Eurocopa

De batalhas e bailes: os confrontos épicos entre Inglaterra e Itália nos anos 1930 e 1940

A Batalha de Highbury e o baile inglês em Turim estão marcados como grandes momentos do confronto

Inglaterra e Itália, os dois finalistas da atual edição da Euro, têm em seu histórico de confrontos partidas pela competição europeia, por Eliminatórias, pela Copa do Mundo e por vários torneios. Mas poucos foram tão marcantes e simbólicos quanto os jogos disputados nas décadas de 1930 e 1940, período em que, se por um lado a Azzurra levantou seu bicampeonato mundial, por outro o English Team seguia com seu prestígio inabalado mesmo se mantendo ausente da competição da Fifa. Nesta lembrança, destacamos os confrontos de 1934 em Highbury e de 1948 em Turim, os que reúnem as melhores histórias.

O empate em Roma e a “Batalha de Highbury”

O primeiro encontro da história entre as seleções inglesa e italiana aconteceu em Roma, em 13 de maio de 1933. Dirigida por Vittorio Pozzo em novo ciclo iniciado no fim de 1929 e a caminho de seu primeiro título mundial, a Itália levou a campo um time bastante rodado em jogos internacionais – o capitão Umberto Caligaris, por exemplo, já contabilizava 56 partidas vestindo a “maglia azzurra”. A escalação ainda incluía o goleiro Gianpiero Combi, Giuseppe Meazza e os ítalo-argentinos Luis Monti e Raimundo Orsi.

A Inglaterra, por outro lado, chegava repleta de estreantes: seis ao todo, além do centroavante George Hunt (do Tottenham) e do ponta-esquerda Cliff Bastin (craque de um Arsenal hegemônico na liga naquele momento), que fariam apenas sua segunda partida pelo English Team. Mesmo com a pouca experiência em jogos dessa envergadura, os ingleses surpreenderam: arrancaram o empate em 1 a 1 com gol de Bastin ainda na etapa inicial depois de Giovanni Ferrari ter aberto a contagem logo aos quatro minutos.

Pouco mais de um ano depois, a Itália conquistaria sua primeira Copa do Mundo jogando em casa e com Pozzo no comando. Os ingleses, bem como as demais nações britânicas, ficaram ausentes das três primeiras edições do Mundial por terem rompido com a Fifa, entidade organizadora da competição, num litígio que durou de 1928 a 1946. Mas continuaram enfrentando outras equipes europeias durante esse período – e vencendo a maioria das partidas, uma vez que contavam de fato com uma seleção muito forte.

Até 1933, a Inglaterra havia perdido apenas dois jogos contra seleções de fora das Ilhas Britânicas: para a Espanha em Madri em maio de 1929 e para a França, velha freguesa, no estádio parisiense de Colombes em maio de 1931. Porém, a ascensão de outras forças da Europa continental (como as seleções do Danúbio) demonstrava que o English Team não poderia mais afirmar não ter rivais à altura. E em maio de 1934, os inventores do jogo voltariam da Hungria e da Tchecoslováquia com duas derrotas por 2 a 1 em amistosos.

Quando a Itália de Pozzo conquistou a primeira Copa do Mundo em solo europeu superando, não sem certa controvérsia, a Espanha nas quartas de final, o igualmente lendário “Wunderteam” da Áustria nas semifinais e a Tchecoslováquia (que derrotara os ingleses em Praga) na decisão, surgiu a grande oportunidade de um tira-teima: a Inglaterra, mesmo alheia ao certame mundial, ainda contava com a mais forte seleção da Europa (e do planeta)? Ou teria de ceder a coroa à Azzurra, a nova e legítima detentora do trono?

Eric Brook bate a falta que originou o segundo gol inglês

O embate ficou marcado para uma tarde de 14 de novembro de 1934 em Londres, no estádio do Arsenal, em Highbury. Além de cederem a casa, os Gunners, que haviam conquistado três das quatro últimas edições da liga inglesa e já haviam largado para um tri naquela temporada 1934/35, formavam a base da seleção, com nada menos que sete titulares. Entre eles, o zagueiro e capitão Eddie Hapgood, o atacante Cliff Bastin e dois estreantes: o também zagueiro George Male e o centroavante Edward “Ted” Drake.

Entre os atletas de outros clubes, um jovem de 19 anos que fazia apenas seu segundo jogo pela seleção despontava como craque: era o ponta-direita Stanley Matthews, do Stoke. O “Mago do Drible” estava, assim, praticamente iniciando uma trajetória no English Team que se estenderia por impressionantes 22 anos, dentro de uma não menos impressionante carreira profissional que duraria 33 anos (de 1932 a 1965), sempre em alto nível – foi ele, por exemplo, o primeiro a levar a Bola de Ouro da France Football, em 1956.

A Itália, por sua vez, levou a Londres quase a mesma escalação titular da conquista da Copa do Mundo. As únicas modificações eram a entrada do goleiro Carlo Ceresoli (que ficara ausente da convocação do Mundial por lesão) no posto de Gianpiero Combi (que se aposentara da Azzurra após o título) e a do meia-direita Pietro Serantoni no lugar do centroavante Angelo Schiavio, o que levou Vittorio Pozzo a remanejar o craque e goleador Giuseppe Meazza para o centro de seu excelente quinteto ofensivo.

Outra figura essencial na equipe de Pozzo era o centromédio Luis Monti, um dos cinco jogadores da Juventus na escalação e um dos três ítalo-argentinos daquela Azzurra, junto com os ponteiros Enrique Guaita e Raimundo Orsi (que no fim da carreira teria passagem curta pelo Flamengo). No chamado “método” do treinador italiano, Luisito tinha a dupla função de perseguir – duramente, se fosse preciso – o centroavante adversário e, com a bola, distribuir o jogo no meio-campo como um pivô e iniciar as ações ofensivas.

Havia também naquele confronto, como houve durante toda a Copa do Mundo, o pano de fundo politicamente nebuloso vivido pela Europa naquele começo dos anos 1930. A ascensão dos ideais fascistas no regime de Benito Mussolini na Itália começava a causar incômodo na opinião pública britânica – no fim do ano seguinte, a assinatura de um pacto reconhecendo a conquista italiana da Abissínia (atual Etiópia) levaria à demissão do Secretário de Estado Samuel Hoare, após forte rejeição e pressão sobre o Governo.

Jogadores ingleses recebem atendimento após o jogo

Nesse cenário, a imprensa britânica não se eximiu de pintar o duelo com tintas políticas: para ela, a seleção inglesa era a “Armada de (Ted) Drake” a qual iria “à guerra contra a Itália de Mussolini”.  E a Azzurra – como a Copa do Mundo havia demonstrado – não era absolutamente uma equipe que desprezava um embate físico, muito pelo contrário. Além da ideia do tira-teima futebolístico, a partida acabaria vendida dentro desse contexto bélico. E quando a bola começou a rolar em Highbury, o confronto não fugiu muito disso.

Na verdade, ele se tornaria uma carnificina desde o primeiro minuto quando, numa dividida com Drake, Luisito Monti fraturou o pé. O centromédio ainda permaneceu por mais cinco minutos fazendo número em campo, antes de deixar o jogo definitivamente. Acreditando que a lesão fora provocada de forma deliberada pelo atacante inglês, os italianos passaram todo o primeiro tempo “chutando qualquer coisa que se movesse”, nas palavras de Stanley Matthews. E a primeira vítima pelo lado inglês foi o zagueiro Eddie Hapgood.

Atingido por uma cotovelada de outro ítalo-argentino, Enrique Guaita, o capitão do English Team sofreu fratura do nariz, permanecendo vários minutos de fora sendo atendido. Naquela altura, a Inglaterra já havia perdido um pênalti no primeiro minuto, quando o goleiro italiano Carlo Ceresoli derrubou Drake na área, mas se redimiu pegando a cobrança de Eric Brook sob aplausos do público de Highbury. Os donos da casa, porém, logo deslancharam e abriram frente, balançando as redes três vezes quase em sequência.

O mesmo Brook, ponta-esquerda do Manchester City, foi o responsável por abrir a contagem ao escorar de cabeça uma cobrança de falta do médio Cliff Britton aos nove minutos. Também seria Brook o autor do segundo tento inglês, num chutaço de pé esquerdo em cobrança de falta aos 12 minutos. Já o terceiro sairia aos 14, enquanto o capitão Hapgood estava fora de campo sendo atendido pela pancada de Guaita: a defesa italiana deteve o belo voleio de Cliff Bastin, mas Drake conferiu no rebote e ampliou o placar.

Com a boa vantagem assegurada, os ingleses diminuíram o ritmo. Enquanto isso, com seus atletas acalmados por Vittorio Pozzo no intervalo, a Itália começaria a entrar no jogo no segundo tempo e logo iniciaria a reação no placar. Aos 14 minutos, Ferraris lançou Guaita, que abriu na esquerda com Orsi. O ponta levantou a bola para a área e Meazza tocou para as redes. E dois minutos depois ele marcaria de novo, escorando de cabeça a cobrança de falta de Ferraris. O 3 a 2 anima os italianos, que se lançaram ao ataque.

Sob chuva forte, a Azzurra ainda quase conseguiu o empate quando uma finalização de Meazza tocou o travessão. A exemplo do que Ceresoli havia feito pelos italianos na etapa inicial, quando impediu os ingleses de dispararem uma goleada, Frank Moss teve seu momento de brilho no gol do English Team no segundo tempo, evitando em algumas situações o empate da Itália. Apesar da vitória inglesa, todas as circunstâncias nas quais a partida se desenrolou tornaram o resultado daquele tira-teima inconclusivo.

Após o jogo, Pozzo atribuiu a derrota à lesão de Monti. “Por poucos minutos após ter se lesionado ele ficou em campo tentando jogar, primeiro como médio-direito e depois como ponta-direita. O resto do time não sabia que ele estava lesionado, e nesse interim dois dos três gols ingleses foram anotados. Os outros jogadores deixaram as coisas para Monti e ele, é claro, estava impossibilitado de cumprir seu papel”, alegou o treinador italiano, que sofreu sua primeira derrota com a Azzurra após a conquista da Jules Rimet.

Se a Itália lamentou a lesão de seu centromédio, o time da Inglaterra deixou o campo parecendo uma enfermaria, com uma extensa lista de danos. Além do nariz fraturado do capitão Hapgood, o ponteiro Eric Brook, autor dos dois primeiros gols, saiu com o braço quebrado. Já George Male, colega de Hapgood na zaga, quebrou a mão, enquanto Ray Bowden terminou com uma lesão no tornozelo, Ted Drake com um corte na perna e Jack Barker com a mão enfaixada. E o jogo entraria para a história como a “Batalha de Highbury”.

O novo empate às portas da Guerra e o baile inglês em Turim

O confronto seguinte entre as duas seleções ocorreria pouco antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial. Em 13 de maio de 1939, Itália e Inglaterra empataram em 2 a 2 no San Siro. A Azzurra, que no ano anterior havia levantado novamente a Copa do Mundo na França, mantinha só dois jogadores do duelo de quase cinco anos antes: Meazza e Serantoni, enquanto os ingleses conservavam a dupla de zaga Male e Hapgood e o ponta Stanley Matthews, mas traziam outros nomes que se tornariam notórios.

Dois deles se tornariam treinadores lendários no futebol local: os médios Stan Cullis e Joe Mercer, que se consagrariam comandando esquadrões vitoriosos do Wolverhampton e do Manchester City, respectivamente. Mercer ainda teria uma passagem como interino pelo comando da seleção em 1974. Outro nome digno de nota na escalação inglesa naquela partida era o jovem atacante Tommy Lawton, do Everton, que marcara 62 gols somados pela liga nas temporadas 1937/38 e 1938/39, levando o título inglês na segunda.

E o próprio Lawton, de apenas 19 anos na época, abriria o placar no jogo do San Siro, no primeiro tempo. Na etapa final, a Itália chegou a passar à frente com gols de Amedeo Biavati e Silvio Piola, mas a 13 minutos do fim os britânicos novamente empataram com gol de Willie Hall, meia-direita do Tottenham. Em setembro estouraria o conflito mundial que colocaria as duas nações lutando em campos opostos e virtualmente congelaria os confrontos de seleções no futebol europeu por mais da metade da década seguinte.

No período imediato após a Segunda Guerra, o futebol italiano assistiu ao surgimento de uma nova potência em Turim capaz de dominar o cenário nacional da mesma maneira que a Juventus fizera na primeira metade da década de 1930. O Torino reuniu uma equipe fabulosa que venceu cinco scudetti seguidos (um antes da interrupção das competições oficiais no país e os outros quatro após o retorno) e formou a base da Azzurra. Curiosamente, aquele esquadrão teve entre seus técnicos um inglês, Leslie Lievesley.

E foi com o Torino como base que a seleção italiana entrou em campo para enfrentar a inglesa pela primeira vez após o conflito mundial num amistoso no estádio Comunale de Turim na tarde de domingo, 16 de maio de 1948. O veterano Vittorio Pozzo ainda seguia à frente da Nazionale, que, a exemplo da Inglaterra em 1934, alinhou sete jogadores de um mesmo clube – no caso, o Toro – entre os titulares. Dos outros quatro, os destaques eram o médio Carlo Parola, da Juventus, e o ponta Riccardo Carapellese, do Milan.

Valerio Bacigalupo salta aos pés de Tommy Lawton – Itália 0x4 Inglaterra

Com a não realização das Copas de 1942 e 1946 devido à guerra, a Itália ainda detinha os dois últimos títulos mundiais, ao passo que os ingleses seguiam alheios à grande competição, embora esse cenário estivesse perto de ser modificado. Mas era a força dessa base formada pelo Torino – do goleiro Valerio Bacigalupo, do zagueiro Aldo Ballarin e da linha atacante que incluía, entre outros, Guglielmo Gabetto e Valentino Mazzola – que faria da Nazionale séria candidata a levar a Jules Rimet pela terceira vez em 1946.

Obviamente, todo este terreno de hipóteses e prognósticos não contava com a participação dos ingleses nos dois Mundiais cancelados. Mas é importante lembrar que naquela época o English Team ainda reunia um grupo generoso de grandes jogadores. Nos primeiros anos após a Segunda Guerra, os ingleses registraram resultados expressivos contra Holanda (8 a 2), Portugal (10 a 0 em Lisboa), França (3 a 0), Bélgica (5 a 2 em Bruxelas) e Suécia (4 a 2) antes de viajarem a Turim para o esperado duelo com a Itália.

Naquele dia em Turim, a escalação inglesa começava pelo goleiro e capitão Frank Swift, um dos destaques do Manchester City. Na defesa de seu esquema WM, havia o zagueiro direito Laurie Scott, do Arsenal, e a presença impositiva do central Billy Wright, dos Wolves. Um dos médios era Neil Franklin, do Stoke – que mais tarde migraria para a liga pirata da Colômbia, perdendo com isso a chance de disputar a Copa de 1950. Mas, sem nenhuma dúvida, o ponto alto daquele time cravejado de astros era seu ataque lendário.

Dois nomes eram os únicos remanescentes do último confronto, em 1939: Stanley Matthews, 33 anos, agora jogador do Blackpool, era o ponta-direita. E o centroavante era Tommy Lawton, que após trocar o Everton pelo Chelsea em 1945 envolveu-se numa transferência ainda mais surpreendente dois anos depois, ao deixar o clube londrino para atuar na terceira divisão pelo pequeno Notts County, que desembolsou por ele o valor recorde de então no futebol britânico. E mesmo assim seguiu marcando pela seleção.

A meia-direita era ocupada por Stan Mortensen, goleador em ascensão naquele período pós-Guerra e companheiro de Matthews no Blackpool. Já na esquerda, o dono da posição era Wilf Mannion, o “Garoto de Ouro” do Middlesbrough (e hoje um dos dois únicos jogadores do clube a ganhar estátua em frente ao estádio Riverside). Por fim, o ponta-esquerda era Tom Finney, jogador que só defendeu o Preston North End por toda a carreira e completava seus vencimentos trabalhando como encanador.

Gol de Stan Mortensen – Itália 0x4 Inglaterra

Com esse quinteto em que todos os nomes integram tanto a relação das 100 lendas da Football League quanto o Hall da Fama do futebol do país, a seleção inglesa pisou o gramado do Comunale para cumprir uma das maiores atuações de sua história, ainda que o calor daquela tarde de quase verão, o público estimado em mais de 80 mil torcedores e sobretudo um prêmio de 100 mil liras prometido antes do jogo por Vittorio Pozzo a seus atletas em caso de vitória fizessem pender o favoritismo para o lado italiano.

Só que logo aos quatro minutos os ingleses já começaram a mostrar quem daria as cartas quando Franklin acionou Matthews na direita e este fez um lançamento excelente para Mortensen, que arrancou até a linha de fundo e chutou alto, quase sem ângulo para vencer Bacigalupo e abrir a contagem. A Itália ensaiou uma reação e chegou a marcar duas vezes, mas os gols foram anulados (corretamente, segundo a imprensa italiana) por impedimento. Aos 16, Bacigalupo salvou gol certo em cabeçada de Lawton.

O segundo gol inglês veio aos 24: Laurie Scott recuperou uma bola na defesa e entregou a Billy Wright, que passou de novo a Matthews. O ponta mais uma vez encontrou Mortensen, que arrancou, livrou-se da marcação do médio Giuseppe Grezar (outro do Torino) e foi de novo à linha de fundo, de onde cruzou para trás. Lawton, desmarcado, tocou de primeira às redes. Jogando com muita velocidade e trocas frequentes de posição, o ataque inglês confundia a marcação italiana e criava chances para ampliar o placar.

A melhor chance da Itália no primeiro tempo veio aos 40 minutos, quando Swift deteve os chutes de Mazzola e de Carapellese, antes de o meia-direita Ezio Loik (outro granata) finalizar cruzado para fora. Mas na volta do intervalo a Inglaterra ampliou: Mannion escapou da marcação e desceu pela meia-direita, alçando a bola na segunda trave para a chegada de Finney, que se infiltrou com facilidade, sozinho, e só escorou o cruzamento. Com o 3 a 0 a favor dos ingleses, alguns tifosi já começavam a deixar o estádio.

Dois minutos depois de fazer o terceiro, a Inglaterra fecha o placar. Numa inversão de posições, Mortensen cai pela ponta esquerda e passa a Finney, que invade a área na diagonal e bate mais uma vez sem chances para Bacigalupo. Ao fim do jogo, uma multidão de torcedores invadiu o gramado e aplaudiu os ingleses até a entrada dos vestiários. “Os olhos dos espectadores revelam admiração e decepção”, encerra a crônica do Corriere dello Sport, que trouxe ainda declarações de pós-jogo interessantes de ambas as partes.

Os italianos lamentaram o azar em algumas finalizações, mas admitiam a superioridade técnica e tática, individual e coletiva dos ingleses, enquanto estes apontaram Parola e Ballarin como os melhores entre os adversários. Mas o goleiro Swift acrescentou em sua análise da partida uma observação sobre o estilo de jogo da Azzurra: “Os atacantes italianos correram muito em vez de fazerem a bola correr. Todas as vezes em que decidiam chutar ao gol, era tarde, porque nossa defesa já estava toda posicionada”, explicou.

Vittorio Pozzo, por sua vez, fez uma longa explanação ao jornal Nuova Stampa Sera, de Turim, na qual, além de justificar o resultado, afirmava: “A escalação que os ingleses nos mandaram desta vez é um sucesso em si mesma. É constituída por homens de alto nível tanto no ataque quanto na defesa. Homens que fizeram do ‘sistema’ uma arte”. Já o zagueiro Aldo Ballarin, falando ao Corriere dello Sport, era mais direto ao avaliar os ingleses: “Eles são dos diabos. Quem é que pode pará-los?”, perguntava-se.

Quem também fez um balanço da partida falando ao jornal romano ao fim do jogo foi Pedro Escartín, célebre jornalista e árbitro espanhol que se despediu do apito justamente ao comandar a partida daquela tarde em Turim. Em seu depoimento, ele comentou: “A equipe italiana não teve sorte, mas mesmo assim a escola de jogo inglesa ainda é claramente superior. Os anglo-saxões desenvolvem um jogo racional, onde a habilidade individual está subordinada às demandas da ação dos companheiros”.

Corriere dello Sport – Itália 0x4 Inglaterra – 1948 – detalhe

Após Superga, outra vitória inglesa

Uma coincidência triste ligaria os capitães das duas equipes. Se pela Itália Valentino Mazzola seria, junto com seus seis companheiros de Torino em campo, uma das vítimas da tragédia de Superga que dizimaria o esquadrão grená (incluindo seu técnico inglês Leslie Lievesley) em maio de 1949, o goleiro inglês Frank Swift perderia a vida em outro desastre aéreo que marcou o futebol: o de Munique em fevereiro de 1958, no qual, já retirado dos gramados, acompanhava como jornalista a delegação do Manchester United.

Ainda naquela década, as duas seleções voltariam a se encontrar em 30 de novembro de 1949, num amistoso disputado no estádio do Tottenham, em White Hart Lane, e que terminou em nova vitória inglesa, desta vez por 2 a 0. O English Team, que repetiu apenas quatro nomes da partida de Turim, trazia no lado direito de sua defesa um certo Alf Ramsey, jogador do clube da casa. Já a Azzurra, com a tragédia de Superga ainda recente, apresentava como novidade o ponta-direita Giampiero Boniperti, da Juventus.

A partida também marcou a única atuação do argentino Rinaldo Martino (ex-San Lorenzo e que defendia a Juventus e mais tarde passaria pelo São Paulo) pela seleção italiana. Mas, diante de mais de 71 mil torcedores, os ingleses dirigidos por Walter Winterbottom – um austero ex-oficial da Royal Air Force que permaneceu no comando da seleção entre 1946 e 1962 – levaram a melhor com gols de Jack Rowley, centroavante do Manchester United, e do capitão Billy Wright, um dos remanescentes da goleada de Turim. 

Foi um jogo que fechou uma espécie de ciclo. No ano seguinte, os ingleses enfim estreariam em Copas do Mundo, mas teriam a reputação abalada ao perderem para Estados Unidos e Espanha e caírem ainda na primeira fase, o que evidenciava o ocaso do English Team como uma potência imbatível. Com algumas derrotas dolorosas no caminho, com os 6 a 3 aplicados pelos húngaros em Wembley em 1953, a seleção só voltaria ao topo do futebol mundial por um curto momento com a conquista da Copa de 1966 em casa.

A Itália também demoraria a se reconstruir. Seria eliminada na primeira fase nas Copas de 1950, 1954, 1962, 1966 (com a desastrosa derrota para a Coreia do Norte) e 1974, além de sequer ter se classificado para o Mundial de 1958. Houve um breve renascimento com a conquista da Euro de 1968, também em casa, prenunciando o vice-campeonato na Copa do México, dali a dois anos. Mas a Azzurra levaria longos 44 anos para reconquistar o título mundial. E o tri viraria tetra 24 anos depois, na Copa de 2006.

Depois de 1950, Inglaterra e Itália se enfrentariam outras 22 vezes em partidas oficiais. A primeira vitória italiana só viria em julho de 1973, no nono episódio da história do confronto, mas desde então a Azzurra triunfou numa frequência suficiente para passar à frente no retrospecto: antes da decisão deste domingo, a balança indica dez vitórias da Nazionale contra oito dos Three Lions, registrando ainda nove empates. Mas a expectativa para esta final é a de que sejam revividos os velhos épicos de outros tempos.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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