Eurocopa

Bélgica/Holanda 2000: Sorte de campeã

No primeiro torneio sediado por dois países na história do futebol internacional, o grupo A mostraria o quanto a geração de ouro portuguesa, Figo e Rui Costa à frente (mas sem deixar de mencionar João Pinto, Sérgio Conceição, Nuno Gomes, Pauleta, Fernando Couto e Abel Xavier), estava na ponta dos cascos. A estréia, contra a Inglaterra, foi uma mostra disso: mesmo com os britânicos – esta mesclando veteranos como Tony Adams, Paul Ince e Alan Shearer com a já estabelecida geração de Scholes e, claro, Beckham, sem contar a força jovem de Owen e Gerrard – abrindo 2 a 0 aos 18 do primeiro tempo, os Tugas de Humberto Coelho tiveram força e calma suficiente para virar o jogo. Vale destacar, no 3 a 2 de Eindhoven, o primeiro gol luso, um tirambaço de Figo que atingiu a microcâmera postada no ângulo do gol de Seaman.

Os outros dois jogos portugueses não ficaram atrás: uma vitória sofrida contra os romenos – só aos 49 do 2º viria o triunfo, a bordo de um cabeceio de Costinha – deu a classificação para as quartas-de-final e permitiu que Coelho se desse ao luxo de colocar um time reserva, que venceu uma Alemanha campeã, mas decadente. Ao apelar para a geração de Hässler e Kirsten (ambos com 34 anos) e Matthäus (39 anos), o técnico Erich Ribbeck não conseguia desenvolver a geração de Ballack, Jancker e Deisler, terminando a Euro na lanterna do grupo, com apenas um ponto. Já os lusos, com três vitórias em três jogos, eram acrescidos à lista dos favoritos.

A definição da segunda vaga foi emocionante. Com uma derrota e a vitória contra a Alemanha (1 a 0), a Inglaterra chegava para a partida decisiva, na belga Charleroi, precisando apenas de um empate contra a Romênia, que fora derrotada pelos portugueses, após empatar com a Alemanha. A Tricolori já vivia o clima de adeus da geração de Hagi, Petrescu, Dumitrescu, Munteanu e Belodedici, todos presentes à Euro, mas já via o futuro nas figuras de Mutu, Chivu e Cosmin Contra.

Parecia que não seria suficiente: mesmo após Chivu fazer 1 a 0, Shearer e Owen viraram o jogo. No início do 2º tempo, Munteanu empatou, mas a igualdade favorecia o English Team de Kevin Keegan. Os comandados de Emerich Jenei continuaram em busca da vitória, e foram premiados deliciosamente: aos 44 minutos, Ioan Ganea converteu um pênalti cometido por Phil Neville em Moldovan. Os romenos arrancavam, no último minuto, a vitória que lhes deu a vaga. E Kevin Keegan começava a sofrer a pressão que resultaria em sua demissão, meses depois.

O grupo B também teve surpresa, todavia não no primeiro lugar: a Itália de Dino Zoff mesclava veteranos como Ferrara, Maldini e Albertini à predominância da promissora geração de Totti, Del Piero, Cannavaro, Zambrotta, Nesta e Pippo Inzaghi, mistura que também resultou em cem por cento de aproveitamento no grupo.

Surpreendente foi mesmo a segunda vaga: após vencer a estreia, no antigo Heysel de Bruxelas, renomeado Rei Balduíno, contra a Suécia – 2 a 1 -, uma das donas da casa, a Bélgica, também na base da mescla de veteranos (De Wilde, Staelens, Luc Nilis, Wilmots) à gente nova (os irmãos Mbo e Emile Mpenza) acabou relaxando. Sorte da Turquia, presente à segunda Euro seguida e já preparando o time 3º lugar na Copa de 2002, com Rüstü, os zagueiros Alpay e Fatih Akyel, os meias Umit Davala, Tugay e Hakan Unsal, além da estrela do ataque, Hakan Sükür.

Os turcos, após a derrota na estréia para a Azzurra, conseguiram arrancar um empate sem gols contra a Suécia para chegar à última partida, contra os belgas, novamente no Rei Balduíno. Outro empate favoreceria os semi-anfitriões, mas aí entrou a competência do goleador Hakan Sükür – e o azar do arqueiro Filip de Wilde.

Num desempenho magistral, Sükür fez os dois gols, com o primeiro sendo feito após uma saída de gol atabalhoada do veterano goleiro belga. Para “coroar”, De Wilde foi expulso no fim do jogo. E, em pleno Rei Balduíno, o time de Mustafá Denizli comemorou a honrosa vaga para a segunda fase, somente restando aos belgas a vergonha de ser a primeira seleção anfitriã eliminada na primeira fase de uma Euro, desde o início da fase de grupos. Junto da Bélgica, saía uma Suécia sem ponto algum, envelhecida pelas presenças de Roland Nilsson, Patrik Andersson, Björklund, Mild e Kennet Andersson, embora com Ljungberg, Mellberg e Allbäck já presentes.

No C, outras surpresas na primeira rodada: em Roterdã, os noruegueses venceram a Espanha por 1 a 0, e, em Charleroi, a Eslovênia, em sua estréia num torneio relevante após a independência, comandada em campo por Zlatko “Platini dos Bálcãs” Zahovic, chegou a abrir 3 a 0 em cima da ex-nação madre Iugoslávia. Para piorar, o experiente Mihajlovic foi expulso. Mas, comandada por Savo Milosevic, autor de dois gols, a Iugoslávia conseguiu chegar ao 3 a 3.

Doravante, as zebras sossegaram: as superiores Iugoslávia – que conseguia manter bom nível de jogo, equilibrando os veteranos Dragan Stojkovic, Predrag Mijatovic e o mencionado Mihajlovic aos jovens Milosevic e Dejan Stankovic – e Espanha – comandada por Raúl, contando com a ajuda de Mendieta no meio-campo, Etxeberria e Alfonso a lhe acompanhar no ataque e, atrás, a dupla segura Guardiola-Hierro – sobrepujaram eslovenos e noruegueses e ficaram com as duas vagas nas quartas-de-final. Inclusive, protagonizaram um dos mais empolgantes duelos da Euro, quando a Fúria conseguiu arrancar forças para virar um 3 a 1 iugoslavo em um impressionante 4 a 3 (com os dois últimos gols sendo marcados nos acréscimos: Mendieta aos 45 do 2º, de pênalti, e Alfonso aos 47), garantindo assim o primeiro lugar do grupo.

O grupo D era, a princípio, o Grupo da Morte: lá estariam França, Holanda e República Tcheca. Agora treinada por um jovem (37 anos) Frank Rijkaard, a Laranja contava com praticamente o mesmo time que fora um dos melhores na Copa de dois anos antes: lá estavam Van der Sar, os irmãos Frank e Ronald de Boer, Stam, Davids, Seedorf, Overmars, Bergkamp e Kluivert.

Falando em Copa de 1998, a campeã mundial França também trazia o perigo no fato de Roger Lemerre, que sucedera Aimé Jacquet, ter a sorte de ainda poder contar com laterais como Thuram e Lizarazu, com a dupla de zaga Desailly-Blanc (este, jogando as últimas partidas pela seleção), com Deschamps e Petit coordenando o meio-campo e, principalmente, com um Zidane ainda mais craque do que já era. Fora esses, já havia Vieira a auxiliar Deschamps no meio. E, se o ponto fraco gaulês em 1998 fora o ataque, agora havia fartura de opções: além de Henry, Trezeguet e Djorkaeff, já experientes, havia um promissor Nicolas Anelka.

A República Tcheca enriquecia o time de Nedved, Berger e Poborsky com a presença, na defesa, do lateral Repka, e, no ataque, de Smicer, Jan Koller e Lokvenc, fora a promessa Tomas Rosicky. Enfim, o time de Jozef Chovanec não daria sossego aos favoritos. Um pouco mais eclipsada, a Dinamarca, que já não tinha os irmãos Laudrup – Brian se aposentara, e Michael virara auxiliar do treinador Morten Olsen, na seleção – e vivia na Euro o adeus de Schmeichel. A alimentar as esperanças danesas, Tomasson, Sand e Jorgensen.

Porém, o grupo D transcorreu normalmente. A Dinamarca sofreu dois 3 a 0 de franceses e holandeses, ao passo que os tchecos ofereceram mais resistência (a Holanda só faria o gol da vitória aos 44 do 2º, com um penal convertido por Frank de Boer, e a França venceu por 2 a 1). Na rodada final do grupo, enquanto a Tchéquia – sim, esse nome é permitido para a República Tcheca – destroçava definitivamente a Dinamarca por 2 a 0, as classificadas do grupo definiram o 1º lugar, na Amsterdam Arena, em um dos melhores duelos da Euro, não pelos gols, mas pelo equilíbrio. A diferença foi definida no fato da Holanda ter ido a campo com o time titular – exceto pelo goleiro Westerveld, substituindo o contundido Van der Sar – e a França ter poupado os titulares. E a Laranja de Rijkaard conseguiu o 3 a 2, as três vitórias e o primeiro lugar no grupo.

As primeiras partidas das quartas-de-final não tiveram surpresas: Portugal e Itália eliminaram, respectivamente, uma valorosa, mas novata Turquia (2 a 0 para os lusos, em Amsterdã) e uma decadente Romênia (novo 2 a 0, em Bruxelas). No De Kuip de Roterdã, a Iugoslávia protagonizou outra surpresa. Desta vez, desagradável. Não é que a Holanda não fosse a favorita: jogando em casa, evidentemente o era. O pitoresco foi o extravagante 6 a 1 com que a Laranja foi às semifinais. Resultado justificado, talvez, pela exibição holandesa como um todo, que fez lembrar os tempos de Van Basten ou de Cruyff, tal a volúpia ofensiva da seleção. Ou, então, aquela que talvez foi a melhor performance da carreira de Patrick Kluivert, autor de três gols e artilheiro da Euro.

Já no Jan Breydel de Bruges, França e Espanha fizeram uma partida mais equilibrada. Os gauleses abriram o placar com uma cobrança de falta magistral de Zidane, aos 32 do 1º. Porém, cinco minutos depois, Mendieta empatou, de pênalti. Mas, ainda no primeiro tempo, Djorkaeff colocou os Bleus de novo na frente. Porém, a Espanha continuou atrás do empate. Que poderia vir aos 41 do 2º, quando Pierluigi Collina apitou pênalti de Barthez em Abelardo. Raul cobrou. Para fora. A França estava nas semifinais. Sorte de campeã?

O espírito ofensivo da Euro-2000 enterrou definitivamente o excessivo defensivismo de quatro anos antes com duas semifinais históricas. No Rei Balduíno de Bruxelas, França e Portugal começaram de modo morno, até que, aos 19 do 1º, Nuno Gomes acertou belíssimo chute no canto de Barthez. Portugal parecia levar sob controle o jogo e estar próximo da vingança da semifinal da Euro-84, mas, logo aos 6 do 2º tempo, Henry empatou, na grande área, após um cruzamento rasteiro de Anelka. Novo 1 a 1 ao fim do tempo normal, nova prorrogação, como em 1984. O tempo extra seguiu equilibrado e os pênaltis pareciam próximos mas, a três minutos do fim do segundo tempo, na grande área, Wiltord driblou Vitor Baía e chutou. Abel Xavier desviou a bola para a linha de fundo com a mão. O árbitro austríaco Günter Benko marcou o pênalti, mesmo sob reclamações dos portugueses, que alegavam que Abel desviara a bola com a coxa (reclamações tão veementes que Nuno Gomes foi expulso). Zidane cobrou no ângulo, colocada, com a costumeira maestria. 2 a 1: na morte súbita, a França chegava à sua segunda final de Euro na história. Sorte de campeã?

A outra semifinal foi ainda mais lendária. E surpreendente. Não pelo resultado, já que a Itália era rival de respeito para a motivada Holanda. Mas pelas circunstâncias, que eram desfavoráveis à Azzurra. Numa Amsterdam Arena pintada em laranja, esperava-se uma grande festa holandesa. Para começar, logo aos 34 do primeiro tempo, Zambrotta levou o segundo amarelo e deixou a Itália com dez ao ser expulso. Pouco depois, aos 38, Nesta agarrou Kluivert na área e o alemão Markus Merk marcou pênalti. Parecia iniciada a festa. Mas Toldo não deixou: Frank de Boer bateu rasteira, no canto esquerdo, e o goleiro italiano defendeu a cobrança.

Os holandeses se abateram, mas prosseguiram atacando. Já no segundo tempo, a insistência dos donos da casa foi premiada com mais um penal, aos 17, cometido por Iuliano ao derrubar Davids. Desta vez, Kluivert conseguiu deslocar Toldo. Só esqueceu de balançar as redes: o poste direito evitou o gol holandês. Daí para frente, a Oranje desanimou um pouco, embora continuasse pressionando em busca do gol. Mesmo em desvantagem numérica, a Azzurra segurava estoicamente as ponteadas laranjas. E assim o jogo foi para a prorrogação.

Embora a pressão holandesa continuasse, Frank Rijkaard tratou de fortalecer a marcação no meio-campo, trocando Cocu por Aron Winter, que tornava-se naquela entrada em campo o jogador com mais partidas pela Oranje, superando as 83 partidas de Ruud Krol. A maior cautela evitou que a Holanda conseguisse o gol de ouro e a vaga na final, além de Marco Delvecchio ter assustado num chute aos 9 do 1º tempo extra, evitado pelos pés de Van der Sar. E assim, o que poderia ter sido um massacre terminou para ser definido nos penais.

Aí se consumou a maior tragédia da história do futebol holandês. Frank de Boer novamente teve o chute defendido por Toldo, ao passo que Stam fez ainda pior, chutando muito por cima do gol italiano. Do lado azzurro, as três primeiras cobranças convertidas (incluída aí uma cavadinha, ou melhor, um “cucchiaio” de Totti). A esperança laranja até aumentou, quando Kluivert converteu sua cobrança e Maldini chutou nas mãos de Van der Sar. Mas aí, novamente, brilhou a estrela de Toldo. O goleiro, que só virara titular italiano na Euro pelo corte de Buffon, com uma mão fraturada, defendeu sua terceira cobrança, feita por Bosvelt, deixando assim orgulhoso, no banco, um de seus predecessores, o lendário Dino Zoff. Heroicamente, a Itália estava em sua primeira final de Euro desde o título de 1968. E a Holanda caía nos penais, como na Copa de 1998 e nas últimas duas Euros.

Em Roterdã, a final entre França e Itália teve um primeiro tempo digno da qualidade do torneio, com chances italianas (destacando-se uma defesa de Barthez, num chute de Delvecchio) e francesas (uma bola aparentemente despretensiosa de Henry atingiu a trave de Toldo, que fez uma defesa em chute de Djorkaeff, à queima-roupa). Mas o gol só sairia no segundo tempo. E seria italiano: aos 10 minutos, após toque de Totti, Pessotto cruzou rasteiro para Delvecchio apenas escorar. Desde então, o futebol naturalmente ofensivo dos Bleus começou a se fazer sentir, com Zidane e Henry tomando o comando da pressão sobre a Azzurra, além das entradas de Wiltord e Trezeguet. Mas o time de Dino Zoff aguentava o abafa apostando na calma da defesa e nos contra-ataques – insistentemente desperdiçados.

Todavia, o final do jogo já se aproximava e os italianos começaram a sentir o bi europeu próximo, quando a pressão francesa foi premiada. Aos 48 minutos, Wiltord recebeu na esquerda da grande área e chutou. A bola passou pela floresta de pernas italianas. Toldo tentou desviar, até tocou na bola, mas era tarde. Na última chance da partida, a França empatava. Pela segunda vez consecutiva, a final da Euro seria definida na prorrogação.

No tempo extra, a tônica foi um entusiasmo ainda maior dos franceses em busca do gol de ouro, enquanto a Azzurra parecia acabrunhada pelo gol sofrido no último minuto. E o entusiasmo resultou na tão sonhada vitória: a dois minutos do fim do primeiro tempo, Trezeguet recebeu na entrada da área e chutou no ângulo de Toldo. A França era campeã européia. Sorte de campeã? Até pode ser. Mas foi um título merecido para um dos melhores times da história da Euro.

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