Eurocopa

Coadjuvante de Portugal há anos, Rafa Silva ajudou a transformar um jogo difícil em vitória confortável contra a Hungria

Meia do Benfica não é o mais cotado no elenco de Fernando Santos, mas participou dos três gols em Budapeste

Portugal demorou a engrenar em sua estreia na Euro 2020. A vitória sobre a Hungria, apesar do confortável 3 a 0, só foi construída depois dos 39 do segundo tempo. E se o conservadorismo do técnico Fernando Santos parecia conter os lusitanos, as alterações incendiaram o time. A chave maior aconteceu na reconstrução do meio-campo, com Renato Sanches dando mais mobilidade por ali e Bruno Fernandes recuando para armar o time. No entanto, a entrada de Rafa Silva foi a mais bem-vinda entre os portugueses. Longe de ser o nome mais badalado deste elenco, o meia aproveitou muito bem os espaços e participou diretamente dos três gols. Sai com moral por sua contribuição no resultado, mesmo eclipsado por Cristiano Ronaldo – algo mais que natural.

Aos 28 anos, Rafa Silva possui uma trajetória longa com a seleção portuguesa. Você pode não se lembrar, mas o meia seria uma das surpresas na convocação de Paulo Bento para a Copa do Mundo de 2014. Desde então, virou um nome constante também nas listas de Fernando Santos. O jogador participou do elenco que conquistou a Euro 2016 e também a Liga das Nações em 2019. Porém, suas aparições são relativamente raras. Nestes sete anos de Seleção das Quinas, Rafa disputou 22 partidas, apenas sete como titular. Mal passou de 700 minutos  em campo nesse tempo todo de experiência.

Na Copa de 2014, Rafa Silva não saiu do banco de reservas. Na Euro 2016, jogou apenas um minuto no empate contra a Áustria na fase de grupos. E, fora da Copa do Mundo de 2018, ao menos pôde atuar na decisão da Liga das Nações em 2019. Esteve em campo durante os 15 minutos finais na vitória por 1 a 0 sobre Holanda / Países Baixos, que selou o inédito título aos lusitanos.

A confiança sobre Rafa Silva se dá mais ao que conseguiu oferecer aos seus clubes. Lançado profissionalmente pelo Feirense, o meia estourou mesmo com a camisa do Braga. Foi por lá que despontou à seleção principal e se manteve no radar para a Euro 2016. A cara transferência para o Benfica (ao custo de €16 milhões, no negócio mais alto feito internamente no Campeonato Português até então) não deu frutos de imediato, o que afastou o jogador do Mundial da Rússia. Entretanto, nas últimas temporadas, Fernando Santos não pôde ignorar o momento de Rafa com os encarnados.

A temporada de 2018/19 foi com sobras a melhor de sua carreira. Jogando mais pela esquerda, Rafa Silva anotou 17 gols pelo Benfica na liga nacional e seria um dos principais responsáveis pela conquista do Campeonato Português. Durante os dois últimos anos, o meia passou a ser aproveitado pela direita e oscilou mais, mas ainda assim conseguiu preservar seu lugar na equipe nacional. Oferece um estilo de jogo particular e uma habilidade na ponta que serve de trunfo.

Quando Rafa Silva entrou no lugar de Bernardo Silva nesta terça, serviria exatamente para dar mais escape pela linha de fundo e auxiliar Nelson Semedo no setor direito. De começo, o ponta ainda se viu travado pela forte marcação da Hungria. Mas, a partir da segunda rodada de alterações, o corredor se abriu. Bruno Fernandes e Renato Sanches deram mais criatividade à faixa central. André Silva aumentava a preocupação entre os magiares por sua presença de área. E a avenida aberta na direita foi exatamente onde Rafa deitou e rolou.

O primeiro gol tem muitos méritos de Bruno Fernandes, com uma excelente enfiada. Rafa Silva se desmarcou e achou o passe para Raphaël Guerreiro marcar com seu chute desviado. Logo depois, seria a vez de Renato Sanches iniciar a jogada ao ganhar a bola no meio e acionar Rafa, que invadiu a área e esperou o pênalti cometido por Willi Orbán. Por fim, o ponta seria ajudante no tento mais bonito da tarde, ao se entender perfeitamente com Cristiano Ronaldo e servir o craque na tabelinha. Sua influência no resultado é inquestionável.

Olhando para o banco de reservas de Portugal, outros jogadores poderiam parecer à frente de Rafa Silva para entrar naquele momento. João Félix carrega mais expectativas ao seu redor, enquanto Pedro Gonçalves vem de um ano estupendo com o Sporting. Nenhum dos dois, porém, garantiria as virtudes de Rafa àquilo que o treinador pretendia. No fim das contas, a aposta deu certo e valeu três pontos essenciais num grupo tão cascudo a Portugal. Os sete anos de coadjuvantismo de Rafa Silva na equipe nacional estão pagos. E é de se esperar que o impacto desta terça garanta mais minutos ao ponta na sequência desta Euro.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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