Eurocopa

Apesar da infelicidade no gol contra, Hradecky fica como o principal personagem da Finlândia na Euro

O gol contra fica marcado, mas Hradecky fez muito mais para sustentar as chances da Finlândia na Euro

A Finlândia permanece viva na Eurocopa, mas as chances de classificação como um dos melhores terceiros colocados dependem de uma combinação de resultados no fechamento da fase de grupos. Mesmo assim, as próprias esperanças de seguir aos mata-matas já superam as expectativas dos finlandeses. Em sua estreia numa competição internacional, a equipe teve um desempenho acima do esperado. Conquistou sua primeira vitória (ainda que em circunstâncias questionáveis), deu trabalho a adversários mais badalados. E se a imagem mais dolorosa que fica na derrota por 2 a 0 para a Bélgica foi a infelicidade de Lukas Hradecky, o goleiro ainda merece ser lembrado como o principal responsável pelo bom papel de sua seleção na Euro 2020.

Quando a Finlândia se classificou à Eurocopa pela primeira vez, estava claro como seus diferenciais estavam nas duas pontas do campo. Teemu Pukki atravessa a melhor fase da carreira no Norwich e marcou gols fundamentais nas Eliminatórias. Contudo, a segurança defensiva também passava por Hradecky, um dos melhores goleiros da Bundesliga nos últimos anos. Obviamente, o talento dos finlandeses não se concentra no binômio, com outros atletas de boa capacidade nos demais setores – como Glenn Kamara e Joel Pohjanpalo. Ainda assim, estava claro desde o princípio que as chances passariam pelo centroavante e pelo arqueiro – principalmente pelo arqueiro, considerando a tendência dos alviazuis em atuarem na defensiva.

Hradecky possui uma história curiosa, em que escolheu a Finlândia como seu país de coração. O goleiro nasceu em Bratislava, numa família eslovaca, mas se mudou ainda na infância para a cidade de Turku depois que seu pai, jogador de vôlei profissional, foi contratado por uma equipe local. A família toda, aliás, seria incentivada a praticar esportes. Lukas é o mais velho de três irmãos que são futebolistas. O zagueiro Tomas e o volante Matej defendem clubes do Campeonato Finlandês – com o caçula chegando a disputar dois jogos pela seleção. Todos eles começaram na base do TPS, um dos principais times de Turku.

Lukas Hradecky mostrava talento suficiente para brilhar no gol antes mesmo de chegar à primeira divisão nacional. O goleiro passou por todas as categorias nas seleções finlandesas de base, a partir do sub-17. Através do time sub-21 que ele conseguiu despontar além da liga local. Aos 19 anos, Hradecky protagonizou a seleção que conquistou a classificação inédita ao Campeonato Europeu da categoria. Não pôde disputar a fase final da competição por causa de uma lesão, mas ganharia a chance de saltar a uma liga maior. Depois de passar um tempo emprestado ao Abo IFK, da própria Finlândia, se transferiu ao dinamarquês Esbjerg.

Neste momento, Hradecky ficou um tempo treinando com o Manchester United, mas não queria ser reserva e preferiu seguir com o Esbjerg. Destacou-se mesmo com o rebaixamento do clube em sua primeira temporada na posição, conseguindo conquistar o acesso logo depois. Assim, logo depois seria comprado pelo Brondby, um dos principais clubes da Dinamarca. Duas temporadas bastaram para que conseguisse ser eleito o melhor goleiro do Campeonato Dinamarquês e também o melhor jogador do clube. Chamaria mais atenção fora do país e chegaria a uma das grandes ligas europeias, levado pelo Eintracht Frankfurt. Neste momento, já conseguia se aproximar de outros arqueiros históricos da Finlândia – como Jussi Jääskeläinen ou Antti Niemi, que fizeram seus nomes na Premier League.

Hradecky fez valer a aposta do Eintracht Frankfurt graças ao seu talento. Passou a fechar o gol das Águias e logo se confirmou como um dos melhores goleiros em atividade na Bundesliga, dentro de uma escola tão qualificada à sua posição. Seria eleito o melhor camisa 1 do campeonato em 2017/18 e, mais importante, se tornaria um dos protagonistas do Frankfurt na conquista da Copa da Alemanha naquela mesma temporada. Todavia, ao final de seu contrato, decidiu se transferir ao Bayer Leverkusen. Disputou a Champions League e manteve seu nome em alta, escolhido pela revista Kicker como o melhor arqueiro da Bundesliga 2019/20.

Tal crescimento de Hradecky se refletiu na seleção. Convocado ao time principal a partir de 2010, o goleiro convivia com boa parte do sub-21 de 2009, incluindo o capitão Tim Sparv e o próprio Teemu Pukki. Seriam eles a formar a espinha dorsal da equipe nacional ao longo da última década. Titular incontestável a partir de 2015, Hradecky ainda era a face conhecida de uma seleção sem muitos resultados positivos. O que mudaria a partir de 2017, quando os finlandeses encerraram bem as Eliminatórias para a Copa de 2018. O sucesso, de qualquer forma, só ficaria mais visível na Liga das Nações e nas Eliminatórias para a Euro 2020.

Hradecky já tinha sido um dos responsáveis por levar a Finlândia à Eurocopa. O goleiro teve uma série de grandes atuações durante as Eliminatórias, quando a equipe terminou na segunda colocação do grupo da Itália. O camisa 1 permaneceu seis dos nove jogos que disputou sem sofrer gols. Em todos esses, a Finlândia conquistou a vitória, o que possibilitou o feito inédito. Estava presente nos 3 a 0 sobre Liechtenstein, que selaram a classificação. Sua única ausência foi mesmo na derrota para a Grécia no último compromisso, quando a façanha estava consumada. Em reconhecimento à participação na caminhada, Hradecky foi eleito o esportista do ano na Finlândia em 2020 – apenas o quarto futebolista a receber tal condecoração, depois de Jari Litmanen, Sami Hyypia e Teemu Pukki.

A temporada de Hradecky com o Bayer Leverkusen não seria sua melhor, mas ainda assim o goleiro chegou em boa forma para a Eurocopa. E a vitória sobre a Dinamarca em Copenhague, num estádio que ele conhecia tão bem, passou por suas luvas. Durante o primeiro tempo, Hradecky estava sempre bem colocado e realizou defesas seguras para manter o placar zerado. Já depois do colapso sofrido por Christian Eriksen, com a retomada do jogo forçada pela Uefa de maneira indevida, o arqueiro continuou cumprindo seu papel. Diante de adversários desestabilizados, ele defendeu o pênalti cobrado por Pierre-Emile Hojbjerg sem nem dar rebote. Permitiu o triunfo por 1 a 0, após o tento de Joel Pohjanpalo.

Diante da Rússia, Hradecky seria bem menos exigido. No lance decisivo, não teve o que fazer. E se o zero durou tanto tempo diante da Bélgica, a responsabilidade do goleiro é direta. Durante o primeiro tempo, o camisa 1 faria sua melhor defesa pouco antes do intervalo, se esticando todo para desviar uma batida cruzada de Jérémy Doku. Já na etapa final, um milagre ainda maior viria num chute de Eden Hazard, que finalizou rasteiro e Hradecky conseguiu espalmar no contrapé. Era uma noite impecável do goleiro até ali, mas a pressão belga aumentava e o tento parecia uma questão de tempo.

Lukaku até marcou, mas viu o lance anulado por um impedimento mínimo. O gol sairia mesmo às custas da infelicidade de Hradecky. A cabeçada de Thomas Vermaelen bateu no chão, na trave e pegou na mão do goleiro. No susto, o finlandês não conseguiu fazer o movimento para afastar o perigo e, pior, marcou o gol contra. Não deu tempo para se recuperar. Por fim, Hradecky também ficaria vendido no míssil rasante de Lukaku que encerrou a contagem em São Petersburgo.

A imagem que muita gente vai lembrar de Hradecky na Eurocopa é o gol contra, o que acaba sendo uma pena. O goleiro fez muito mais pela Finlândia e acabou sendo o protagonista da campanha. Curiosamente, o baixo número de tentos sofridos pelos finlandeses é o que sustenta as chances de classificação como um dos melhores terceiros colocados neste momento. Se a equipe ficar para os mata-matas, Hradecky terá uma chance de redimir. E certamente será exigido, podendo apresentar a qualidade que elevou tanto sua fama desde que se transferiu à Bundesliga.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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