Eurocopa

Das poucas boas notícias que ficam a Portugal, Renato Sanches renova as expectativas sobre seu potencial

Depois de viver uma montanha-russa nos últimos cinco anos, Renato Sanches deixa a Euro como um dos melhores de Portugal

Portugal se despede da Euro 2020 com uma sensação amarga. A impressão era de que o elenco atual tinha mais qualidade que o time campeão europeu em 2016. A promessa, entretanto, não aconteceu. Muitos jogadores adicionados nestes cinco anos fizeram uma competição abaixo da crítica, ainda que as escolhas do técnico Fernando Santos não tenham ajudado. Cristiano Ronaldo e Pepe, mesmo sendo os “velhinhos” do grupo, acabam deixando o torneio como protagonistas. Além deles, quem merece reconhecimento pelas boas aparições é exatamente a revelação de 2016, Renato Sanches. O meio-campista não explodiu como previsto neste quinquênio, mas dá para dizer que se valorizou na Eurocopa, mesmo com a queda nas oitavas diante da Bélgica.

Mesmo campeã, a equipe de Portugal esteve longe de encantar em 2016. As circunstâncias favoreceram os lusitanos, que fizeram apenas uma partida realmente boa, contra Gales na semifinal. Ainda assim, alguns jogadores tiveram grande responsabilidade para superar os limites com aquela esquadra portuguesa. Renato Sanches foi uma grata surpresa. O meio-campista do Benfica chegou ao torneio para ganhar experiência e resolveu partidas, em especial as quartas de final contra a Polônia. Foi, sem muitas dúvidas, a grande revelação da competição e apresentava um futebol impressionante o suficiente para virar alvo dos principais clubes da Europa.

Os últimos cinco anos de Renato Sanches foram de altos e baixos. O meio-campista não se firmou no Bayern de Munique e indicou que não estava pronto para atuar num nível mais alto de exigência ao longo da temporada. Não faria muito também em seu empréstimo ao Swansea. O caminho seria reconstruir seu nome longe da Allianz Arena, vendido por quase metade do preço ao Lille. O garoto se favoreceu na Ligue 1 e recuperou seu espaço. E mesmo sem ser titular absoluto nos Dogues, também por conta das lesões, teria sua importância na conquista do título desta temporada. Aos 23 anos, talvez não seja um atleta de primeira prateleira, mas já deixou claro como o potencial permanece ali.

Por conta dos problemas físicos e da falta de sequência, Renato Sanches deixou as convocações da seleção. Não disputou a Copa do Mundo de 2018 e até passou um tempo com o time sub-21. Também se ausentaria do Final Four da Liga das Nações faturado por Portugal em 2019. A reconstrução de seu nome no Lille, ao menos, reabriu as portas na equipe nacional em 2020. Mais do que um talismã, seria convocado à Eurocopa por seu bom futebol. E provaria como sua presença era importante no grupo.

Fernando Santos tantas vezes foi criticado por seu conservadorismo nas escalações de Portugal, e a eliminação é reflexo disso. Renato Sanches representou uma quebra nisso e evitou que a campanha dos lusitanos fosse ainda mais decepcionante. O meio-campista já tinha ajudado a mudar o jogo contra a Hungria, saindo bem do banco de reservas para que a Seleção das Quinas vencesse no fim – a jogada para o gol de pênalti foi sua. Depois, se não evitou a sangria contra a Alemanha, acertou uma bola na trave que quase recolocou sua equipe no jogo. Até, merecidamente, ser titular diante da França. Deu muito mais agressividade à meia-cancha e seria um dos melhores em campo no empate que selou a classificação.

Neste domingo, não tinha como pensar a escalação de Portugal sem contar com Renato Sanches em campo. De novo ele serviria como um motor da equipe, ainda que a partida contra a Bélgica tenha deixado a desejar em termos gerais. Oferecia mais profundidade e era quem mais auxiliava na ligação com o ataque. Onipresente na faixa central, o jovem passou com precisão e criou algumas oportunidades. Conduziu em busca dos dribles e acelerou nas arrancadas, além de tentar alguns chutes sem tanta direção. Também foi destaque nos combates. Num time que precisava de mais criatividade e aproximação, Renato pelo menos não deixou de se apresentar e de fazer a sua parte.

Até por isso, dentre as escolhas de Fernando Santos, a decisão de tirar Renato Sanches e colocar Sérgio Oliveira é mais uma questionável. O portista vem de boa temporada com o clube e brilhou na Champions. Ainda assim, Renato estava entre os melhores da equipe contra a Bélgica. O treinador poderia ter sido mais ousado sacando João Palhinha, mas este saiu para Danilo Pereira não oferecer muito mais na cabeça de área. O empate poderia ter saído, mas por correria e não por qualidade. A impressão é de que, mesmo desgastado pelo que ofereceu ao longo da noite, o jovem poderia garantir mais agressividade.

Muitos jogadores que chegaram à Euro 2020 como candidatos a destaque não renderam bem. Bruno Fernandes, Bernardo Silva e Diogo Jota, em especial, não foram os talentos que se mostram em seus clubes – em menor grau, João Félix também, mesmo com menos tempo em campo. Renato Sanches, pelo contrário, entregou mais que o pedido a ele. Era um coadjuvante no grupo, deu um acerto melhor ao time e apresentou um nível de intensidade poucas vezes visto entre seus companheiros. Cristiano Ronaldo sai mesmo como o principal nome do time nesta Eurocopa, por seus gols e seus recordes. Ainda assim, Renato renova um pouco as avaliações sobre seu potencial e, quem sabe, pode continuar crescendo para que realmente firme sua carreira além dessas ocasiões pontuais pela seleção.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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