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Ekdal: “O futebol masculino precisa aprender com o feminino a ter uma maior aceitação dos gays”

O futebol é um esporte que raramente tem jogadores gays. Ao menos no masculino. São oito em toda a história, mas a maioria deles só revelou após o fim da carreira. Em um universo de milhares de profissionais e milhões de jogadores que já passaram pelo esporte, é um número ínfimo. O meio-campista sueco Albin Ekdal, da seleção sueca e da Sampdoria, comentou sobre a presença de homens gays no futebol e a homofobia, em entrevista à Aftonbladet.

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“É tarefa minha, sua e de todo mundo garantir que você não precise ser corajoso para revelar. Deveria ser simples e divertido dizer para as pessoas que você está apaixonado”, afirmou Ekdal.

“Eu não posso fazer mais do que receber bem todos no mundo do futebol. Nem você pode”, disse o jogador. “Mas se nós fizermos isso juntos, em todas as frentes, em todas as viagens de ônibus, em cada jogo fora de casa, em cada vestiário, isso em breve não será mais um problema”.

“Deveria ser óbvio que os gays podem ser abertos com quem está no futebol. Contudo, quase não existem gays, então temos um problema. E, portanto, acho que é hora de mudarmos isso”, afirmou ainda o jogador.

“Assim como na Suécia e no resto do mundo, há algumas pessoas que são um pouco homofóbicas. É assim em qualquer lugar. Parece tão óbvio que todos deveriam poder amar quem quiser, mas nem sempre é o caso”.

“A maioria das pessoas se comporta como devem, mas a homofobia ainda está ali. Os insultos como ‘bicha’ e outros ainda existem. Eu tenho certeza que existem [jogadores gays] nos vestiários ou salas de aula. Se eu fosse gay e ouvisse tudo isso, seria muito mais difícil sair do armário”, continuou o jogador. “Mesmo que você não tenha intenção de machucar ninguém, é importante pensar no que você diz”.

“No fim das contas, isso [homofobia] pode levar a muitos bons jogadores desistirem. Espero que não sejam muitos parando por causa disso, porque todo mundo deveria, obviamente poder jogar futebol independente de quem ama. Mas toda pessoa forçada a desistir causa uma perda dupla. Principalmente o indivíduo, mas também o futebol como um todo”.

O jogador foi perguntado se ele lembra como é estar apaixonado quando adolescente. “Sim, eu estou apaixonado pela mesma garota que me apaixonei na época. Nós estamos juntos desde que eu tinha 17 anos, então eu lembro bem”, contou. Ele acha que estar apaixonado inclusive contribui para ser um melhor jogador. “Sim, obviamente há uma harmonia diferente quando você está apaixonado. Uma segurança. Então, provavelmente contribui para você se tornar um jogador melhor, já que o amor te dá energia e alegria”.

“É direito de todo mundo poder amar quem quer que seja. Ninguém deveria sentir que precisa esconder ou se sentir envergonhado disso, deveria ser divertido. Eu realmente espero que fique melhor nesse aspecto. Seria ótimo para a sociedade se homens gays pudessem jogar sem correr nenhum risco por isso. Seria legal de ver também”, afirmou Ekdal.

Ao longo da história, só oito jogadores se declararam publicamente serem gays. Thomas Hitzsperger, em 2014, um ano depois da sua aposentadoria como jogador; David Texto, nos Estados Unidos, também só revelou ser gay depois de se aposentar. Robbie Rogers fez o mesmo, mas acabou voltando a jogar nos Estados Unidos (quando ele anunciou, jogava na Inglaterra e decidiu deixar os gramados). O francês Olivier Rouyer revelou ser gay 18 anos depois de ter pendurado as chuteiras. O sueco Anton Hysén, dilho de Glenn Hysén, que foi jogador do Liverpool, revelou ser gay enquanto jogava, mas estava na quarta divisão da Suécia. Por fim, o mais trágico dos casos: Justin Fashanu, inglês, que revelou ser gay em 1990 e se suicidou em 1998.

“São extremamente poucos. Ou há muitos, muitos mais que não querem revelar, ou eles já desistiram. Ambas as opções são igualmente ruins. Eu espero que possa haver um efeito dominó, que um se um ousar, outros venham depois e que em alguns anos seja completamente normal. É a minha esperança”, comentou Ekdal.

Para o meio-campista, o futebol masculino tem muito a aprender com o feminino nesse aspecto. “Nós temos muito que aprender delas nesse aspecto. Há obviamente uma maior aceitação. As mulheres provavelmente são mais espertas e mais civilizadas em grupos que os homens. Mas nós deveríamos aprender com elas como fazer isso, porque obviamente queremos que demonstrar seu amor seja tão aceito entre os homens como é entre as mulheres. Isso deveria afetar muito pouco o futebol, mas tristemente, esses problemas ainda estão aqui”.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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