Depois de elevar seu sarrafo na fase de grupos, a Holanda deixa a Euro num anticlímax que retoma questionamentos
Uma sucessão de erros limitou o desempenho da Oranje, inclusive de Frank de Boer, que não gozava de muita confiança
Países Baixos / Holanda deixa a Euro 2020 num anticlímax tremendo. O desempenho da Oranje na fase de grupos da competição continental superou as expectativas. Não se esperava uma caminhada tão consistente dos laranjas e, em especial, o bom futebol apresentado para manter os 100% de aproveitamento. Se a qualidade individual não era problema a essa equipe, duvidava-se do potencial coletivo sob as ordens de Frank de Boer, um treinador que não começou bem seu trabalho. A princípio, tais desconfianças ficavam para trás. Porém, o duelo contra a República Tcheca bastou para fazer ruir os planos neerlandeses. Contra um adversário maduro, os favoritos encontraram dificuldades para se impor e uma coleção de erros culminaram numa melancólica derrota por 2 a 0 contra os tchecos.
A fase de grupos da Holanda foi bastante positiva, mas também merecia suas ressalvas. Os ventos pareciam soprar a favor do time. A Oranje primeiro venceu um duelo animado contra a Ucrânia, em que cedeu o empate, mas acabou buscando o triunfo no final. Depois, o placar aberto cedo contra a Áustria permitiu que os neerlandeses não pisassem tanto no acelerador e cozinhassem os oponentes. Por fim, a melhor atuação veio contra a Macedônia do Norte – o adversário mais fraco do grupo, que até complicou durante o primeiro tempo, mas acabou amassado pela velocidade dos laranjas na segunda etapa. Com nove pontos, o time de Frank de Boer parecia crescer na competição e surgir como um potencial candidato às semifinais, até pelo caminho no chaveamento. Não seria tão simples assim.
O 3-5-2 escolhido por Frank de Boer demorou a ser aceito por muita gente, num país onde o 4-3-3 é quase um dogma, mas parecia justificado pelo desempenho na fase de grupos. Georginio Wijnaldum era um dos melhores da competição, Frenkie de Jong permitia o funcionamento da equipe por sua versatilidade, Denzel Dumfries voava pelo lado direito, Memphis Depay apresentou seu poder de fogo. De Boer até permitiu a entrada de Donyell Malen como titular neste domingo, depois da bagunça que o atacante provocou diante dos macedônios. Mesmo que a República Tcheca tenha exibido certa força em seu conjunto, sem empolgar, parecia difícil imaginar uma grande surpresa em Budapeste.
A Holanda, todavia, não conseguiu impor seu jogo durante o primeiro tempo. Até controlou a maior parte da etapa inicial contra a Tchéquia, mas não que fosse um domínio claro. Os tchecos acertaram sua marcação, concedendo raros espaços. E os azarões também deram alguns sustos do outro lado. Aquela intensidade ofensiva dos neerlandeses na primeira fase não se reproduzia, diante da solidez de um adversário seguro. Pois os lamentos se tornariam maiores no início da segunda etapa, quando Malen desperdiçou seu gol claro no mano a mano com Tomás Vaclík.
Aquele tento perdido iniciou a sucessão de erros da Holanda. A mão inconsequente de Matthijs de Ligt seria determinante para a derrocada – num lance que combinou um erro técnico com a falta de raciocínio sobre o impacto de seu ato. Os espaços dados pelo sistema defensivo nos lances dos gols contribuíram, claro, assim como falhas individuais. Mas Frank de Boer não ajudou muito para auxiliar sua equipe. Sacou Malen para a entrada de Quincy Promes, numa escolha que não permitiu o acerto coletivo da equipe sem De Ligt e ainda custou a melhor opção de velocidade no ataque. O 4-4-1 planejado pelo treinador não deu estabilidade defensiva e nem escape aos contra-ataques. A aposta em Wout Weghorst também seria basicamente nula, sem que o centroavante representasse perigo na área, com Marten de Roon sacado no meio. E, depois que o segundo tento tcheco saiu, Steven Berghuis e Jurriën Timber estiveram distantes de salvar a pátria.
A questão não é apenas a maneira como a expulsão impactou na Holanda, algo óbvio, mas a maneira como o time não encontrou qualquer solução para ser minimamente competitivo depois disso. Seria natural esperar que a República Tcheca tomasse o controle do jogo com um homem a mais, o que de fato aconteceu. Mas a Oranje não conseguiu se proteger e, depois de sair atrás no placar, não ofereceu qualquer resposta a uma reação. Numa tarde em que coletivamente os tchecos foram melhores, as individualidades estiveram bem distantes de aparecer do lado laranja. E, à beira do campo, Frank de Boer não conseguiu vislumbrar algum caminho que fosse para o abafa no final. Os erros do comandante também possuem seu peso nesta derrocada.
A Euro 2020 parecia oferecer um renascimento à seleção da Holanda. Depois das ausências em 2016 e 2018, Ronald Koeman encontrou um novo rumo à talentosa geração. O técnico preferiu se mudar a Barcelona e, desde que assumiu, Frank de Boer não se mostrou capaz de manter o patamar apresentado com o seu antecessor. A fase de grupos da Eurocopa fez muita gente acreditar que, na hora da verdade, os neerlandeses poderiam corresponder. Porém, uma jornada extremamente infeliz resulta numa das eliminações mais duras da Oranje nos últimos anos. Não é apenas o adversário, inferior no papel, mas a forma como a apatia tomou conta dos laranjas na Puskás Arena depois da expulsão. A equipe pareceu aceitar a derrota sem tanta luta.
As expectativas sobre Países Baixos voltam à estaca zero. Está claro como a seleção possui um elenco com bons jogadores e pode ser competitiva. Pairam as dúvidas sobre Frank de Boer, se ele será mesmo um técnico capaz de impulsionar este time. A chegada à Oranje parecia um voto de confiança ao ex-zagueiro, que começou bem sua carreira no Ajax, mas naufragou em todas as outras oportunidades posteriores à beira do campo. E essa eliminação, sobretudo, parece custosa à confiança ao seu redor – mesmo que não deva ser tratado como único responsável. Não há muita margem à manobra, até pela necessidade paralela nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022. É ver o impacto que este revés terá sobre esse grupo de jogadores e sobre a própria reputação de Frank de Boer, que já não era das melhores.

