Eurocopa

“Espalhe o amor”: Goretzka fez a diferença na seleção alemã e também deixou clara sua mensagem no gol decisivo contra a Hungria

Sem medo de se posicionar politicamente, Goretzka manifestou seu apoio ao movimento LGBT depois do gol

A Alemanha suou um bocado para conquistar a classificação às oitavas de final da Euro 2020. A eliminação estava na conta até os 39 do segundo tempo, quando Leon Goretzka surgiu como o salvador da equipe nacional. Jamal Musiala teve grande assinatura na jogada, enquanto o meio-campista se responsabilizou por emendar às redes. E o gol carrega diferentes simbolismos em si. Primeiro, pela própria necessidade de ver o camisa 18 mais tempo em campo, pela maneira como consegue conferir maior agressividade ao time. Depois, pelo seu próprio envolvimento com causas políticas, num jogo envolto por discussões fora de campo. O coração mostrado com as mãos para os ultras húngaros na comemoração tinha motivos. “Espalhe o amor”, seria a mensagem postada pelo alemão nas suas redes sociais depois do empate, com a bandeira do movimento LGBT.

O setor mais bem servido da seleção alemã é o meio-campo. Joachim Löw conta com quatro jogadores de alta qualidade para a cabeça de área. Toni Kroos é uma das lideranças da Mannschaft, enquanto Ilkay Gündogan justificava seu espaço pela excelente temporada com o Manchester City. Joshua Kimmich, outro em ótima forma no Bayern de Munique, tem mais aproveitada sua versatilidade e surge deslocado na ala direita. Assim, quem começou a Eurocopa no banco foi mesmo Goretzka. Não exatamente por sua forma técnica, já que o camisa 18 protagonizou um salto de desempenho com o Bayern e se saiu ainda melhor nos últimos meses do que nas campanhas da Tríplice Cora. O problema era mesmo físico, com uma lesão muscular na antepenúltima rodada da Bundesliga, que chegou a botar em xeque sua presença na competição.

No fim, Löw bancou Goretzka, mas não contou com o meio-campista durante os amistosos preparatórios e nem mesmo na estreia diante da França. Sua primeira aparição aconteceu diante de Portugal, entrando nos minutos finais de um jogo resolvido. Ainda assim, quase marcou o quinto gol. Já diante da Hungria, Goretzka seria muito mais necessário. A Alemanha tinha posse de bola, mas não exibia repertório. Rodava a bola, para que ela quase sempre parasse na direita, onde Kimmich tentava seus cruzamentos. Diante das linhas de marcação adversárias, a entrada da área parecia zona proibida. Kroos e Gündogan não faziam muito para buscar brechas.

Kroos ainda oferecia um pouco mais à equipe, com lançamentos em profundidade e precisão nas bolas paradas, além de ditar o ritmo. Gündogan nem isso conseguia, caindo de produção nesta reta final de temporada. E com o camisa 21 parecendo sentir o desgaste físico, Goretzka seria uma entrada necessária aos 13 minutos do segundo tempo. Ofereceria uma agressividade que não se via na Alemanha, por suas próprias características individuais. É um jogador que chuta de longe, que invade a área para definir e que até ajuda mais no jogo aéreo. Foi o que se viu na meia hora final diante dos magiares.

Goretzka ainda teria um pouco de dificuldades para romper a marcação, num jogo em que a Alemanha como um todo não estava bem. Mas empurrou a equipe para frente. O próprio Kroos cresceu na reta final da partida, seja para criar ou mesmo para tentar algo diferente. Ainda assim, quis o destino que a bola do jogo ficasse nos pés do camisa 18. Depois da jogada de Musiala pela esquerda, primeiro Goretzka tentou ajeitar à finalização de Timo Werner. Como o atacante parou na marcação, a sobra ficou com o meio-campista, que bateu rasteiro e conseguiu tirar do alcance de Péter Gulácsi. Seria decisivo numa classificação dramática dos germânicos. Não permitiu que se repetisse a decepção vista na Copa de 2018, quando ele foi apenas um coadjuvante diante da Coreia do Sul no fechamento da fase de grupos.

O tento de Goretzka, de qualquer maneira, não se conteve em si. O lance representa uma discussão maior, que não valeu à Alemanha apenas o empate, mas também uma resposta em meio aos debates fora de campo e à proibição da Uefa em colorir a Allianz Arena com as cores do arco-íris. Na comemoração, o coração feito pelo autor do gol com as mãos não parecia um gesto casual, considerando a reação dos alemães contra as leis húngaras anti-LGBT. O meio-campista, afinal, tem grande participação em ações sociais e não se esconde na hora de se posicionar politicamente.

Durante a pandemia, Goretzka organizou uma campanha de doações ao lado de Kimmich que rendeu milhões a instituições de caridade. Também se manifesta contra movimentos neonazistas, assim como encampou campanhas contra o racismo e o antissemitismo. O camisa 18 já bateu de frente até mesmo com o AfD, partido alemão investigado pelas próprias autoridades locais por ações extremistas – como bem contou o ótimo Copa além da Copa.  “Se posso jogar por meu país, quero jogar por nossos valores e constituição, não por um país que não prestou atenção na história. Preto, vermelho e amarelo são as cores da nossa democracia, não do AfD”, declararia em maio, às vésperas da Euro.

Assim, o apoio ao movimento LGBT também não é alheio a Goretzka. O camisa 18 já se manifestou favoravelmente para que companheiros gays se assumam no futebol. Na véspera do jogo contra a Hungria, o meio-campista não falou sobre as decisões políticas do país vizinho, mas apontou que “seria um absurdo” a Uefa punir o capitão Manuel Neuer por carregar a bandeira do movimento LGBT na sua braçadeira – como foi considerado pela confederação, até voltarem atrás. Por fim, depois do gesto na comemoração, a mensagem nas redes sociais não deixou mais dúvidas sobre suas intenções. Foi um personagem que pareceu se encaixar ainda melhor no contexto do duelo. E que pode render mais à Alemanha também por seu futebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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