Eurocopa

Alemanha 1988: Enfim, Holanda

Já mostrando a dificuldade que teria em substituir a geração campeã quatro anos antes, a França não passou das Eliminatórias para a Euro. No grupo A, dois favoritos despontavam, não só para as vagas nas semifinais, mas para o título: a Alemanha, com a geração de Matthäus, Klinsmann, Völler e Brehme já no comando do time (por sua vez, já treinado pelo Kaiser Franz Beckenbauer), e a Itália, com o treinador Azeglio Vicini procurando deixar o time em ponto de bala para a Copa em casa, dali a dois anos.

A zaga que só levaria dois gols no Mundial já estava azeitada, com a linha Zenga-Bergomi-Baresi-Ferri-Maldini (este último, já titular da Azzurra com 19 anos). E o ataque transalpino também era respeitável, com Vialli e Roberto Mancini. Diante de dois times como esses, só restava o papel de coadjuvante a uma Dinamarca por demais envelhecida – muito embora já estivessem lá o lateral Heintze e o goleiro Schmeichel, ambos na reserva – e uma Espanha estagnada.

Já no grupo B, o cenário era mais equilibrado. Após oito anos de ausência das competições internacionais – ficara fora das Copas de 1982 e 1986, além da Euro-84 –, a Holanda voltava a frequentar as luzes da ribalta. Mas, embora gente como Rijkaard, os irmãos Erwin e Ronald Koeman, Gullit e Van Basten estivessem na ponta dos cascos (e treinados por Rinus Michels), a falta de experiência num torneio como a Euro poderia complicar.

Algo nada recomendável, contra a Inglaterra ainda de Peter Shilton, Gary Lineker, Beardsley e John Barnes; a União Soviética também sofrendo com o “excesso de veteranismo”, mas sempre perigosa e tradicional em Euros; e a novidade representada pela Irlanda, já formada pela geração de gente como Packie Bonner, Paul McGrath, Mick McCarthy, Frank Stapleton, Tony Cascarino e John Aldridge, que levariam o país a duas Copas consecutivas (1990 e 1994).

No grupo A, poucas surpresas. Após empatarem em um gol na primeira rodada, Itália e Alemanha despacharam com autoridade dinamarqueses e espanhóis. No grupo B, houve uma surpresa, a bem da verdade. Surpresa desagradável: agastada por problemas internos, a Inglaterra foi presa fácil para a URSS e para a Holanda. Contra a Laranja, aliás, o time inglês foi vítima da primeira amostra do talento que Van Basten reservara para aquela Euro: foi “San Marco” o autor dos três gols holandeses.

Os soviéticos garantiram a vaga nas semifinais sem muitas dificuldades, vencendo neerlandeses e irlandeses. O segundo lugar foi decidido num lance de sorte. Holanda e Irlanda se enfrentavam em Gelsenkirchen, e o empate sem gols dava a vaga aos irlandeses. Aos 37 minutos do segundo tempo, num rebote de escanteio, Jan Wouters chutou de bate-pronto. O arremate não foi bom, saiu quicando, bateu na nuca de Wim Kieft, ganhou efeito e acabou nas redes de Bonner. A oito minutos do fim do jogo, os holandeses estavam nas semis.

A primeira semifinal iria entrar para a história da Euro: Alemanha e Holanda faziam o repeteco da final de 1974, em Hamburgo. O jogo manteve-se truncado até os 10 do 2º, quando Klinsmann mostrou a sua maestria em cavar pênaltis. Matthäus cobrou com sua competência peculiar e fez 1 a 0. Dezenove minutos depois, a Holanda pagou na mesma moeda: Van Basten aproveitou uma bola que ia se perdendo pela linha de fundo (e um carrinho que o zagueiro Jürgen Köhler dava para tentar recuperá-la) e caiu. Novo pênalti. Nova cobrança perfeita, desta vez de Ronald Koeman – 1 a 1.

A prorrogação se aproximava. Até que, a dois minutos do fim do jogo, uma bola despretensiosa lançada por Jan Wouters estava perdida na área. Parecia à feição para a defesa do goleiro alemão Immel, mas Van Basten tratou de se antecipar à Kohler e tocar por baixo do arqueiro. Como em 74, havia um 2 a 1, mas desta vez os vitoriosos eram laranjas. Mais do que vencer, os holandeses expiavam os traumas de quatorze anos antes. A festa em Amsterdã é considerada, até hoje, a maior na cidade desde a libertação do jugo nazista, em 1944.

Na segunda partida, em Stuttgart, os italianos já mostravam a eficiência de sua defesa: com apenas um gol sofrido, conseguiam levar o 0 a 0 ao intervalo. Porém, no segundo tempo, os soviéticos mostraram a mesma eficiência para despachar os favoritos. Litovchenko e Protasov precisaram de apenas quatro minutos (13 e 17) para liquidar a Azzurra e dar a última demonstração de força do futebol soviético antes da derrocada futebolística e histórica, chegando para tentar o bi europeu.

No Estádio Olímpico de Munique, a final seguiu relativamente equilibrada, até que, aos 32 minutos, um cruzamento de Erwin Koeman fez com que a defesa soviética saísse em linha, para provocar o impedimento. Só deram liberdade para que Van Basten escorasse, de cabeça, para o parceiro Gullit fuzilar Dasaev, também testando: 1 a 0. O primeiro gol já dava mais tranqüilidade aos holandeses.

O segundo gol ficou na história, marcou época. Anotado aos nove minutos do segundo tempo, tem lugar garantido em qualquer lista que se preze de gols mais bonitos da história do futebol. Van Tiggelen passou rasteira para o veterano (37 anos) Arnold Mühren. De primeira, Mühren cruzou. Iria para fora… se o irresistível Van Basten não seguisse a jogada e, sem ângulo, emendasse um voleio que encobriu Dasaev. Seu quinto gol na Euro, que o tornou artilheiro da competição, não poderia ter sido mais brilhante.

Os soviéticos tanto pressionaram, após o gol, que conseguiram um pênalti: Van Breukelen derrubou Gotsmanov. Mas o próprio Van Breukelen consertaria o erro. Ele – que, havia exatamente um mês, em 25 de maio de 1988, defendera a cobrança decisiva que deu ao PSV Eindhoven o título da Liga dos Campeões – também pegou a cobrança de Belanov. Pouco se passou, depois daquilo, até o apito final do francês Michel Vautrot.

E a Holanda, que parecia um time ainda em formação, virou uma esquadra inesquecível. Que conquistou um título também inesquecível. Explicado, talvez, por um trocadilho que estampava uma faixa, na recepção aos campeões, em Amsterdã: “Vanbastische!” (“Vanbástico!”).

Mostrar mais

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador de anúncios? Aí é falta desleal =/

A Trivela é um site independente, que precisa das receitas dos anúncios. Desligue o seu bloqueador para podermos continuar oferecendo conteúdo de qualidade de graça e mantendo nossas receitas. Considere também nos apoiar pelo link "Apoie" no menu superior. Muito obrigado!