domagoj Vida, Luka Modric e Ivan Perisic entraram em campo naquela ocasião. Aquele time axadrezado ainda tinha Stipe Pletikosa no gol e uma zaga liderada por Vedran Corluka. No meio, Ivan Rakitic ajudava na organização, enquanto o capitão Darijo Srna aparecia como meia direita. Já no comando de ataque, Mario Mandzukic era o homem de referência, com a alternativa de Eduardo da Silva no banco de reservas. Uma boa equipe, mas abaixo de seu maior amadurecimento.

Naquele momento, a Espanha somava uma invencibilidade que durava oito partidas. Contudo, sofreu para arrancar o resultado positivo na Polônia. O domínio da Roja era amplo desde o primeiro tempo, mas sem criar tantas chances claras de gol. Pletikosa não era muito exigido em sua meta. Enquanto isso, a Croácia dava suas escapadas. Mandzukic chegou a reclamar de um pênalti cometido por Ramos, que a arbitragem não anotou. Iniesta era importante para orquestrar seus companheiros, mas sem muita penetração para ameaçar o primeiro tento. O placar sem gols era compreensível ao fim dos 45 minutos iniciais, diante das dificuldades dos ibéricos.

A segunda etapa guardaria perigos à Espanha. Um gol da Croácia poderia desclassificar a Roja. E isso quase aconteceu aos 14 minutos, numa cabeçada livre de Rakitic, na qual Casillas operou um milagre para evitar o pior. Vicente del Bosque ainda preferiria tirar Torres para colocar Jesús Navas, deslocando David Silva como falso nove. Depois seria a vez de Cesc Fàbregas ser improvisado no posto, no lugar do próprio Silva. A Espanha ainda ia avançando graças ao saldo de gols, mas estava no limite.

Com o passar dos minutos, a defensiva croata começava a indicar desgaste e as infiltrações espanholas se tornaram mais frequentes, sem conclusões precisas. Ainda assim, Casillas precisou aparecer de novo, ao espalmar um tiro cruzado de Srna. O desafogo ibérico só ocorreu aos 43, depois de duas boas defesas de Pletikosa. Iniesta foi lançado em profundidade por um lindo passe de Fàbregas por elevação e, diante de Pletikosa, só rolou para Navas completar às redes vazias. O alívio da Espanha seria tremendo, assegurando a primeira colocação da chave mesmo com um futebol menos competitivo que em 2008.

A Croácia ficou pelo caminho, numa sequência de campanhas internacionais que ainda não justificavam a dimensão de seu bom elenco. Já a Espanha despacharia a França e depois superaria Portugal nos pênaltis, até se reencontrar com a Itália na decisão. A goleada por 4 a 0 em Kiev mudou as impressões sobre uma equipe burocrática e selou a hegemonia espanhola, com seu terceiro título internacional consecutivo, somando também a Copa do Mundo de 2010. Os croatas, de qualquer maneira, estiveram próximos de encerrar aquela dinastia ainda na primeira fase.

A Euro 2016

Quatro anos depois, a Espanha já não gozava de tanto moral assim. A equipe de Vicente del Bosque tinha sido a grande decepção da Copa do Mundo de 2014 e, apesar disso, o treinador permanecia à frente do cargo. A geração dourada se mostrava envelhecida e desgastes internos, inclusive por conta da rivalidade Barcelona x Real Madrid, tiravam as expectativas ao redor da equipe. Enquanto isso, a Croácia ganhava mais casca com seus jogadores experientes e anunciava que poderia fazer uma boa campanha internacional. Ficaria para dois anos depois, mas o triunfo sobre os espanhóis na fase de grupos já justificou um pouco desta badalação.

Croácia e Espanha compunham o Grupo D da Eurocopa, que ainda tinha Turquia e República Tcheca. As duas equipes confirmaram o favoritismo, com o confronto direto ficando para a rodada final. Os croatas fizeram 1 a 0 na Turquia e depois empataram com a República Tcheca por 2 a 2. Já os espanhóis anotaram 1 a 0 nos tchecos e cravaram 3 a 0 sobre os turcos na segunda rodada. A classificação da Roja estava encaminhada para o duelo com os axadrezados e, até por isso, a necessidade de vitória dos croatas era maior, para não haver riscos entre os melhores terceiros colocados.

Mesmo com a Espanha garantida na etapa seguinte, Vicente del Bosque não quis poupar forças, para assegurar de uma vez a primeira posição. Aquele time possuía David de Gea no gol, relegando Casillas ao banco de reservas. Piqué e Sergio Ramos seguiam na zaga, com Alba e Juanfran nas laterais. O meio reunia Busquets, Fàbregas e Iniesta. Já na frente, as modificações eram mais sensíveis. David Silva era o único remanescente de quatro anos antes. Nolito ocupava a ponta esquerda, enquanto Álvaro Morata já foi o homem de referência naquela competição.

A Croácia dirigida por Ante Cacic se aproximava do time que faria sucesso na Copa de 2018, mas preferiu descansar seus titulares. Vida, Modric, Mandzukic e Marcelo Brozovic se ausentaram daquele compromisso no Estádio Matmut Atlantique, em Bordeaux. Danijel Subasic era o goleiro. Srna, Corluka, Tin Jedvaj e Sime Vrsaljko compunham a linha de zaga. Os volantes eram Milan Badelj e Marko Rog, com uma trinca de meias composta por Perisic, Rakitic e Marko Pjaca. Na frente, Nikola Kalinic serviu como homem de referência. O destaque ficava a Srna que, além de capitão, seguia intocável na equipe mesmo depois de se ausentar por alguns dias para enterrar o pai em sua terra natal.

A Espanha até vislumbrou uma vitória fácil naquela partida em Bordeaux. Logo aos sete minutos, o placar estava aberto para a Roja. David Silva rabiscou a defesa croata e deu uma enfiada de bola absurda para Fàbregas. Diante de Subasic, o meio-campista só rolou para Morata completar na pequena área. Todavia, logo a Croácia mostrou como estava disposta a dificultar. Kalinic exigiu uma boa defesa de De Gea e Rakitic quase marcou um golaço por cobertura, em bola que piedosamente bateu no travessão e na trave. Os espanhóis até ficavam mais tempo no ataque, mas com dificuldades para criar oportunidades claras. Assim, os croatas puderam acreditar e buscaram a igualdade aos 45 minutos. Perisic entortou a marcação pelo lado esquerdo e cruzou para um golaço de Kalinic, desviando cheio de estilo com o calcanhar.

O segundo tempo ainda veria uma Espanha muito imprecisa nas conclusões. A Croácia ensaiava seu crime, com De Gea salvando diante de Jedvaj e Pjaca ainda emendando uma meia-bicicleta para fora. Sergio Ramos poderia ter retomado a vantagem para a Roja. Primeiro, cabeceou com muito perigo para fora aos 23. Depois, desperdiçou um raro pênalti. O zagueiro cobrou mal, no meio do gol, e Pletikosa não teve muitas dificuldades para espalmar. Del Bosque colocaria Aritz Aduriz em seu ataque na sequência, mas o centroavante não aproveitou alguns cruzamentos em sua direção.

O jogo permanecia aberto nos minutos finais, ainda que a Croácia estivesse se classificando com a vitória parcial da Turquia sobre a República Tcheca no outro duelo do Grupo D. Os croatas, ainda assim, poderiam abocanhar a liderança com uma vitória. E foi isso que aconteceu aos 42. Num contra-ataque mortal, Kalinic disparou e abriu com Perisic na esquerda. O ponta chutou antes de Piqué chegar e contou com a colaboração de De Gea, que deixou o canto ao lado da trave aberto. Num tiro no cantinho, o camisa 4 se sagrou como o herói daquela noite. Nos acréscimos, Vrsaljko definiu o resultado ao salvar uma bola de David Silva quase em cima da linha.

 

Com sete pontos, a Croácia passou na primeira colocação e pegou Portugal nas oitavas de final. Os croatas pareciam favoritos, mas, num jogo muito pobre tecnicamente, Ricardo Quaresma definiu a classificação lusitana no fim do segundo tempo da prorrogação. O sucesso daquele grupo de jogadores ficaria mesmo para a Copa de 2018. Já a Espanha decepcionou diante de uma Itália aguerrida, mas limitada. A Azzurra de Antonio Conte encerrou as esperanças de um terceiro título consecutivo dos ibéricos, com o triunfo por 2 a 0 em Saint-Denis. Encerrava-se ali também o ciclo de Vicente del Bosque.

Por fim, os dois últimos encontros ocorreram pela Liga das Nações. Foi contra a Croácia que Luis Enrique conquistou uma de suas vitórias mais impressionantes à frente da Espanha, com os 6 a 0 em Elche. Saúl, Marco Asensio, Lovre Kalinic (contra), Rodrigo Moreno, Sergio Ramos e Isco marcaram os gols – curiosamente, nenhum dos espanhóis que balançaram as redes está presente nesta Euro 2020. Sergio Busquets, aliás, é o único que mantém sua posição como titular depois de três anos. Foi a maior goleada sofrida pelos croatas na história de sua seleção, num jogo que marcava a centésima aparição de Rakitic pela equipe nacional.

O troco, contudo, veio na própria Liga das Nações. A vitória da Croácia por 3 a 2 não devolveu o placar completamente, mas impediu a Espanha de chegar ao Final Four. Aquele jogo marcou homenagens a Subasic, Corluka e Mandzukic, que se despediam da equipe nacional. E os anfitriões fizeram as honras da casa no Estádio Maksimir. Perisic mandou uma bola na trave no primeiro tempo, mas o primeiro gol só viria na segunda etapa, com Andrej Kramaric aproveitando uma saída de bola errada dos adversários. Dani Ceballos empatou e Iago Aspas carimbou o travessão, mas Tin Jedvaj retomou a vantagem aos croatas. Ante Rebic ainda perderia um gol feito, até Sergio Ramos empatar novamente de pênalti. Porém, nos acréscimos, Jedvaj foi mesmo o herói ao anotar mais um tento, no rebote de De Gea.

Na Espanha, Jordi Alba e Sergio Busquets são os raríssimos remanescentes daquele time, enquanto Morata saiu do banco na ocasião. Do lado croata, Zlatko Dalic mantém vários nomes e ainda tem em Luka Modric seu homem de referência, ainda que Ivan Perisic deva fazer muita falta após contrair COVID-19. Muitos personagens se repetem nestes nove anos de partidas oficiais. A Euro 2020, ainda assim, oferece um tira-teima com muito mais peso do que qualquer outro embate anterior.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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