Eurocopa

A rivalidade entre Alemanha e França se construiu nos grandes jogos de suas seleções em Copas

Alemães e franceses têm uma longa lista de embates memoráveis, sobretudo em Mundiais

* Texto publicado originalmente em 7 de julho de 2016 e ampliado

A rixa entre Alemanha e França pode não ser tão grande dentro do campo de futebol. Mas não dá para negar que os dois países possuem a sua rivalidade, construída principalmente pelos duelos em fases decisivas de Copas do Mundo. Até o embate na semifinal da Euro 2016, inédito na competição europeia, o Nationalelf e os Bleus se cruzaram quatro vezes em Mundiais, sempre nos mata-matas. E o contexto dos anos 1980 contribuiu bastante para acirrar os ânimos, com duas semifinais. Nesta terça, a história é retomada, com a estreia de alemães e franceses na Euro 2020.

Forças secundárias no futebol europeu dos anos 1930 (em tempos dominados por britânicos, italianos e países do antigo Império Austro-Húngaro), Alemanha e França disputaram o seu primeiro amistoso em 1931, em Paris. Foi uma vitória dos Bleus por 1 a 0, graças a um gol contra de Munzenberg. Naquela década, foram mais três confrontos, incluindo um empate por 3 a 3 em 1933. E o fortalecimento de uma seleção alemã que também tinha o investimento da ditadura nazista repercutiu em campo. O Nationalelf conquistou duas vitórias imponentes em 1935 e 1937: 3 a 1 em Paris e 4 a 0 em Stuttgart, com grandes atuações dos antigos ídolos Ernst Lehner e Adolf Urban.

A Segunda Guerra Mundial colocou franceses e alemães de lados opostos. Assim, as duas seleções só voltariam a se reencontrar na década de 1950, época em que se alçaram ao protagonismo na Europa. A Alemanha Ocidental ganhou a Copa do Mundo de 1954, mas era freguesa da excelente equipe montada pela França, aproveitando principalmente o talento de imigrantes. Os Bleus venceram um amistoso em 1952 por 3 a 1, mesmo placar aplicado em Hannover meses depois da conquista germânica no Mundial, embora os alemães ocidentais estivessem desfalcados de boa parte dos heróis em Berna. Já em 1958, o primeiro duelo oficial aconteceu na decisão do terceiro lugar da Copa. Show do impiedoso Just Fontaine, que marcou quatro gols no massacre por 6 a 3 de sua equipe.

A partir de então, as equipes tiveram encontros esparsos em duas décadas, até 1980. Em 1967, a Alemanha Ocidental enfiou 5 a 1 em Berlim, com Gerd Müller anotando um de seus primeiros tentos pela equipe nacional. Em preparação à Copa, os alemães também venceram por 2 a 1 em 1973, troco dado pelos franceses em 1977 com o triunfo por 1 a 0. Já em 1980, quando os Bleus formavam uma das gerações mais talentosas de sua história, tomaram uma traulitada dos então campeões europeus por 4 a 1. A chance de vingança veio dois anos depois, justo na semifinal da Copa.

A França se referendava por algumas das exibições mais técnicas no Mundial de 1982. Ao lado do Brasil, era a equipe que mais chamava atenção neste aspecto. Enquanto isso, a Alemanha Ocidental estava longe de encantar. Avançou em uma chave difícil na segunda fase, contra Inglaterra e Espanha, mas ficou marcada pelo resultado armado contra a Áustria na etapa anterior, que beneficiou as duas equipes. E o time de Jupp Derwall teve uma atuação pragmática, bem como violenta, para segurar os Bleus na semifinal.

O choque entre Harald Schumacher e Patrick Battiston é emblemático. Platini descolou um lançamento perfeito para o companheiro, que poderia resultar muito bem no gol de empate. O defensor deu um leve desvio, que parecia o suficiente para balançar as redes. Não foi. Antes mesmo que os torcedores tivessem certeza se o gol tinha acontecido ou não, sequer prestavam atenção na bola. O goleiro saiu com tudo para cima do francês. Deixou o adversário inconsciente, com três costelas quebradas e uma lesão vertebral. Sequer foi marcada a falta. Ainda hoje, Battiston não perdoou completamente Schumacher, embora o goleiro jure que foi sem intenção e tenha pedido desculpas.

O lance aconteceu no início do segundo tempo, quando Littbarski e Platini já haviam movimentado o placar. O empate prosseguiu e resultou em uma prorrogação épica. Marius Trésor e Alain Giresse abriram vantagem de dois gols para a França, mas Rummenigge, mesmo com problemas físicos, se tornou herói ao sair do banco e buscar o empate junto com Klaus Fischer – de bicicleta. Após o 3 a 3 nos 120 minutos, a decisão seguiu para a marca da cal. O Nationalelf venceu apenas nas cobranças alternadas, por 5 a 4. Avançou, mas não aguentou a Itália na final. Enquanto isso, a hostilidade entre torcedores alemães ocidentais e franceses após a batalha em Sevilha fez Helmut Schmidt e François Mitterrand, o chanceler da Alemanha e o presidente da França, irem a público para tentar abrandar as tensões.

Já em 1986, o filme se repetiu. Outra semifinal de Copa do Mundo, desta vez com a França envelhecida e a Alemanha Ocidental em um processo de transição. Rummenigge, Schumacher, Platini, Battiston e vários protagonistas de quatro anos antes estavam em campo no Estádio Jalisco. Mas, após os Bleus se desgastarem no jogaço contra o Brasil nas quartas, o Nationalelf não enfrentou grandes dificuldades: vitória por 2 a 0, com tentos de Andreas Brehme e Rudi Völler. Naquele momento, a rivalidade era tão grande que a França acabou convidada a um amistoso para comemorar o aniversário de Berlim, em 1987. Com Platini como técnico, além de novatos como Cantona e Papin em campo, a Alemanha de Beckenbauer venceu por 2 a 1, dois gols de Völler.

A partir de então, foram sete amistosos entre 1990 e 2013. A ascensão da França garantiu cinco vitórias para a conta, com jogadores como Zidane, Henry e Trezeguet pintando como decisivos. Até que a Alemanha prevalecesse quando o duelo voltou a valer algo, no Mundial de 2014. Joachim Löw sabia do desafio que teria pela frente e, por isso mesmo, deixou o Nationalelf um pouco mais cauteloso para aquele confronto. Mats Hummels definiu a vitória por 1 a 0, enquanto Manuel Neuer operou algumas defesas vitais. Não foi um jogo de tantos riscos quanto diante da Argélia, mas a dificuldade que os alemães enfrentaram foi inegável. Até porque, na bola, os franceses foram mais ofensivos, mesmo sem tanta eficácia.

Em novembro de 2015, o amistoso no Stade de France ficou gravado na memória de maneira traumática. O jogo foi alvo dos ataques terroristas que se desenrolaram em diferentes pontos de Paris. Apesar das bombas que explodiram nos arredores do estádio, as autoridades preferiram não causar o pânico nos presentes e deixaram o jogo rolar. Vitória dos Bleus por 2 a 0, mesmo sem motivos para comemorar. Meses depois, ocorreria o duelo inédito pela Eurocopa, na semifinal da edição de 2016. Hugo Lloris estava com o corpo fechado de um lado, Antoine Griezmann fez uma de suas atuações mais memoráveis do outro e a vitória por 2 a 0 em Marselha permitiu que os Bleus rompessem a sina de derrotas decisivas contra a Mannschaft. A decisão contra Portugal, entretanto, não traria doces lembranças.

Desde então, rolaram mais três jogos. Em amistoso disputado em 2017, um movimentado empate por 2 a 2 valeu o placar em Colônia. Já na primeira edição da Liga das Nações, os gigantes empataram sem gols em Munique, antes de Griezmann reforçar um pouco mais o papel de carrasco e determinar o triunfo francês por 2 a 1 no Stade de France – que contribuiu ao rebaixamento dos germânicos na competição, apesar da mudança de regulamento logo depois. Nesta terça, as circunstâncias e as pressões serão bem distintas na Allianz Arena. Pela primeira vez, Alemanha e França se pegam pela fase de grupos de uma grande competição. Ainda assim, considerando o histórico, o mínimo que se espera é um jogaço.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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