Eurocopa

A Bélgica reencontra a Itália, a quem despachou em suas melhores campanhas na história da Euro

Bélgica se deu melhor contra os italianos para chegar à semifinal em 1972 e à decisão em 1980

Em sua história na Euro, a Bélgica tem algumas boas lembranças dos confrontos contra a Itália, adversária desta sexta-feira pelas quartas de final da atual edição. Em suas duas campanhas mais marcantes na competição, os Diabos Vermelhos deixaram a Azzurra pelo caminho. Primeiro em 1972, quando despacharam a então campeã europeia e vice mundial em jogos de ida e volta rumo à fase final do torneio, no qual terminariam em terceiro jogando em casa. Depois, em 1980, quando a primeira grande geração do país segurou o 0 a 0 em Roma contra os anfitriões e avançou à final, na ocasião que prenunciou o decênio de destaque do futebol belga no cenário internacional.

1972

Detentora do título europeu vencido em casa em 1968 e vice-campeã mundial no México em 1970, a Itália do técnico Ferruccio Valcareggi passou sem sustos por seu grupo eliminatório da Eurocopa de 1972, garantindo a vaga com um jogo de frente e terminando invicta numa chave difícil com Suécia, Áustria e Irlanda. Diante de tudo disso, era apontada como favorita destacada no confronto em ida e volta pelas quartas de final contra a Bélgica – ainda que o adversário vivesse momento de ascensão em seu futebol e tivesse eliminado com autoridade Portugal, Escócia e Dinamarca em seu Grupo 5 na etapa anterior.

No primeiro jogo, disputado no San Siro em 29 de abril de 1972, a Itália pretendia conquistar uma vitória tranquila para levar uma vantagem administrável à partida de volta em Bruxelas. Sendo assim, Valcareggi apostou no peso da experiência: escalou nove titulares da final do Mundial no México, levando a campo um time com oito atletas de 28 anos ou mais. Internazionale e Cagliari, detentores dos dois últimos scudetti, formavam a base da equipe, cedendo quatro nomes cada. Uma Azzurra de força inquestionável.

Causio disputa a bola com Dockx

As duas únicas alterações em relação ao time da final do Mundial mexicano eram as entradas do volante Gianfranco Bedin e do centroavante Pietro Anastasi nas vagas de Mario Bertini e Roberto Boninsegna. Enrico Albertosi seguia no gol, atrás de uma defesa com Tarciso Burgnich, Pierluigi Cera, Roberto Rosato e o capitão Giacinto Facchetti. No meio-campo, ainda havia Giancarlo De Sisti e Alessandro Mazzola. Angelo Domenghini era o “tornante” pela direita. E, refeito de fratura, o craque Luigi Riva era nome certo no ataque.

Mas a Bélgica também já contava com seus nomes tarimbados: eram oito os titulares da última Copa mantidos na equipe. E a base também era formada por dois clubes, cedendo quatro atletas cada: o Anderlecht, vice-campeão da Copa das Cidades com Feiras em 1970, e o Standard Liége, que recentemente havia enfrentado a Inter nas quartas de final da Copa dos Campeões e caído apenas nos gols fora de casa, depois de vencer em seu estádio por 2 a 1. A Azzurra era a favorita, mas os Diabos Vermelhos prometiam endurecer.

Sob o comando do experiente Raymond Goethals, a equipe belga contava com o bom Christian Piot no gol. Georges Heylens e o novato Maurice Martens eram os laterais. A zaga, protegida pelo volante Jan Verheyen, tinha a dupla formada por Erwin Vandendaele e Jean Thissen. A criação no meio-campo era tarefa para os dinâmicos Jean Dockx e Wilfried van Moer, preparando os contra-ataques puxados pelo ponta-direita Léon Semmeling e concluídos pelo craque e capitão Paul van Himst e pelo goleador Raoul Lambert.

De início surpreende a postura segura do time belga, tocando a bola com calma no meio-campo, indiferente à torcida local, enquanto a Itália se mostra um tanto cautelosa em excesso, com Bedin se limitando a vigiar os passos de Van Moer e De Sisti muito recuado. Quando a Azzurra consegue criar suas chances de gol, quem aparece brilhantemente é Piot. Com reflexos impressionantes, o goleiro dos visitantes espalma para escanteio um belo voleio de Riva aos 23 minutos e um chute forte de Mazzola de fora da área aos 41.

Na área italiana, quem usa a mão é Rosato para cortar um chapéu de Van Himst. Mas o árbitro búlgaro Petar Nikolov faz vista grossa e não cede aos apelos belgas de pênalti. Na etapa final, a Itália volta com o estreante Franco Causio no lugar de Domenghini, mas é a Bélgica que consegue duas chances claras de abrir o placar, com Cera travando a finalização de Van Himst e Albertosi salvando o chute de Dockx. Do outro lado, nos minutos finais, Riva ainda obriga Piot a mais uma grande intervenção, garantindo o 0 a 0.

O diário romano L’Unità não poupou críticas a Valcareggi e ao futebol “de resultados” da Azzurra que, em vez disso, entregou “um 0 a 0 paupérrimo, desanimador e esquálido” diante de um time adversário que, segundo a publicação, conseguiu quebrar o ritmo do jogo e enervar os italianos. Mazzola confirmava esse último comentário ao fim do jogo: “Nós da Inter sabíamos algo sobre esses belgas. Sua maneira de se defender é irritante. Eles tentam congelar o jogo tocando a bola pelo chão”, disse o camisa 10 da Nazionale.

Já a Gazet von Antwerpen escreveu que os italianos “ficaram presos na teia armada pelos belgas”. “Na verdade”, comentou o jornal, “nossos compatriotas jogaram mais à italiana que os italianos e devem o empate sem gols a isso”. A publicação ainda lembrou que o resultado poderia ter sido ainda melhor para os visitantes caso o árbitro búlgaro tivesse apitado o pênalti no toque de mão de Rosato dentro da área ou se Albertosi não tivesse espalmado por sobre o travessão o chute de Dockx já nos minutos finais.

Para a partida de volta em Bruxelas, duas semanas depois, Valcareggi fez quatro modificações na Azzurra: Bertini e Boninsegna retornaram ao time nas vagas de Bedin e Anastasi, enquanto Rosato e Domenghini cederam seus lugares a Luciano Spinosi e Romeo Benetti. Pelo lado belga, Goethals (que foi expulso do banco em Milão na metade do segundo tempo) levou a campo praticamente a mesma escalação, apenas entrando Léon Dolmans na lateral no lugar do lesionado Martens, o que já havia ocorrido durante o primeiro jogo.

Em vez de Heysel, a federação belga mudou o local do jogo para o estádio do Anderlecht em Parc Astrid, de menor capacidade, mas com a torcida mais próxima dos atletas. A Itália começa o jogo tentando pressionar, mas esbarra em seu próprio sistema de marcação individual, que segura seus jogadores no campo de defesa. Além disso, Mazzola faz exibição discreta, deslocado para a ponta direita. Assim, aos poucos os belgas vão recuperando o controle do meio-campo e logo chegam ao primeiro gol da partida.

Os belgas celebram o gol de Van Moer em Parc Astrid

São 23 minutos de jogo quando Semmeling apanha o rebote de uma bola rechaçada pela defesa da Azzurra, tenta a jogada individual para cima de Facchetti e leva um tranco do capitão italiano. O árbitro austríaco Paul Schiller marca falta, que o próprio ponteiro levanta na área. O baixinho Van Moer, na segunda trave, sobe mais que os gigantes da retaguarda adversária e supera um estático Albertosi com uma cabeçada fulminante, para o delírio do público local. A Bélgica começa a ficar bem perto das semifinais da Euro.

Van Moer, porém, não retorna para a etapa final: ao levar um pontapé de Bertini, tem fratura da fíbula direita constatada no intervalo. Odilon Polleunis, outro remanescente da Copa de 1970, entra em seu lugar. Na Itália, Bertini também sai, mas por motivos táticos: entra o estreante Fabio Capello, com Benetti recuando para a cabeça de área. Mas os belgas voltam pressionando e têm uma oportunidade clara aos 25 minutos, quando Dockx é agarrado e jogado ao chão por Cera, mas o árbitro ignora a penalidade.

De todo modo, o segundo gol acaba vindo um minuto depois: Dockx recupera uma bola em sua própria intermediária, arranca e lança Lambert no lado direito do ataque. O centroavante se livra de Burgnich e levanta a bola para a área, onde Van Himst, mesmo marcado por Spinosi, consegue escorar de primeira para as redes, pegando Albertosi no contrapé. Um belo gol que deixa os belgas ainda mais próximos da fase final do torneio, enquanto uma Itália inoperante e sem poder de reação empalidece aos poucos.

Há ainda, porém, um último suspiro à Azzurra. Aos 37 minutos, Capello é derrubado na área pelo lateral Heylens e Riva converte o pênalti. Mas nos minutos finais, quem se mostra mais perto de marcar de novo são os belgas, que têm outra penalidade negada pela arbitragem quando Spinosi aterra Van Himst. Ao apito final, consumado o resultado histórico de 2 a 1 e a classificação da Bélgica às semifinais, os comandados de Raymond Goethals se abraçam, enquanto a torcida que lotou o estádio Parc Astrid exulta.

“Naufrágio ‘azzurro’ em Bruxelas” foi a manchete do L’Unità sobre a partida, destacando ainda a “precariedade” de uma Itália “sem ideias e deficiente sob o ponto de vista atlético”. A imprensa belga, por sua vez, comemorou a “noite inesquecível” em que sua seleção varreu os campeões europeus, ainda que o brilho da vitória tivesse sido um pouco ofuscado pela fratura de Van Moer – que ficaria de fora da fase final da competição, a ser disputada justamente em solo belga dali a quase exatamente um mês.

Na semifinal em Antuérpia, a Bélgica sem seu meia-armador perderia de 2 a 1 para uma Alemanha Ocidental em que despontava uma geração vencedora liderada por Franz Beckenbauer. Gerd Müller balançou as redes por duas vezes antes de Odilon Polleunis descontar no fim. Mas ainda seria concedida aos anfitriões a chance de sair de cabeça erguida, na decisão de terceiro lugar em Liége contra a Hungria, batida pela União Soviética na outra semifinal. A vitória por 2 a 1, gols de Lambert e Van Himst, seria um marco.

1980

Oito anos depois, italianos e belgas voltariam a se encontrar num jogo valendo a passagem de fase numa Eurocopa. Desta vez, a fase final do torneio teria oito seleções divididas em dois grupos de quatro equipes e seria sediada na Itália, a primeira anfitriã a não precisar jogar as Eliminatórias, graças ao novo formato. A Bélgica, por sua vez, precisou vencer uma chave muito equilibrada com outras quatro equipes (Áustria, Portugal, Escócia e Noruega), arrancando da metade para o fim da campanha com quatro vitórias seguidas.

Essa arrancada belga na reta final das Eliminatórias teve como figura inspiradora exatamente um veterano da campanha de 1972: Wilfried Van Moer, que retornado à seleção após uma ausência de quatro anos e meio ao ser chamado pelo novo técnico Guy Thys para o duelo crucial contra Portugal em Heysel. Aos 34 anos e defendendo o pequeno Berigen, ele seria uma das atrações dos Diabos Vermelhos na primeira participação da seleção numa grande competição desde a Euro disputada em casa oito anos antes.

A sólida equipe de Guy Thys contava com uma base bem definida. O goleiro Jean-Marie Pfaff, tão excepcional quanto espalhafatoso, comandava uma defesa firme, com o líbero Walter Meeuws, o central marcador Luc Millencamps e os laterais Eric Gerets e Michel Renquin. No meio, além de Van Moer, o capitão Julien Cools e o versátil René Vandereycken completavam o trio. Já na frente o astro François Van Der Elst combinava num triângulo ofensivo móvel com o forte Jan Ceulemans e o ágil goleador Erwin Vandenbergh.

Na Itália, quem dava as cartas era Enzo Bearzot, treinador que chegou à seleção como adjunto do veterano Fulvio Bernardini em setembro de 1975 e acabou assumindo o controle total com a saída deste em junho de 1977. Os dois comandaram um processo de renovação da equipe após a eliminação do time de Ferruccio Valcareggi na Copa do Mundo de 1974 ainda na primeira fase. No Mundial da Argentina, em 1978, a Azzurra apresentou um futebol surpreendentemente solto, corajoso e terminou na quarta colocação.

Dois anos depois, no entanto, o cenário já era outro. A seleção voltava a exibir um estilo mais cauteloso e chegava à Eurocopa da qual era anfitriã com o escândalo do Totonero ainda recente, o que criou um ambiente bastante hostil de torcida e imprensa para com Bearzot e os atletas. E foi sob vaias que a Azzurra estreou na competição, ao parar num travado 0 a 0 com a Espanha no San Siro pelo Grupo 2, no mesmo 12 de junho em que Bélgica e Inglaterra empatavam em 1 a 1 no estádio Comunale de Turim.

Três dias depois, uma dura vitória por 1 a 0 sobre a Inglaterra em Turim mantinha a Itália na briga. Porém, a Bélgica chegava à rodada final em vantagem no número de gols marcados após bater a Espanha por 2 a 1 em Milão. Os resultados permitiam à equipe de Guy Thys jogar pelo empate no jogo decisivo contra a Azzurra no Estádio Olímpico de Roma para avançar direto à final – não houve semifinais naquela edição da Euro. Com ingleses e espanhóis fora da briga, o eliminado daquele confronto disputaria o terceiro lugar.

Alegria de François Van Der Elst e decepção de Causio, Bettega e Tardelli

No dia 18, Bearzot escalaria a mesma equipe titular que vencera a Inglaterra: Dino Zoff no gol, Gaetano Scirea de líbero, Claudio Gentile como lateral-zagueiro pela direita, Fulvio Collovati como “stopper” e Gabriele Oriali deslocado para a lateral-esquerda. No meio, Romeo Benetti (um dos remanescentes do duelo de 1972) tinha a companha de Marco Tardelli e Giancarlo Antognoni. Na frente, Franco Causio – o outro a atuar no jogo de oito anos antes – formava o tridente com Roberto Bettega e Francesco Graziani.

A grande ausência na Azzurra era Paolo Rossi, o goleador do Perugia suspenso por dois anos por envolvimento no Totonero e que, por isso, acabou fora da lista da Euro. Se não teve nenhuma baixa considerável na convocação, a Bélgica ficaria sem o atacante Vandenbergh para enfrentar a Itália. A versão oficial falava em problemas físicos, mas especulava-se que se tratava de uma alteração tática de Guy Thys, que escalaria o meia Raymond Mommens procurando preencher o setor e bloquear as iniciativas italianas.

Quando a bola começa a rolar, a Bélgica se revela um bloco monolítico que desorienta uma Itália sem “punch”, que, sem conseguir furar o bloqueio adversário, arrisca em chutes de longe e tenta cavar faltas perto da área – mas as cobranças saem sem direção. Outra armadilha dos belgas para inutilizar as tentativas de ataque da Azzurra é a linha de impedimento, expediente desenvolvido no país e utilizado desde o início da partida: já aos cinco minutos Graziani é lançado por Bettega, mas se vê sem condições de jogo.

Mesmo jogando pelo empate, a Bélgica ainda consegue vez por outra se lançar à frente e levar muito perigo: um chute de Renquin no rebote de um escanteio é salvo com dificuldade por Zoff, que logo em seguida também é chamado a intervir para deter uma finalização de Mommens. O goleirão italiano ainda assiste aliviado a Van Der Elst perder ótima chance aos 28 minutos. Logo depois, as coisas ficam ainda mais complicadas para os donos da casa quando Antognoni deixa o campo lesionado num lance com Vandereycken.

Sem seu principal cérebro, Bearzot faz entrar o lateral Giuseppe Baresi. Mas a Itália perde muito em criatividade, chegando apenas em lances de bola parada. Na volta do intervalo, o atacante Alessandro Altobelli entra no lugar de Oriali, mas é a Bélgica que ameaça primeiro, com Van Der Elst. Logo depois, a Azzurra reclama pênalti num toque de mão de Millencamps, mas o árbitro português Antônio Garrido apita falta quase no limite da área. No fim, com mais alguns milagres de Pfaff, a Bélgica segura o 0 a 0 e avança.

A classificação histórica mostrava que a equipe de Guy Thys sabia ser competitiva, variando de estilo de acordo com o adversário e as circunstâncias de cada jogo. Havia sido ofensiva contra ingleses e espanhóis, enquanto, diante dos italianos, precisando só empatar, conseguiu o ponto que quis. Já a Azzurra seguiria para um aborrecido empate em 1 a 1 contra a Tchecoslováquia na decisão do terceiro lugar, resultado que implicaria numa quase interminável disputa de pênaltis, na qual os tchecos prevaleceriam.

Na final, porém, o sonho do título belga morreria nos minutos finais e outra vez aos pés de uma forte Alemanha Ocidental. O Nationalelf abriu o placar aos dez minutos com Horst Hrubesch e a Bélgica empatou num pênalti cobrado por Vandereycken na metade da etapa final. Na última volta do ponteiro, Karl-Heinz Rummenigge cobrou escanteio e o tanque Hrubesch surgiu de novo para fazer 2 a 1 de cabeça e dar o título aos alemães. Aquela Euro, no entanto, marcaria o início da década de ouro dos Diabos Vermelhos.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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