Eurocopa

É uma pena que a eliminação da Suécia mande para casa Forsberg, diante do brilho que o camisa 10 ofereceu na Euro

Autor de quatro dos cinco gols da Suécia na campanha, Forsberg seria o grande destaque apesar da queda contra a Ucrânia

Emil Forsberg não conseguiu levar a Suécia para as quartas de final da Eurocopa, mas foi por pouco. O meia teve uma grande atuação no Hampden Park, apesar da eliminação diante da Ucrânia na prorrogação. O camisa 10 marcou o gol de empate dos escandinavos e só não determinou a virada porque esbarrou na trave duas vezes. Seria tudo aquilo que já se esperou dele, mas nem sempre se cumpriu. E, mesmo com uma campanha aquém das possibilidades que os seus compatriotas imaginavam, até pela liderança na fase de grupos, Forsberg sai grande da Euro 2020. Foi um dos melhores meio-campistas da competição até o momento e protagonizou alguns dos principais momentos de sua equipe.

Forsberg lida com as expectativas desde cedo. O meio-campista nasceu Sundsvall, uma cidade de 50 mil habitantes no norte da Suécia. Seu avô era Lennart Forsberg, que jogou no principal clube local e fez carreira nos anos 1950. Seu pai, Leif, foi um dos grandes ídolos do Sundsvall e marcou quase 150 gols pelo Campeonato Sueco, atacante de muita presença física. Havia grandes expectativas se Emil poderia fazer jus à herança genética. Mas, sem a mesma força do pai, até pensou em seguir por outros caminhos, jogando hóquei por um tempo. Foi até mesmo recusado num projeto da federação para formar talentos por ser muito pequeno. Com a ajuda da namorada, também jogadora, o adolescente começou a se superar e a encontrar seu estilo. Não apenas vingou no Sundsvall, como também emplacou rumo ao Malmö.

O sucesso com a camisa celeste levou Forsberg à seleção sueca. O meia estreou pela equipe nacional em 2014, quando tinha 22 anos. O meia arrebentaria no Malmö, a ponto de conquistar o Campeonato Sueco como uma das principais figuras. Isso permitiu que assinasse um contrato rumo à Alemanha. O camisa 10 seria escolhido para encabeçar o projeto da Red Bull em Leipzig quando o RasenBallsport ainda disputava a segunda divisão. Virou uma referência técnica da equipe que ascendeu às cabeças da Bundesliga.

Quando Forsberg disputou a sua primeira competição internacional pela Suécia, a Euro 2016, tinha acabado de conquistar o acesso na segundona alemã. Seus compatriotas, no entanto, conheciam o tamanho de seu talento especialmente depois da atuação decisiva contra a Dinamarca na repescagem. O novato foi decisivo no clássico em Solna, com um gol e uma assistência, e ajudou a botar os suecos no torneio. Só não fez muito numa campanha decepcionante dos escandinavos, que caíram ainda na fase de grupos, com apenas um ponto conquistado na chave que reunia Itália, Bélgica e Irlanda. Sairia bastante criticado da competição.

Os anos seguintes seriam importantes para Forsberg se afirmar com o RB Leipzig na Bundesliga. E o meia chegou como um dos principais jogadores da Suécia na Copa do Mundo de 2018, depois da histórica classificação diante da Itália. Mas ainda não se veria a melhor versão do camisa 10, por mais que os suecos tenham chegado longe na caminhada até as quartas de final. Seu gol contra a Suíça nas oitavas, graças a um chute desviado, levaria os escandinavos além. Só que era mais o retrato de um lance decisivo do que necessariamente de uma campanha brilhante do meia. Sobressaiu-se pelo empenho e pelo respiro ao time, não pela habilidade conhecida.

Os últimos três anos não seriam simples a Forsberg. Ele perdeu espaço no RB Leipzig e parecia cair dentro da hierarquia do clube. Sua recuperação aconteceu exatamente na atual temporada, quando passou a ser utilizado por Julian Nagelsmann tantas vezes como atacante e recobraria a confiança em seu futebol. Tal recuperação seria importante à seleção da Suécia. Ainda mais com a lesão de Zlatan Ibrahimovic, Forsberg parecia o mais apto para decidir os jogos aos escandinavos. Serviria mesmo de referência a parceiros mais jovens no ataque, como Alexander Isak e Dejan Kulusevski.

A Euro 2020 de Forsberg ainda levou um tempinho para pegar no tranco. Não jogou bem no burocrático duelo contra a Espanha. Todavia, começou a crescer a partir do jogo contra a Eslováquia. Puxando da esquerda para o centro do campo e participando bastante, o camisa 10 assumiu a responsabilidade para definir a vitória por 1 a 0 cobrando pênalti. E de novo ele apareceria diante da Polônia na terceira rodada, preponderante para levar os escandinavos à liderança do Grupo E. Marcou dois gols, definiu lances, aproveitou a qualidade de seus chutes, buscou os companheiros. Com as ótimas companhias de Isak e Kulusevski, que davam mais mobilidade ao ataque sueco, o meia cresceu.

Nesta terça, em muitos momentos, o jogo da Suécia pendeu ao lado esquerdo. Os companheiros pareciam procurar Forsberg, para que ele tentasse algo diferente. E conseguiu, sem ter medo de arriscar. O gol do camisa 10 teria uma parcela de sorte, com o desvio que acabou tirando o goleiro e garantindo que a bola entrasse nas redes. Ainda assim, num duelo em que os suecos trabalhavam bem melhor a bola, o armador garantia certa dose de refinamento. Conseguia se destacar.

Já no segundo tempo, foi uma pena que Forsberg não tenha garantido mais um gol, por tudo o que jogou. Estava evidente como a partida melhorava com a bola em seus pés. Carimbou a trave uma vez, num tiro caprichoso que parecia ter endereço certo na chapada buscando o cantinho. Carimbou a trave duas vezes, depois numa violenta pancada que balançou o travessão, depois de abrir caminho com seus cortes a partir do lado esquerdo do campo. Quando o time sueco caiu fisicamente, o camisa 10 não conseguiu corresponder. Mas não é a frustração pela eliminação no último minuto da prorrogação que apaga seu estrelato em Glasgow.

Com quatro gols, Forsberg se igualou a Henrik Larsson como o segundo maior artilheiro da Suécia em Eurocopas. Fica abaixo apenas de Ibrahimovic – que, curiosamente, nunca fez gols em mata-matas do torneio. Mesmo com a campanha encerrada nas oitavas, o camisa 10 termina também como o maior artilheiro sueco em uma única edição da Euro. E cumpre o papel de liderança que se espera de um jogador de seu calibre dentro de sua seleção. Dá até para discutir se ele foi o melhor do time na competição, considerando a maneira como Isak bagunçou as defesas, mesmo sendo menos efetivo. O que não dá para aceitar é uma Suécia que apenas se defenda tendo à disposição um bom meia como Forsberg. Se não foi uma campanha tão longa como em 2018, esta contou com um brilho especial graças às jogadas do camisa 10.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo