Eurocopa

Áustria/Suíça 2008: E era só o começo…

Novamente, dois países sediariam uma Eurocopa. No entanto, as seleções deles estavam distantes de seus melhores momentos. No grupo A, a Suíça pouco evoluíra em relação à equipe da Copa de 2006: embora não exatamente envelhecida, não vivia boa fase, e tinha possíveis revelações apenas em Gelson Fernandes e Gökhan Inler. Pior: enfrentaria a República Tcheca, que ainda possuía parte da base que fizera fama na década, como Cech, Grygera, Ujfalusi, Rozehnal, Jankulovski e Koller. Mais ainda, teria pela frente Portugal, ainda se aproveitando da motivação que Luiz Felipe Scolari incutia como poucos num elenco que não tinha mais Figo, mas contava com Deco, Petit, Nani, o ainda promissor João Moutinho… a comandar todos, Cristiano Ronaldo, então na ponta dos cascos.

Poucos prestaram atenção na Turquia. Justificável: de volta a uma grande competição, após a Copa de 2002, o time de Fatih Terim tinha até veteranos, como Rustu e Emre Belozoglu, mas contava principalmente com atletas que não eram conhecidos, até poucos anos antes: Hamit Altintop, Arda Turan, Colin Kazim-Richards, Semih Senturk, Nihat Kahveci… parecia uma equipe razoável, mas verde demais para enfrentar uma Eurocopa. E a primeira rodada aparentou comprovar tudo isso: os tchecos fizeram 1 a 0 na Suíça, na Basileia, e Portugal passou pelos turcos sem dificuldade (2 a 0), em Genebra.

No entanto, as coisas começaram a mudar na rodada posterior: com Deco e Cristiano Ronaldo como destaques, em Genebra, os Tugas despacharam a República Tcheca (3 a 1), enquanto a Basileia testemunhou a Turquia sacramentar a eliminação da Suíça (2 a 1). Mas a última rodada já daria mostras da emoção que aquela Euro teria: o St. Jakob-Park, da Basileia, viu uma partida empolgante. Turcos e tchecos disputavam a segunda vaga às quartas de final. Com 2 a 0 no placar (Koller e Plasil), o time de Karel Bruckner parecia destinado a eliminar os adversários.

Só que o time “verde” se revelou maduro para empreender uma virada histórica, nos últimos quinze minutos finais de jogo. Arda Turan fez o primeiro, aos 30 minutos da etapa final. E Nihat Kahveci foi o herói. Aos 42, empatou, aproveitando falha de Cech num cruzamento. E, aos 44 do 2º, o atacante virou o jogo e deu a classificação à Turquia. Ainda houve tempo para a expulsão do goleiro Volkan, nos acréscimos. Com as três alterações já feitas, o atacante Tuncay Sanli teve de ir para o gol. E, enfim, a Turquia assegurou a vaga, de modo eletrizante. No outro jogo, a Suíça se despediu da torcida fazendo 2 a 0 sobre os já classificados portugueses.

No grupo B, o outro anfitrião da Euro trazia ainda mais desconfiança sobre si. Alguns torcedores, mais apocalípticos, defenderam que a Áustria sequer deveria participar da primeira Eurocopa de sua história. Os destaques do time treinado por Josef Hickersberger eram poucos: o goleiro Alex Manninger e o meia Andreas Ivanschitz. E um dos adversários do grupo seria a Alemanha. Considerado favorito ao título após a boa Copa que fizera em 2006, o Nationalelf era constituído pela base de dois anos antes: Lehmann, Lahm, Schweinsteiger, Ballack, Klose, Podolski… como outros integrantes do grupo, a Croácia, que contava com uma equipe elogiada pela experiência (Simunic, os irmãos Robert e Niko Kovac, Srna, Olic), mas que tinha mais esperança em Luka Modric. E a Polônia, que era vista com ainda mais desconfiança do que os anfitriões austríacos.

Na estreia, em Klagenfurt, a Alemanha fez 2 a 0 na Polônia, com Podolski fazendo os dois. Em Viena, a Áustria até teve desempenho honroso, mas um pênalti convertido por Modric, logo no início do jogo, resolveu o jogo a favor da Croácia. Que protagonizaria, na segunda rodada, a grande surpresa: com nova ótima atuação de Modric, gols de Srna e Olic, venceu categoricamente a Alemanha, fazendo 2 a 1 e garantindo a ida às quartas de final.

Áustria e Polônia morriam juntas, com o 1 a 1 em Viena, que entrou para a história apenas por ver o mais velho jogador a marcar numa Eurocopa: Ivica Vastic, que tinha 38 anos e 257 dias, remanescente da participação austríaca na Copa de 1998, empatou aquele jogo, com pênalti nos acréscimos do segundo tempo. Se serve de consolo a ambas, ofereceram alguma dificuldade nos jogos finais. A Alemanha só garantiu vaga nas quartas após fazer difícil 1 a 0 na anfitriã, que se despediu com mais honra do que se pensava. A Croácia, por sua vez, terminou com a terceira vitória em três jogos: outro 1 a 0 na Polônia.

O grupo C era visto, indubitavelmente, como o Grupo da Morte: Itália e França, simplesmente campeão e vice mundial à época, no mesmo grupo. A Holanda até poderia exercer alguma ameaça. Tinha time para isso: Van Nistelrooy, Robben, Sneijder, Van Persie… mas não tinha constância, regularidade. A Azzurra tinha técnico diferente (Roberto Donadoni), mas a base era a que conquistara a quarta Copa do Mundo, em 2006: Buffon, Zambrotta, Pirlo, Gattuso, Toni… já a França não tinha mais Zidane. Grande e sentida perda. Mas os Bleus de Raymond Domenech, muito questionado, tinham Malouda, Ribéry, Anelka, Makélélé, Thuram, as revelações Karim Benzema e Samir Nasri… deveriam passar. Com isso, o papel de coadjuvante ficava, até por eliminação, à Romênia, que esperava muito de Adrian Mutu, com Christian Chivu como grande coadjuvante.

No entanto, o que ocorreu naquela chave deverá ser resumido por uma espirituosa frase de Arjen Robben: “Não disseram que esse era o Grupo da Morte? Então, estamos matando todo mundo.” Contando com boas atuações de Sneijder e Van Nistelrooy, e alguma sorte ao ver alterações de última hora darem certo (o 4-2-3-1, novo esquema da equipe, obteve êxito; Engelaar, experimentado ao lado de Nigel de Jong, entrou bem no time; Boulahrouz, convocado às pressas no lugar do cortado Babel, deu mais força à defesa), a Holanda voou no grupo. Contando com um contra-ataque rapidíssimo e letal como principal arma, e com Van der Sar esplendoroso na defesa, o time destroçou Itália (3 a 0), na estreia, e França (4 a 1), na Basileia. De quebra, mesmo jogando com time reserva, ainda tratou de despachar a Romênia (2 a 0), fechando a primeira fase como favorita quase unânime ao título.

Restava ver, então, quem seria o outro classificado às quartas de final. E a Romênia ofereceu grandes dificuldades a França e Itália, em Zurique. Com a primeira, um empate insosso sem gols; com a segunda, um tenso 1 a 1 (que poderia até ter eliminado os italianos, não tivesse Buffon defendido um pênalti de Mutu). Restou, então, ver Bleus e Azzurra jogarem a sorte na partida direta. E os italianos se valeram do nervosismo visível dos franceses para abrir o placar: aos 25 minutos do primeiro tempo, Abidal derrubou Toni na área, foi expulso, e o pênalti foi marcado. Pirlo fez 1 a 0. Na etapa final, bastou uma falta cobrada por De Rossi desviar na zaga francesa, e estava feito o 2 a 0 que levou os azzurri às quartas, iniciando, de certa forma, a grande crise que a seleção francesa viveria.

No grupo D, a Espanha era vista como o time a ser batido. Pelo menos, ali, já que a falta de firmeza nos momentos decisivos pesava fortemente sobre os ombros do time de Luis Aragonés. O meio-campo era elogiável, com Xavi, Iniesta e o brasileiro naturalizado Marcos Senna deixando Cesc Fàbregas no banco; Fernando Torres e David Villa eram dos grandes atacantes do mundo à época, bem como Iker Casillas o era, no gol. Não seria necessário muito para sobrepujar uma Grécia ainda vivendo da memória do mágico 2004, uma Suécia mediana e uma Rússia que ainda era incógnita.

Pelo menos naquele primeiro momento, a incógnita virou certeza: a Rússia era um time que daria vexame. Pois caiu por 4 a 1 para os espanhóis, em Innsbruck, enquanto a Suécia, ostentando a experiência (Ljungberg, Anders Svensson, Henrik Larsson) e a habilidade (Ibrahimovic), expôs a decadência grega, aplicando 2 a 0 nos helênicos, em Salzburg. Na segunda rodada, os espanhóis se garantiram nas quartas, fazendo 2 a 1 nos suecos – com Villa marcando o gol da vitória aos 47 do 2º tempo. E a Rússia mostrou como o julgamento inicial era precipitado, fazendo 1 a 0 na Grécia.

E por que o julgamento era precipitado? Porque, exatamente naquele 2008, o Zenit vencera a Copa da Uefa. Porque alguns jogadores do time comandado pelo holandês Guus Hiddink, como o goleiro Igor Akinfeev, o meia Konstantin Zyryanov e o atacante Roman Pavlyuchenko, eram elogiados Europa afora. E, principalmente, porque o grande jogador daquela equipe, Andrey Arshavin, estava suspenso nas duas primeiras partidas. A suspensão acabou, e Arshavin pôde voltar contra a Suécia, no confronto direto para definir quem iria às quartas junto dos espanhóis. Bastou: em Innsbruck, ele seria um dos destaques do categórico 2 a 0 sobre o time de Lars Lagerback, fazendo um dos gols (o outro foi de Pavlyuchenko) e sendo o cérebro, no meio-campo. No outro jogo, a Espanha foi de time misto, mas venceu a Grécia, fazendo 2 a 1.

Os dois primeiros jogos nas quartas de final foram diferentes. Com dois gols em quatro minutos, no primeiro tempo (Schweinsteiger, aos 22, e Klose, aos 26), a Alemanha encaminhou bem sua classificação, contra Portugal, na Basileia. Ainda antes do intervalo, Nuno Gomes deu esperanças à seleção das Quinas, diminuindo. Só que o gol de Ballack, aos 16 minutos da etapa final, praticamente encerrou o assunto. Helder Postiga ainda diminuiu e deu alguma emoção, aos 42 minutos, só que o time português dependia demais do coração e da técnica de Cristiano Ronaldo para virar o jogo em poucos minutos. E os alemães retornaram às semifinais, após 12 anos.

Já a partida que definiu o adversário germânico, em Viena, poderia ter sido apagada durante 118 minutos. Um 0 a 0 truncado no tempo normal e em boa parte da prorrogação. Até que, aos 14 minutos da segunda parte do tempo extra, Ivan Klasnic fez 1 a 0. Croácia classificada? Não. Porque a Turquia já aprendera a não desistir, após a vaga nas quartas ter sido arrancada a fórceps. E foi premiada com um milagre ainda maior: nos acréscimos, aos 17 minutos, Semih Senturk empatou inacreditavelmente a partida, levando a definição aos pênaltis. Neles, o veterano Rustu, substituindo o suspenso Volkan no gol, defendeu três cobranças. E o 3 a 1 levou os turcos às semifinais. Tão incrível quanto heroico.

Na Basileia, esperava-se novo show holandês, contra a Rússia. Mas dois fatores não eram previstos. O primeiro afetou o espírito holandês: o grupo unido foi atingido em cheio pela morte de Anissa, filha de Boulahrouz, que nascera prematuramente durante a Euro. E o segundo foi o fato de Guus Hiddink saber como seus compatriotas jogavam. E teve a solução perfeita: tirar espaço para os contra-ataques da Oranje, na defesa, e impor velocidade para pegar a lenta defesa holandesa, no ataque. Bastou: contando com performances ótimas da dupla Pavlyuchenko e Arshavin, a Rússia fez 1 a 0, e não fez mais porque Van der Sar defendeu várias bolas. E porque Van Nistelrooy, no abafa, empatou, aos 42 minutos do segundo tempo. Mas, na prorrogação, não houve jeito de evitar: Torbinski fez 2 a 1, e Arshavin coroou sua performance fazendo o terceiro e definindo o jogo. Levando a Holanda a provar do próprio veneno, a Rússia protagonizava uma brilhante surpresa.

E, novamente em Viena, Espanha e Itália fizeram uma partida muito estudada, com poucos lances de emoção. Não impressiona, portanto, que ela tenha ido para os pênaltis. E neles se deu o triunfo que mudou, talvez, o destino de uma geração, o destino de uma seleção: Casillas defendeu dois pênaltis, e a Espanha fez 4 a 2 na Itália, que ficou à beira de dar prosseguimento à sofrida campanha que fazia. Tendo vencido os italianos pela primeira vez desde 1920 (!), a Fúria começava a crer que podia chegar.

E a crença aumentou na semifinal. Cansada pelo ritmo alucinante que impusera contra a Holanda, a Rússia fez pouco mais do que assistir à ótima performance espanhola em Viena. No segundo tempo, o time construiu uma vantagem categórica de 3 a 0. Xavi, Iniesta e Marcos Senna ditaram o ritmo da partida como queriam, enquanto Villa (e Daniel Güiza, reserva muito utilizado) atormentavam, no ataque. Passar à primeira final de um torneio entre seleções desde 1964 ampliou a autoconfiança daquela geração – que já parecia promissora na Copa de 2006, diga-se de passagem.

Na semifinal disputada na Basileia, a Turquia lembrava uma tropa que disputava uma guerra e continuava no campo de batalha, mesmo dizimada. Sofrendo com suspensões e lesões, o banco de reservas contra a Alemanha tinha apenas seis jogadores, descontando-se o goleiro. E, no entanto, quase o time de Fatih Terim conseguiu um novo milagre. Abriu o placar, com Ugur Boral, aos 22 minutos da etapa inicial. Schweinsteiger empatou, aos 26. Mas, no entanto, os turcos ofereciam aos alemães tanta dificuldade quanto a que vários países, mundo afora, tiveram para ver o segundo tempo do jogo: uma tempestade na Suíça fez o sinal de tevê cair por várias vezes. Até que Klose fez 2 a 1, aos 34 minutos. Tudo acabado? Não: o espírito de luta inacreditável levou ao empate, com Semih Senturk, aos 41. Porém, foi a vez da Alemanha assumir o papel de estraga-prazeres que tantas vezes incorporou: no último minuto, Philipp Lahm fez 3 a 2. Todos felizes: Alemanha na sexta final de Euro em sua história, e Turquia orgulhosa pela participação algo histórica.

Só que, na decisão, quem exibiu calma foi a Espanha. Ainda que o jogo em Viena tenha sido muito tenso, o time mostrou, novamente, um meio-campo com atuação quase perfeita. Xavi, Iniesta e Fàbregas exibiam capacidade de armação incrível, e ainda ajudavam Marcos Senna, perfeito, na marcação. Quando as coisas falhavam, Sergio Ramos e Puyol mostraram raça na defesa. Por sorte espanhola, poucas vezes houve erros na frente. Tanto é que, aos 33 minutos do primeiro tempo, Fernando Torres recebeu a bola livre e tocou na saída de Lehmann para abrir o placar.

A Alemanha, aos poucos, foi indo mais para o ataque. Aos poucos, foi ficando mais nervosa. Aos poucos, foi vendo como a Espanha estava madura para ganhar o título que acabou vencendo, enfim, acabando com décadas de frustração. A conquista da Eurocopa foi a primeira mostra da geração que levaria a seleção a títulos nunca dantes ganhos.

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