Europa

Em 1984, a poderosa Juventus bateu o ascendente Porto para conquistar a Recopa Europeia

A Recopa Europeia de 1984 colocou frente a frente dois clubes que se consagrariam como os melhores do continente nos anos seguintes. Os mesmo que começam a se enfrentar nesta quarta-feira pelas oitavas de final da Champions League. A Juventus, treinada por Giovanni Trapattoni e comandada em campo por Zbigniew Boniek, Paolo Rossi e Michel Platini, derrotou o Porto que derrotaria o Bayern de Munique pelo título da Copa dos Campeões em três anos.

A Juventus havia conquistado quatro vezes a Serie A com Trapattoni. Não dava para dizer que não era um grande time. Mas deu um salto para brigar também no continente com o mercado da temporada 1982/83, em que contratou dois importantes reforços, destaques da Copa do Mundo da Espanha. Eles até poderiam ter se enfrentado na disputa do terceiro lugar, mas Platini ficou no banco, enquanto Boniek deu assistência para o primeiro gol da sua equipe na vitória por 3 a 2.

Boniek era um velho conhecido. Pelo Widzew Lodz, havia eliminado a Juventus na segunda rodada da Copa da Uefa de 1980/81. Seria contratado pela Roma, mas houve um problema com o pagamento. Em Turim, juntou-se a Platini e a muitos campeões do mundo, como Zoff, Gentile, Cabrini e Tardelli. E Paolo Rossi. A Juve havia rolado os dados ao assinar com o atacante ainda suspenso pelo esquema de manipulação de resultados. Após o seu estrondoso sucesso na Espanha, agora tinha um dos artilheiros mais cobiçados do futebol europeu.

O esquadrão perdeu o scudetto para a Roma em sua primeira temporada junto, mas conquistou a Copa Itália e chegou à final da Copa dos Campeões, derrotado pelo Hamburgo. Mas em 1983/84, recuperou a coroa nacional e foi até o fim na Recopa Europeia. Tentaria conquistar seu segundo título europeu, depois da Copa da Uefa de 1977.

Se a Juventus preparava-se para empilhar conquistas na década, o Porto anunciava-se à Europa. O divisor de águas em sua história foi a eleição de Pinto da Costa para a presidência. Quando o longevo dirigente, ainda à frente dos Dragões, chegou ao poder, em 1982, o Porto tinha sete títulos portugueses, contra 14 do Sporting e 23 do Benfica. Agora, tem 29. Antes de atingir o sonho de jogar a final da Copa dos Campeões, houve um teste na Basileia contra a Juventus. A classificação à Recopa veio com o vice-campeonato da Taça de Portugal porque o Benfica fez a Dobradinha e disputou o torneio prioritário.

“Foi uma das finais mais bem disputadas. A Juventus era o top das equipas, nós éramos principiantes. Fomos para uma final, praticamente sem nos conhecerem. Foi a partir daí que o Porto começou a ser conhecido”, afirmou ao Mais Futebol o meia Jaime Magalhães, um dos cinco jogadores que enfrentaram a Velha Senhora na Suíça e também o Bayern de Munique em Viena. Os outros foram João Pinto, Eduardo Luís, António Sousa (que saiu para o Sporting e voltou) e António Frasco. Pilares de 1987 como Paulo Futre e Rabah Madjer chegariam pouco depois para qualificar ainda mais essa base.

Aquela foi uma temporada curiosa no futebol europeu: seis equipes britânicas chegaram às semifinais das competições europeias. E quatro perderam. Uma delas foi o Manchester United de Ron Atkinson, autor do melhor trabalho em Old Trafford entre a aposentadoria de Matt Busby e a chegada de Alex Ferguson. A vitória da Juventus foi dramática. Empate por 1 a 1 na Inglaterra e o mesmo placar perdurava em Turim, após Norman Whiteside empatar, aos 25 minutos do segundo tempo. Nos acréscimos, Paolo Rossi completou de canhota um desvio que o procurou dentro da área para avançar os italianos.

No outro lado da chave, Fernando Gomes marcou no primeiro jogo, e Vermelhinho no segundo, para eliminar o atual campeão da Recopa: o Aberdeen. Com Alex Ferguson, o clube escocês havia derrotado o Real Madrid na final anterior e caminhava para mais uma temporada de sucesso sem precedentes, com os títulos do Campeonato Escocês, da Copa da Escócia e da Supercopa da Uefa – ganhando do mesmo Hamburgo que havia batido a Juventus na Copa dos Campeões.

O Porto era comandado por José Maria Pedroto, um lendário treinador dos Dragões, campeão tanto como jogador, na década de cinquenta, quanto como treinador. Mesmo sabendo que estava doente, havia retornado ao clube a pedido de Pinto da Costa, mas o câncer que o acabaria vitimando em janeiro de 1985 voltou a dar sinais durante aquela temporada. Foi afastado por motivos médicos em dezembro de 1983, substituído por António Morais. Entre outros motivos, os jogadores portugueses queriam o título da Recopa para dedicá-lo ao seu mestre. O nome de Pedroto foi gritado por motivação nos vestiários.

Vignola, porém, tinha outros planos. Aos 12 minutos, fez jogada individual pela intermediária, abriu para a esquerda e, da entrada da área, acertou um belíssimo chute cruzado de canhota para abrir o placar. O Porto reagiu ainda no primeiro tempo, com uma batida de média distância de António Sousa que pegou no morrinho artilheiro e enganou o goleiro Stefano Tacconi.

A Juventus voltou a ficar à frente, aos 41 minutos, com um gol polêmico de Boniek. O Porto reclama que houve falta do polonês em cima de João Pinto naquele lance. Boniek recebeu o lançamento dentro da área, superou Pinto em todos os sentidos e tocou na saída do goleiro para fazer 2 a 1. Segundo Magalhães, “estava tudo feito para a Juventus ser campeã” e a vontade dos seus colegas era arrancar a cabeça do árbitro. Eduardo Luís foi até mais claro: “Fomos prejudicados por uma arbitragem parcial, que protegeu a equipe da Juventus”.

Quem ficou muito irritado com a situação foi o goleiro Zé Beto, que peitou o bandeirinha ao fim do jogo e acabou sendo suspenso de torneios da Uefa por um ano – o que lhe fez perder a Eurocopa de 1984. Relatou o Record: “Mal o jogo terminou, quando o trio de arbitragem se dirigia para o local da entrega da Taça, Zé Bento entrou de pé em riste sobre o fiscal de linha, que se intrometeu entre o jogador português e o árbitro. Agarrado de imediato pelos colegas, libertou-se e aplicou um pequeno ponta no mesmo fiscal de linha. Novamente afastado pelos colegas, investiu uma terceira vez sobre o fiscal de linha e este enfiou o pau da bandeirola na barriga do guardião português, o qual, furioso, arrancou-lha da mão e lançou-a para longe”.

Zé Beto, que morreu em um acidente de carro em 1990, alega que só foi falar com o trio de arbitragem, quando o auxiliar virou e espetou sua barriga com a bandeira. “Se fosse uma faca, tinha furado minha barriga!”, exclamou. Tacconi fez uma grande defesa para segurar a vitória da Juventus, ainda no primeiro tempo, e a Juventus também criou uma série de chances para ampliar a sua vantagem na etapa final.

Mais experiente, a Juventus emendaria a sua terceira final europeia no ano seguinte – nos anos noventa, conseguiu quatro, sendo três da Champions League – e conquistaria seu primeiro título da Copa dos Campeões, mesmo que sob tristes circunstâncias pela Tragédia de Heysel, quando as ações irresponsáveis dos torcedores do Liverpool causaram a morte de 39 torcedores do setor da Velha Senhora. Ao Porto, foi um primeiro aperitivo nos grandes palcos europeus. O prato principal viria três anos depois.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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