Eurocopa

Bélgica 1972: Antecipando a (falta de) surpresa

Muita gente se surpreendeu com a Holanda na Copa de 1974. E ficou mais surpresa ainda com a vitória alemã sobre a Laranja por 2 a 1 na final daquele Mundial, que deu o bi aos alemães. Se a Holanda já era a equipe revolucionária que mostraria ser, não deu para saber, já que ela não participou da fase final da Euro 72. Mas quem acompanhou o torneio – privilégio europeu, numa época em que as transmissões de rádio e tevê para outros continentes eram raras, talvez inexistentes – já conseguiu notar que o Nationalelf não era surpresa alguma na lista dos favoritos para o Mundial.

Porque ali já estava pronto, por obra e graça de Helmut Schön, aquele que é considerado por muitos o melhor time germânico de toda a história. Já estavam lá Sepp Maier, Paul Breitner, Uli Hoeness, Jürgen Grabowski, Günter Netzer (meia habilidosíssimo, fundamental na Euro, mas que acabou perdendo espaço no time que seria campeão mundial, segundo boatos, por ser desafeto do líder Beckenbauer) e, principalmente, Gerd Müller e Franz Beckenbauer.

Os alemães teriam como adversários, na fase final, uma Hungria ainda insistente em permanecer entre os grandes europeus – e com remanescentes do vice na Euro-64, como Ferenc Bene e Flórián Albert; uma Bélgica iniciando um desenvolvimento na seleção, comandada por Raymond Goethals no banco e pelo meia Paul van Himst, eleito em 2004 o Jogador Belga do Século pela federação do país, no campo; e, para variar um pouco, a União Soviética, embora já vendo o fim da geração campeã da primeira Euro e semifinalista da Copa de 1966.

Nas semifinais, poucas surpresas. Apesar de atuar em casa, os belgas não conseguiram parar Netzer e o sempre artilheiro Müller. Netzer armava as jogadas, e Müller as concluía. Ele fez os dois gols tedescos em Antuérpia. Os vermelhos batalharam, mas Van Himst não conseguiu eclipsar a principal ausência belga na Euro: o meia Wilfried van Moer, com a perna fraturada. Odilon Polleunis diminuiu para 2 a 1, mas a Alemanha chegava tranquila para a final.

Já na semi disputada em Bruxelas, no Estádio Constant Vanden Stock, húngaros e soviéticos fizeram uma partida de baixíssimo nível, com o gol da classificação russa saindo por acaso: no início do segundo tempo, Anatoli Konkov aproveitou o rebote de um escanteio e chutou. A bola desviou e matou o goleiro István Géczi. Os magiares ainda tiveram chance de empatar a cinco minutos do fim, mas o goleiro Evgeni Rudakov defendeu um pênalti, cobrado por Sándor Zämbó.

Na decisão do terceiro lugar, os belgas ainda conseguiram dar alento à sua torcida. Raoul Lambert abriu o placar, aos 24 do 1º, e Van Himst, quatro minutos depois, ampliou o marcador e fez o trigésimo gol que o tornou maior artilheiro da seleção belga. Lajos Kü ainda diminuiu no segundo tempo, mas a Bélgica ficou com o menor lugar do pódio.

Na final, disputada em Bruxelas – desta vez, em Heysel -, como que enterrando definitivamente a velha geração soviética e marcando a mudança de ordem no futebol europeu, a Alemanha foi soberana frente à URSS. Parecia jogar em casa, não só pelo futebol de alta qualidade, mas por três quartos do estádio estarem com as bandeiras tricolores do preto, vermelho e amarelo. O domínio foi tanto que, a certa altura, os alemães trocaram trinta passes consecutivos sem que os russos oferecessem resistência. Beckenbauer mostrou porque já era o protótipo do líbero: imperturbável na defesa, útil na armação, auxiliando Netzer.

Nesse cenário, até que o primeiro gol demorou: Gerd Müller, aos 27 do 1º. No segundo tempo, Herbert Wimmer ampliou e Gerd Müller marcou mais um – artilheiro da Euro, com quatro gols – e concluiu o show alemão, no que foi o primeiro título germânico. Poderia até não ser surpresa se a Holanda tivesse vencido o Mundial dois anos depois. Mas, que não foi surpresa a Alemanha levar também a Copa, não foi.

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