Eurocopa

A história de um gol icônico: Paul Gascoigne, a obra-prima contra a Escócia e comemoração na “cadeira do dentista”

Pela segunda rodada da fase de grupos, Gazza anotou um dos gols mais célebres da história da Eurocopa

O chapéu de canhota, a conclusão de direita. O adversário, o local, o momento. Até a comemoração e o corte de cabelo. Uma confluência de tantos elementos é difícil, mas tudo parece conspirar para que o gol de Paul Gascoigne contra a Escócia na Euro 1996, em Wembley, se torne icônico. Os Three Lions já tiveram gols mais decisivos, já tiveram gols mais bonitos. Mas, por sua beleza também rara e pelo peso de acontecer no duelo mais importante do clássico de seleções mais antigo do mundo, a pintura de Gazza muito provavelmente ocupa o posto de tento mais célebre da história da seleção inglesa. Sim, Geoff Hurst anotou (anotou?) um gol bem mais lembrado em Wembley na decisão da Copa de 1966. Mas ainda dá para discutir se aquele lance de Gascoigne não é mesmo o mais querido da Inglaterra, pelo turbilhão de boas lembranças que costuma provocar.

A assinatura de Gascoigne, obviamente, é muitíssimo importante para aquele gol. Raros jogadores da seleção inglesa foram tão adorados quanto o camisa 8. Gazza parecia se casar perfeitamente com a identidade do futebol inglês naquela virada dos anos 1980 para os 1990. Tinha um jeito malucão que passava longe da revolução planejada pela Premier League, ao mesmo tempo em que esbanjava habilidade na meia-cancha. O garoto do norte do país surgiu no Newcastle e eclodiu com a camisa do Tottenham, liderando os Spurs a uma inesquecível conquista na Copa da Inglaterra. Antes disso, porém, já tinha caído nas graças do povo com a caminhada dos Three Lions às semifinais da Copa de 1990.

Gascoigne certamente foi um dos jogadores mais habilidosos que já surgiram no futebol inglês. O meia combinava uma qualidade técnica genuína com uma explosividade que ditava o seu estilo. Era um armador de capacidade magistral, considerando sua visão e a precisão de seus passes aos companheiros. Porém, fazia muito mais com as finalizações ferozes que poderiam sair de ambos os pés, rendendo até golaços de falta, ou mesmo as aparições na área para definir de cabeça. “Completo” era a palavra perfeita para Gazza, que brilhava não apenas por definir as jogadas, mas também por conferir beleza a elas. A força física e a fome de brigar por cada bola eram apenas a casca, diante de seu refinamento para driblar qualquer um que aparecesse na sua frente. Aquele gol contra a Escócia, afinal, é o epítome do craque.

Num futebol cada vez mais mecanizado e regrado, que exige muito foco na parte tática e também comprometimento para cuidar da parte física, Gascoigne talvez não se encaixasse nos dias atuais. Para aquele momento histórico, porém, ele era excepcional. O camisa 8 parecia um fenômeno da natureza, com a classe de quem já nasce com a bola nos pés e uma força física que dependia muito menos dos exercícios na academia – ainda mais a quem teve problemas com a balança desde o início da carreira, assim como com o álcool. Pouco importava se Gazza não era o mais comprometido ou o mais centrado, ele fazia acontecer. E a torcida da seleção inglesa, a partir da Copa de 1990, pôde desfrutar daquele furacão. O jovem de 23 anos recém-completados arrebentou no Mundial da Itália, com esse misto de maestria e agressividade. Era a encarnação da paixão de seus compatriotas pelo jogo.

O sonho da Inglaterra na Copa de 1990 foi real. E aqueles sonhos ingleses foram mais gostosos de serem vividos graças a Gascoigne. O craque começou a pintar nas seleções de base da Inglaterra a partir de 1987, um ano antes de ganhar sua primeira chance com Sir Bobby Robson na equipe principal, após a Eurocopa. Disputou um punhado de jogos, até ganhar sua primeira grande chance no cenário internacional durante o Mundial. Havia expectativas, sim, considerando o potencial claro do jovem meia. Mas o que ele faria na Itália acabaria saindo até melhor do que a encomenda.

Obviamente, a participação de Gascoigne naquela Copa do Mundo teria suas turbulências – como tudo ao redor de Gazza. O jovem costumava tocar o terror na concentração com suas brincadeiras, digamos, inconsequentes. Só para ficar num exemplo, em sua autobiografia, ele conta como quase provocou um acidente de avião numa das viagens com a seleção naquela campanha. Dentro de campo, ainda assim, o camisa 19 compensava por tudo. E não dá para ignorar o papel do meia como condutor da Inglaterra rumo às semifinais. Era ele quem dava um toque diferente ao time comandado por Bobby Robson e decidiu várias partidas.

Numa fase de grupos truncada da Inglaterra, Gascoigne deu o passe para Mark Wright garantir a vitória sobre o Egito. Faria o mesmo nas oitavas de final contra a Bélgica, quando sua cobrança de falta seguiu perfeita à conclusão de voleio de David Platt. As quartas de final contra Camarões guardariam mais emoções, num jogo em que os Leões Indomáveis mereciam mais sorte. Gazza cometeu um pênalti, mas criou a jogada que permitiu a Gary Lineker sofrer também um penal e determinar a vitória na prorrogação. De qualquer maneira, sua atuação mais emblemática aconteceu na semifinal contra a Alemanha Ocidental. Os ingleses foram eliminados nos pênaltis, mas fizeram um jogo superior. O jovem camisa 19 foi o melhor em campo naquela noite.

Gascoigne mandou no meio-campo, mesmo encarando uma batalha individual com Lothar Matthäus – o melhor do mundo naquele ano. O camisa 19 não queria saber do craque alemão, jogando mais recuado para acompanhá-lo: conseguia driblá-lo sem tanto esforço, para organizar o ataque e ainda arriscar os chutes mais perigosos. E isso sem aliviar quando precisava entrar nas divididas. O empate forçou a prorrogação e foi no tempo extra que Gazza viveu seu momento mais emblemático naquela Copa. Curiosamente, com a bola parada. Um carrinho um tanto quanto desnecessário com as travas altas sobre Thomas Berthold rendeu o cartão amarelo. Pendurado, o meia não jogaria uma eventual final. Chorou ali mesmo, mas continuou dando sua garra em campo pelos Three Lions.

Sir Bobby Robson relembraria aquele momento: “Meu coração apertou no momento em que o árbitro tirou o cartão amarelo. Meu coração foi ao chão. Percebi instantaneamente que era o fim para Gascoigne. E isso era uma tragédia – para ele, para mim, para o time, para o país, para o futebol inteiro. Ele era tão bom e estava excelente naquela partida, em particular. Quanto maior o jogo, melhor ele fica. Gascoigne sabia também, no momento em que recebeu o cartão. Vi o rosto dele mudar, de agressivo, lutando pela bola, a perceber que cometeu um erro. As lágrimas começaram a brotar em seus olhos. E Lineker foi muito esperto, viu imediatamente e disse a mim para ficar de olho em Gazza”.

Se a Inglaterra não poderia ter Gascoigne na final, a eliminação pelo menos evitou um pesar maior pelo craque. Ele pediu para não participar da disputa por pênaltis e viu seus companheiros falharem na marca da cal. O choro de Gazza se tornaria mais sentido com a queda da equipe. Mas não foi a decisão do terceiro lugar que diminuiu sua aura. Pelo contrário, a campanha na Copa de 1990 concedeu uma noção de renascimento ao futebol inglês. Depois de Hillsborough e de Heysel, era importante criar esperança de novos tempos. O meia servia como uma espécie de dínamo, cheio de energia, mesmo que um toque de insanidade convivesse plenamente com a genialidade.

Gascoigne confessaria em sua autobiografia: “Não queria voltar para casa depois da eliminação. Queria ficar na Itália e jogar a Copa do Mundo para sempre”. O problema é que esse sentimento de estar numa grande competição levou seis anos para se repetir.

Gascoigne em ação na Euro

Se havia uma empolgação clara com a Gazzamania, que rendeu até discos e livros, Graham Taylor não daria uma colher de chá ao craque depois de substituir Bobby Robson à frente da seleção inglesa. O treinador chegou a barrar Gascoigne, justificando questões táticas. E, no fim das contas, o meia não seria convocado para a Euro 1992. Ao final da temporada 1990/91, o ídolo do Tottenham conduziu sua equipe à final da Copa da Inglaterra, decidindo inclusive a semifinal contra o Arsenal. Porém, na decisão contra o Nottingham Forest em Wembley, Gazza rompeu os ligamentos cruzados do joelho. Teria que ver a conquista dos Spurs no hospital. Por conta desta contusão, o craque perdeu toda a temporada 1991/92 e não seria chamado à Eurocopa.

Os anos seguintes da carreira de Gascoigne foram distantes da Inglaterra. O meia voltou à Itália, para defender a Lazio a partir de 1992/93. Neste momento, suas confusões fora do campo impactavam na sua imagem. E não que a Inglaterra correspondesse em campo. Mesmo com Gazza participando das Eliminatórias e fazendo boas partidas, os Three Lions não conseguiram se classificar para a Copa do Mundo de 1994, superados por Holanda e Noruega em sua chave. O craque não poderia repetir o que viveu em 1990 nos Estados Unidos. Para piorar, sofreu uma fratura na perna que também encurtou sua estadia em Roma, sem que conseguisse atuar tanto nas duas últimas de suas três temporadas com os laziali.

Se o futebol estava “voltando para casa” com a Euro 1996 sediada na Inglaterra, Gazza também voltaria em 1995/96, mas pegando um desvio: o meia acertou sua transferência exatamente para a Escócia, onde vestiria a camisa do Rangers. Gazza estava disposto a recuperar seu melhor futebol, algo que conseguiu no Estádio Ibrox. Em tempos nos quais os Gers dominavam o Campeonato Escocês, no meio de seus nove títulos consecutivos, o inglês acabou eleito o melhor jogador da temporada no país. Estava jogando o fino, com as doses de talento que o colocavam numa prateleira especial entre os melhores jogadores do mundo. E, pela seleção, o camisa 8 também recuperou seu espaço entre os titulares com o técnico Terry Venables.

Como país-sede, a Inglaterra concentrou sua preparação à Eurocopa em amistosos. Gascoigne disputou quase todos os jogos a partir do segundo semestre de 1995, retomando a posição como titular. Mas a Gazzamania não era a mesma de outros tempos, com os tabloides estampando suas polêmicas fora de campo. Um episódio decisivo aconteceu em Hong Kong, durante uma turnê com os Three Lions. Na comemoração do aniversário de Gazza, os jogadores foram curtir a noite local. Acabaram fotografados enquanto entornavam todas. Gascoigne, óbvio, era o mais focado pelas lentes. Aparecia com uma camisa rasgada, sentado numa cadeira de dentista enquanto jogavam tequila em sua garganta.

“Só fui para fazer uma obturação! Apanhamos muito por isso, mas deixa eu contar o que aconteceu. Fui o primeiro na cadeira, porque parecia engraçado, então outros rapazes foram também. Isso inspirou um bom espírito de equipe”, contaria Gascoigne, à FourFourTwo, anos depois. Os tabloides não viram a mesma graça. “Disgracefool” era a manchete do The Sun, um trocadilho entre as palavras “vergonhoso” e “tolo”. Até parecia que Gazza, conhecido por seus destemperos e por seus problemas com álcool, estava levando o resto do time ao mau caminho.

Gascoigne comemora em 1996

Grande parte da torcida inglesa não queria ver Gascoigne na Eurocopa. Segundo uma pesquisa feita pelo Mirror, 86% dos entrevistados avaliavam que o meia não deveria ser incluído na lista final para a competição continental. Mas estava lá, vestindo a camisa 8. E seria titular na estreia contra a Suíça, o empate por 1 a 1 que não pareceu convencer muita gente. Nem deu para ver o melhor do meia, que acabaria substituído aos 32 minutos do segundo tempo por Platt. Assim, a segunda rodada logo ganharia um caráter decisivo. Ainda mais por acontecer diante da Escócia, num clássico que seria determinante à continuidade dos Three Lions na Euro 1996. Até o cinema dava contornos mais épicos àquele jogo, considerando que Coração Valente tinha emplacado nas telonas meses antes.

O encontro com a Escócia era bastante familiar a Gascoigne. Três titulares da Tartan Army eram seus companheiros no Rangers: o goleiro Andy Goram, o meia Stuart McCall e o atacante Gordon Durie. No banco ainda havia Ally McCoist, atacante lendário dos Teddy Bears que se encaminhava ao final da carreira. E aquele embate aconteceria num terreno familiar, Wembley, na ocasião mais importante para o camisa 8 dentro de casa desde aquela decisão da Copa da Inglaterra pelo Tottenham em que saiu lesionado aos 15 minutos do primeiro tempo. Gazza, então, trataria de tornar aquele clássico inesquecível à sua seleção.

Num jogo em que os dois rivais pareciam ter muito mais a perder do que a ganhar, o primeiro tempo seria travado. Havia um claro temor das consequências do resultado, não apenas à competição, mas à rivalidade em si. Um forte aparato de segurança precisou ser montado, ainda que não tenha evitado totalmente os confrontos entre torcedores ao redor do Reino Unido. Dentro de campo, ainda assim, os três pontos seriam importantes às pretensões das duas equipes. Foi o que impulsionou a Inglaterra na volta do intervalo, para inaugurar o marcador aos sete minutos. Não ainda com Gascoigne. Quem apareceu primeiro foi Alan Shearer, em fase deslumbrante às vésperas de trocar o Blackburn pelo Newcastle. Num cruzamento de Gary Neville, o centroavante completou de cabeça, sem nem pular.

O jogo ganhou vida e a Escócia partiu para cima em busca do empate. Não era uma atuação tão boa da Inglaterra, que em certos momentos pareceu perdida em campo. O abafa escocês delineava o empate, com direito a uma defesa fantástica de David Seaman em cabeçada de Durie. E a igualdade poderia ter saído num pênalti aos 33 minutos. Tratado como o “William Wallace” da vez às vésperas do clássico pela imprensa escocesa, Gary McAllister assumiria a cobrança. Bateu firme, mas sem tanta direção. Seaman conseguiu adivinhar o lado e, mesmo passando da bola, conseguiu realizar a defesa com o cotovelo. A intervenção já representava um alívio imenso aos torcedores ingleses em Wembley. Mal sabiam eles que a apoteose ocorreria apenas um minuto depois, quando Gascoigne justificou não apenas sua presença na Euro 1996, mas toda a relação de amor que os compatriotas haviam nutrido por ele na Copa do Mundo de 1990.

Quando o relógio marcava 34 minutos, Seaman repôs a bola após uma falta na área. O chute encontrou Teddy Sheringham na intermediária adversária. O atacante dominou e ajeitou para Darren Anderton na esquerda. O camisa 11 foi inteligente ao já executar um tapa de primeira, por elevação. Encontrou Gascoigne na entrada da área da Escócia. A bola chegou mansa, quicando, pedindo para ser acariciada. Foi então que o craque assinou sua obra-prima. Gazza não precisou nem dominar: aplicou um lençol sobre Colin Hendry de primeira. O raciocínio foi tão rápido quanto a canhota foi habilidosa. E aquele drible mágico merecia um desfecho sublime. Foi o que aconteceu quando, sem deixar a bola cair, Gazza já emendou o chute de direita e mandou no cantinho de Andy Goram. Golaço. O apogeu do camisa 8. Um gol que, de certa maneira, serviu de divisor de águas à Inglaterra na Eurocopa.

O detalhe é que o espetáculo não terminou com a bola nas redes. Não. Durante os anos 1990, as comemorações tinham muito mais importância no jogo. Eram um momento a mais que você parava para assistir. Gascoigne apresentou aquele outro lado de sua personalidade, galhofeiro. Gazza deitou no gramado e esperou com a boca aberta, os braços estendidos. Ali, voltava para Hong Kong e se sentava na tal cadeira do dentista presente na noitada. Os companheiros o abraçaram, até que pegaram as garrafas de água e jogaram um goró bem mais saudável na garganta do meia. Estava feita sua desforra. A convocação tinha sido mais que justificada. E o carinho prevaleceria muito além da carreira do craque ou das controvérsias fora do campo.

“No ônibus para Wembley, disse aos rapazes que deveríamos fazer a comemoração da cadeira do dentista”, contou Gascoigne, à FourFourTwo. “Eu tive ótimo tempo de bola no gol. Vi Colin Hendry entrando, então eu mandei sobre sua cabeça e chutei. Foi puro instinto. Treinava com Andy Goram todos os dias, então sabia como batê-lo. Sabia que tinha que chutar rasteiro. Meu Deus, a sensação quando marquei foi magnífica! Sou tão feliz por ter anotado aquele gol…”.

Quem também relembrou foi Anderton, autor da assistência: “Passei para Gazza e, assim que a bola entrou em seu caminho, foi um pouco em câmera lenta. Pensei ‘chuta, chuta’, mas ele deu o chapéu e isso foi simplesmente mágico. Quando a bola desceu, você sabia que era gol, era o gol que ele sonhou durante todo o verão. Marcar contra Andy Goram, um de seus melhores amigos, significou muito para ele certamente. Era mágico e ele respondeu as críticas com a comemoração. É disso que se trata Gazza, um gênio. Foi surreal. Foi o início do campeonato para nós, um momento muito especial. O alívio pela vitória era imenso, não só para os jogadores, mas também para a torcida, para todos. Mudou tudo o que aconteceu naquele verão. Você não pode subestimar esse lance”.

Já Sheringham complementaria ao Mirror: “Nunca vou me esquecer do Gazza quando ele se levantou. Ele perguntou ao Andy Goram por que ele tinha se dado ao trabalho de pular para tentar defender a bola! Então me disse: ‘Onde foi o Colin Hendry? Ele saiu para buscar uma torta para mim?’ Foi um ótimo momento”. Sheringham também foi quem puxou a fila para jogar água na boca de Gascoigne: “A comemoração foi perfeita. Ela deixou o clima leve, todas as dúvidas pararam. Poderíamos rir do que tinha acontecido. Essa é a mentalidade inglesa de rir de nós mesmos, foi ótimo tirar sarro disso. Quando ele marcou, não surpreendeu nenhum de nós. Gazza era especial – sem dúvidas, o mais talentoso com quem joguei”.

A camisa usada por Gascoigne no lance ficaria com McCoist, seu companheiro no Rangers. Segundo o próprio atacante, na saída para o intervalo, Gazza jogou o uniforme do primeiro tempo sobre McCall, outro amigo de clube, e disse: “Avise Coisty que ele pode ficar com a do segundo tempo”. Seria a histórica. McCall relembra que, quando McCoist chegou ao ônibus com a camisa depois do clássico, ele se enfureceu com o atacante. “Eu disse que era uma vergonha. Era o gol que provavelmente tinha nos tirado do torneio. Nunca teria pegado, especialmente depois do gol”, recontaria McCall, à BBC, brincando com o momento. “Ally me disse que eu estava com ciúmes. Então peguei a camisa do primeiro tempo na minha bolsa e disse que era a camisa real, a que ele jogou e não marcou”.

Gazza finaliza com Hendry no chão

A Inglaterra venceu a Escócia por 2 a 0. Depois, pegou ainda mais embalo ao golear a Holanda por 4 a 1 – com uma atuação de gala de Gascoigne, numa vingança pelas Eliminatórias de 1994. Selada a classificação para as quartas de final, o time derrotou a Espanha nos pênaltis por 4 a 2. Gazza desta vez assumiu a responsabilidade e converteu o último tiro. A frustração ficou de novo para a semifinal, de novo contra a Alemanha, de novo com empate por 1 a 1, de novo na marca da cal. Gascoigne cumpriu sua parte e converteu a quinta cobrança dos Three Lions, ainda que tenha perdido uma grande chance com bola rolando. O problema seria nas alternadas, quando o fardo do erro recaiu sobre as costas de Gareth Southgate – o mesmo que se reencontrará com os escoceses em Wembley nesta sexta.

Em tempos nos quais os clamores pela independência da Escócia andavam fortes, há quem jure que o golaço de Gascoigne arrefeceu tal anseio e permitiu que o Reino Unido se preservasse. Uma vitória escocesa poderia inflamar o separatismo. Na época, Gazza virou um símbolo tão grande que chegou a participar de eventos pela integração europeia representando o país e até mesmo trocou cartas com o primeiro ministro John Major. Além do mais, mesmo como carrasco, permaneceu no Rangers e ajudou os Teddy Bears a faturarem mais um título escocês. Sua saída foi mais motivada pelas provocações sectárias ao Celtic, que chegaram a render ameaças de morte do IRA contra o meio-campista. Ele permaneceria em Ibrox até março de 1998, quando já não atravessava a melhor forma e acabou assinando com o Middlesbrough.

Apesar disso, Gascoigne ainda era um nome intocável nas convocações da Inglaterra. Permaneceu como referência técnica do time durante toda a preparação à Copa do Mundo de 1998, conquistando o Torneio da França em 1997. O problema viria às vésperas da convocação, quando os tabloides divulgaram fotos de meses antes, em que o craque aparecia aproveitando a noite com amigos. As imagens pesaram a Glenn Hoddle, que decidiu não convocá-lo ao Mundial. A relação com o treinador, que já não era tão próxima, terminou num ataque de fúria de Gazza. Ele nunca mais vestiria a camisa da seleção inglesa, mesmo ainda sendo aventado antes da Copa de 2002, por algumas boas atuações no Everton.

Os últimos anos de carreira de Gascoigne e sua vida fora do futebol passam longe daqueles lampejos de craque que se viam em campo. O veterano atravessou os anos sendo consumido pelo alcoolismo e acumulando imbróglios. Chegou a ser detido por agressões e por dirigir embriagado. Também foi internado por suas questões mentais. Virou uma lembrança no passado ainda em vida. Mas essa lembrança segue vivíssima entre os torcedores ingleses. E é antes de um novo encontro com a Escócia pela Eurocopa em Wembley, pela segunda rodada da fase de grupos, que a imagem mais empolgante de Gazza volta à tona.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo