Eurocopa

Dani Olmo transformou seu encontro especial com a Croácia numa atuação decisiva à emocionante vitória da Espanha

Depois de trocar o Barcelona pelo Dinamo Zagreb aos 16 anos, Olmo brilhou contra o país que também chama de casa

Dani Olmo tomou uma decisão pouco usual para desenvolver sua carreira, quando tinha 16 anos e ainda estava nas categorias de base. O ponta deixou a badalada cantera do Barcelona para se juntar ao Dinamo Zagreb, um clube de fama reconhecida na formação de talentos, mas numa realidade totalmente distinta de La Liga. A aposta, que poderia parecer uma loucura, se pagou cedo. Olmo estourou na Croácia, brilhou na seleção sub-21 da Espanha e ganhou a primeira convocação à equipe principal quando ainda estava no Estádio Maksimir. Até por isso, seu papel de herói nas oitavas de final da Euro 2020 se torna ainda mais anedótico: no reencontro com vários ex-companheiros de Dinamo, o jovem despachou os croatas da competição continental. Deu as duas assistências que valeram o emocionante triunfo espanhol por 5 a 3, já na prorrogação.

Nascido na Catalunha, Dani Olmo começou a ser aprimorado em casa. Seu pai, Miquel Olmo, foi técnico de equipes menores da Espanha e seria fundamental para ensinar detalhes táticos ao garoto desde cedo. Contribuiu para que o ponta soubesse ler os espaços em campo e tomar as melhores decisões, da mesma maneira como deu outras lições sobre gestos técnicos e a maneira de posicionar seu corpo. Não à toa, Dani Olmo parecia pronto mais cedo que os demais para dar seus saltos na carreira.

Os primórdios de Dani Olmo ocorreram nas categorias de base do Espanyol e ele chegaria ao Barcelona com nove anos, em 2007. Naquele momento, o ponta cumpria o sonho de qualquer garoto da região, ao se juntar à incensada fábrica de talentos em La Masía. A transição no Barça, todavia, nem sempre costuma ser um processo simples. Num clube cheio de medalhões, muitas promessas acabam queimadas nas primeiras oportunidades como profissionais. Tal entrave ficaria mais claro na última década de poucas revelações blaugranas. Por isso mesmo, com os conselhos de seu pai, Olmo não tomaria a decisão mais óbvia quando o Dinamo Zagreb bateu em sua porta oferecendo um contrato.

O Dinamo apresentou um projeto para Dani Olmo. Ofereceria uma das melhores estruturas de base na Europa, aceleraria o espaço do garoto como profissional e daria visibilidade para que ele se tornasse a transferência mais cara da história do clube. O espanhol precisaria largar seu sonho no Barcelona, mas passaria a apostar mais em seu próprio potencial. Se o início ocorreria numa liga de menor projeção, as condições pareciam favoráveis para que Olmo estourasse logo cedo. Foi o que de fato aconteceu. Já na temporada 2014/15 ele faria suas primeiras aparições no Campeonato Croata, enquanto conciliava seu amadurecimento no segundo quadro.

Não foi apenas pela escolha ou pelo futebol que Dani Olmo se mostrou um jogador diferenciado. O garoto também foge do comum por suas ideias, como deixaria claro em entrevista ao jornal El País: “Em campo, gosto de pensar. Não quero correr por correr. Antes, eu olho onde há espaços livres, como se mexer e tentar ocupar essa zona em que acredito que a bola pode passar. Mais ainda quando jogo entre as linhas, ou de falso 9 ou de meia-atacante. Quando recebo, tento pensar rápido para passar por quem veio me marcar ou assistir o companheiro”. Tal inteligência, é claro, também se apresenta no gramado.

Dani Olmo é um jogador muito técnico, mas que sabe atuar em diferentes posições e usar sua qualidade em prol da equipe. Sua afirmação na equipe principal do Dinamo Zagreb aconteceu a partir de 2016/17, não demorando a se tornar um protagonista do clube em sua sequência de títulos na liga nacional. O adolescente já empilhava gols no Campeonato Croata e também aproveitava as participações dos azuis nas competições europeias. Sua qualidade era tanta que não passava despercebida nas seleções de base, com as convocações frequentes em especial para o time sub-21.

O ano de 2019 marcou a explosão de Dani Olmo. Primeiro, no Campeonato Europeu Sub-21. Mesmo dois anos mais jovem que o limite de idade na competição, o garoto foi um dos melhores do torneio e liderou a campanha do título espanhol. Jogando como meia direita, Olmo somou três gols e uma assistência na competição, inclusive balançando as redes na vitória sobre a Alemanha na decisão. Acabaria escolhido para a seleção do torneio, ao lado de Fabián Ruiz, que logo o acompanharia na equipe principal da Roja.

Antes de ganhar a primeira convocação, Dani Olmo ainda daria outra prova irrefutável de seu talento na Champions League de 2019/20. Seu desempenho na fase de grupos foi espetacular, ajudando o Dinamo Zagreb a ser competitivo contra equipes mais badaladas. Parecia óbvio que o jovem de 21 anos estava pronto para defender o nível adulto da Espanha. Robert Moreno seria o responsável por chamá-lo pela primeira vez em novembro de 2019. E o prodígio logo correspondeu, ao marcar seu primeiro gol já na estreia, uma goleada por 7 a 0 sobre Malta.

Em janeiro de 2020, Dani Olmo se transferiu para o RB Leipzig. Contratado por €22 milhões, parecia um baita negócio dos Touros Vermelhos, até considerando o interesse de equipes como Barcelona e Milan em seu futebol. A adaptação não seria imediata, com o meia frequentando a reserva do time de Julian Nagelsmann no seu primeiro semestre. Ainda assim, ele acabaria brilhando na caminhada até as semifinais da Champions League, com o primeiro gol na vitória por 2 a 1 sobre o Atlético de Madrid nas quartas. Já na atual temporada, o desempenho de Olmo melhorou. Ganhou a posição e teve muita influência principalmente na criação dos Touros Vermelhos, jogando principalmente como meia central no sistema de Nagelsmann.

A volta de Luis Enrique na seleção da Espanha não custou o espaço de Olmo. Pelo contrário, o atacante se tornou uma peça muito útil com o treinador, por sua versatilidade. O jovem pode não ter sido titular em todos os jogos, mas esteve em todas as convocações. Foi meia central, ponta pelos dois lados e até mesmo falso nove. Durante a Data Fifa de março, Olmo faria a diferença para evitar que os resultados pouco animadores da Roja nas Eliminatórias da Copa fossem ainda piores. Ali carimbou de vez sua participação na Eurocopa.

Dani Olmo decepcionou nas primeiras duas partidas da Espanha na Euro 2020. Foi titular na ponta esquerda em ambos os jogos, mas sem mudar as perspectivas de uma equipe que decepcionava. O jovem seria um dos responsáveis pelas tantas chances perdidas contra a Suécia e faria uma atuação tímida também contra a Polônia. Assim, compreensivelmente acabou sacado e o bom rendimento de Pablo Sarabia contra a Eslováquia justificou sua ausência no 11 inicial depois disso. No entanto, diante dos croatas, o camisa 19 viraria um trunfo nas mãos de Luis Enrique.

“Estou feliz, muito feliz! Como poderia não estar? A gente se classificou e vamos jogar contra a Croácia! Para mim, é um jogo muito especial, algo que ficará para o resto da vida”, declararia Olmo, às vésperas do embate, confessando que até torceu por um gol da Suécia para que a Espanha ficasse em segundo e jogasse contra a Croácia. “Acho que recebi mais de 100 mensagens da Croácia. Alguns escreveram que me amavam, mas iam me mandar para casa. Outros diziam que não sabiam torcer contra mim. Meu celular está queimando com as mensagens croatas, é maravilhoso que eu siga tratado com esse carinho e os torcedores do Dinamo ainda pensem assim”.

“Tenho muitos amigos na seleção da Croácia, por isso esse sentimento é tão especial e difícil de descrever. Claro, sou muito amigo de todos os jogadores do Dinamo que jogam pela Croácia, mas também conheço os demais. Quando a seleção treinava no Maksimir, eu costumava aparecer e assim fiz amizade com todo mundo. Não quero perder esse momento. Sabia que um dia, como jogador da Espanha, enfrentaria a Croácia”, complementaria. E, de fato, o jovem deixaria tudo ainda mais especial em campo.

Dani Olmo virou solução para o segundo tempo contra a Croácia. Entrou no lugar de Pablo Sarabia, pouco antes do terceiro gol. Porém, se o substituto pouco faria na segunda etapa diante da reação croata, ele seria o grande nome da Espanha na prorrogação. As trocas de posição entre Olmo e Mikel Oyarzabal ajudaram a desnortear a marcação adversária. Seria principalmente pela direita que o camisa 19 desequilibrou. Executou dois cruzamentos cirúrgicos para que Álvaro Morata e o próprio Oyarzabal balançassem as redes.

Uma pena que o próprio tento de Dani Olmo não tenha saído contra a Croácia, com uma bola na trave já nos instantes finais. O chute colocado saiu de sua canhota no capricho, mas esbarraria no poste. Não faria tanta falta assim, considerando a forma como contribuiu ao time. A importância do jogador de 23 anos estava expressa, afinal: criou, driblou, arrematou, partiu para cima. Deu um respiro enorme aos espanhóis, num momento em que pareciam faltar pernas ao time e uma tragédia se esboçava. Foi a energia e também a inteligência necessárias a um resultado que fica marcado por seu caráter épico.

A Espanha não é uma equipe de craques, mas possui um dos elencos mais homogêneos da Eurocopa. Isso permite que Luis Enrique realize suas alterações sem perder tanto o nível. Durante as primeiras partidas, Olmo não pareceu necessariamente preparado ao desafio da Euro. Em compensação, nesta segunda mostrou como pode fazer a diferença a partir do banco de reservas. Ter um atleta com seu nível de entendimento do jogo e com sua qualidade técnica salvou a Roja. Melhor ainda quando isso tudo ocorreu contra a Croácia, um país que o acolheu tão bem e desenvolveu seu futebol, mas não tinha antídoto à habilidade do ponta.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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