Eliminatórias da Eurocopa

A Eurocopa é o torneio que faltava para tornar completa a grandeza de Oblak na Eslovênia

Se Handanovic ainda teve a Copa de 2010, Oblak precisou esperar por mais de uma década para viver o sonhado momento pela seleção

Jan Oblak integra (ou pelo menos deveria integrar) qualquer lista de dez melhores goleiros do mundo nos últimos dez anos. Não é nenhum absurdo colocá-lo entre os cinco melhores, inclusive, com argumentos plausíveis para isso. São anos a fio pegando muito na meta do Atlético de Madrid e protagonizando atuações gigantescas nos maiores palcos. Um dos argumentos que pesam contra Oblak, contudo, é exatamente a falta de representatividade da seleção. Enquanto muitos dos concorrentes brilhavam na Copa do Mundo ou na Eurocopa, o camisa 1 da Eslovênia assistia a tudo de casa. Será diferente na Euro 2024. Os eslovenos estão de volta ao torneio continental após 24 anos. Oblak, aos 31 anos, finalmente terá sua primeira vez numa competição internacional.

O mais perto que Oblak chegara de uma competição internacional tinha sido a Euro 2016. O goleiro começava a construir sua carreira no Atlético de Madrid, mas ainda era reserva da Eslovênia. Samir Handanovic tinha uma história mais longa na seleção e também uma fama inegável na Internazionale. Do banco, Oblak assistiu à eliminação diante da Ucrânia na repescagem àquela Eurocopa. Desde então, sequer os eslovenos tinham alcançado uma chance desse calibre. O camisa 13 se consolidou como um dos melhores do mundo no Atleti e virou até capitão da seleção neste ínterim. Contudo, apenas agora a Eslovênia cumpre o sonho. Outros não tiveram a mesma sorte, em especial Josip Ilicic – certamente o melhor ex-jogador da seleção que nunca disputou uma competição internacional.

A caminhada de Oblak

É até curioso pensar como a Eslovênia contava com dois dos melhores goleiros da última década à sua disposição, mas tinha um elenco que deixava a desejar em várias posições. A meta dos balcânicos estava muito bem guardada com a presença de Handanovic e Oblak, mas apenas um deles poderia ser titular. O arqueiro da Inter, contudo, tinha uma trajetória bem mais rica na seleção. Assumiu a titularidade quando tinha apenas 20 anos e teve papel importante na classificação para a Copa do Mundo de 2010, com a vitória sobre a Rússia na repescagem. Handanovic disputou os 270 minutos dos eslovenos na África do Sul, dono da meta. Tinha sido agraciado com a chance de vestir a camisa do país numa competição internacional, o que demorou a Oblak.

A primeira convocação de Oblak para a seleção principal da Eslovênia aconteceu em setembro de 2012, quando o jovem de 21 anos buscava seu espaço em Portugal com a camisa do Rio Ave. Durante um bom tempo, o novato pôde aprender ao lado de Handanovic. Permaneceu naturalmente como reserva até o final de 2015, com a queda para a Ucrânia na repescagem da Euro 2016. Naquele momento, aos 31 anos, Handanovic decidiu se aposentar precocemente da seleção. Abriu caminho para que seu jovem pupilo tomasse conta da posição a partir de 2016.

A titularidade de Oblak na seleção coincidiu com seus melhores momentos no Atlético de Madrid. Contratado pelo clube em 2014, o arqueiro fazia algumas de suas temporadas mais impressionantes no Metropolitano a partir de então. O problema é que um goleiro tão bom não se mostrava suficiente à Eslovênia. Os resultados do time eram fracos, mesmo com o auxílio de Ilicic no ataque. A antiga república iugoslava ficou atrás de Inglaterra, Eslováquia e Escócia nas Eliminatórias para a Copa de 2018. A quarta colocação se repetiu nas Eliminatórias para a Copa de 2022, abaixo de Croácia, Rússia e Eslováquia. Mesmo com o aumento de vagas na Euro 2020, o time decepcionou e de novo parou num quarto lugar, atrás de Polônia, Áustria e Macedônia do Norte. Nem a Liga das Nações auxiliava.

Oblak assumiu a braçadeira de capitão da Eslovênia a partir de 2021. Já era uma referência clara no time, por seu alto nível técnico e pela rodagem nas grandes competições de clubes, em especial na Champions e em La Liga. De qualquer maneira, essa importância precisava se refletir numa competição internacional com a seleção. O que finalmente se deu nestas eliminatórias da Euro 2024. Era um grupo nivelado por baixo, mas equilibrado, em que mesmo Finlândia e Cazaquistão deram trabalho. Os eslovenos se impuseram, com um elenco mais coeso. Oblak disputou oito dos dez jogos e auxiliou em 21 dos 22 pontos conquistados pelo time. Foram sete vitórias com o camisa 1 e apenas seis gols sofridos nestes oito compromissos.

As companhias na seleção

O sucesso da Eslovênia não se limita apenas a Oblak. Um dos trunfos do time nestas eliminatórias da Eurocopa foi sua qualidade ofensiva. Andraz Sporar pode não ser um atacante de primeira prateleira na Europa, mas tem bom nível para a equipe nacional. Já Benjamin Sesko é um extraclasse, algo perceptível mesmo aos 20 anos. Se o reconhecimento a Oblak demorou, a Eurocopa pinta cedo ao artilheiro, e a expectativa é de que ele lidere os eslovenos para mais no futuro. Com velocidade e técnica, além de ótima estatura, a margem de crescimento do centroavante é enorme. A Euro também pode fazer bem à sua imagem, enquanto ganha espaço nesta temporada com o RB Leipzig.

Nos outros setores, a Eslovênia conta com bons operários que cumpriram a missão mesmo sem tanta badalação. A defesa contou com a regularidade de Jaka Bijol, titular na zaga da Udinese desde a temporada passada e que também pode se tornar um nome de relevo à seleção, aos 24 anos. Já no meio, Adam Gnezda Cerin foi um dos principais garçons do time e se valeu do entrosamento com Sporar, seu companheiro no Panathinaikos. De lá também vem Benjamin Verbic, autor do gol da classificação. Também foi importante o trabalho de Timi Max Elsnik na marcação, volante que ainda atua na liga local, campeão recentemente pelo Olimpija Ljubljana.

Pela média de idade da Eslovênia, dá para imaginar um time competitivo por mais tempo. Oblak era justamente o mais velho contra o Cazaquistão, sem que ninguém passasse dos 30 anos. A experiência na Euro 2024 será valiosa para que os mais rodados mantenham a ambição e para que os mais novos busquem uma evolução. Curiosamente, uma das posições mais bem guardadas para o futuro é justamente o gol. Matevz Vidovsek chama atenção na meta do Olimpija Ljubljana aos 24 anos e é cotado para atuar em ligas maiores, após iniciar sua trajetória profissional na Atalanta. Já Martin Turk tem apenas 20 anos e pôde aprender um bocado como reserva de Gianluigi Buffon no Parma.

No comando da Eslovênia, Matjaz Kek oferece um elo com o time da Copa de 2010. O técnico da seleção no Mundial da África do Sul teve outras experiências na última década, inclusive ao levar o Rijeka a quebrar a hegemonia no Campeonato Croata. De volta à seleção desde 2018, conseguiu recolocar o país numa vitrine internacional. Os eslovenos podem ser considerados um milagre esportivo, como uma nação de 2,1 milhões de habitantes que possui relevância em inúmeras modalidades, sobretudo coletivas. E se Oblak é quem melhor representa o fenômeno no futebol, capaz de competir com Zlatko Zahovic e Samir Handanovic pelo posto de maior futebolista da história do país desde a independência, faltava uma competição internacional para chamar de sua. Não falta mais, com uma grande Euro 2024 podendo consolidar a grandeza do camisa 1. As esperanças de uma boa campanha dos eslovenos naturalmente passa por suas luvas.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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