Entidades místicas do futebol europeu: a zebra enganadora

Você, que acompanha nossa série “Entidades Místicas do Futebol”, sabe que estamos na segunda temporada, tratando das lendas do futebol europeu. Faremos, porém, uma pausa para tratar de futebol olímpico nesta edição extroardinária. Este texto foi inicialmente enviado na Newsletter da Trivela, na última sexta-feira. Assine agora e não perca nenhuma edição, toda sexta no seu e-mail!
As críticas estavam fortes sobre a competitividade do campeonato. “Virou um torneio de poucos times”, bradava o técnico de um time pequeno, que via seu orçamento se tornar uma minúscula fração do que gastavam os clubes endinheirados.
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A discussão pega fogo e os programas esportivos do país debatem com preocupação a falta de equilíbrio da liga. Nas ruas, no metrô, nos cafés, o assunto mexe com o público. O que fazer com a liga? Se ventilam mudanças que igualem mais os rendimentos dos clubes.
É neste momento que convenientemente surge um dos melhores e mais convenientes exemplos desse tipo: a zebra. Aquele título improvável, considerado impossível, que vira quase uma lenda depois de alguns anos. Alguém imediatamente lembra daquele time que venceu os favoritos e ficou com a taça, deixando um gigante para trás.
Alguém lembra um título no meio dos anos 1990 de um time que nem está mais na primeira divisão, com um cara que virou um grande artilheiro do país depois. Ou então aquele título quase na virada da década em outro país de sangue latino, com um time com brasileiros que depois foi frequentar também o porão da segunda divisão.
Ah, mas e quando o artilheiro brasileiro detonou o maior gigante daquele outro país acostumado a depenar os rivais mais pobres. E aquele outro país com a capital mais desejada das luas de mel, que teve uma série de campeões diferentes, ano após ano – mas que atualmente só tem um time brincando com a taça. O país da liga bagunçada e da comida boa nem entra na discussão, afinal, por lá só dá zebra – mas só por causa das cores, porque a zebra, por lá, é gigante e tem outro significado.
A zebra é a salvaguarda argumentativa de alguns clubes para manter tudo como está – e tornar cada vez mais difícil que ela aconteça de novo. Ironicamente, esta entidade mística costuma ser usada até por países latino-americanos onde o problema ainda não tem a mesma proporção, mas já criou um abismo entre os times mais ricos e o resto.
A zebra, ah, a zebra é uma entidade mística que se torna um grande meio de mostrar que está, no fim, tudo bem. É como uma medalha olímpica conquistada por uma pessoa excluída a vida inteira, quase sem oportunidades, que foi para o esporte por um projeto social, mas por ao conquistar a medalha de ouro olímpica é usada como um exemplo de meritocracia.




