Europa

Efeito Özil

Mesut Özil é uma figura ímpar dentro do futebol turco. Como ressaltado na última semana pelo amigo Pedro Venancio em sua coluna sobre a Alemanha, na maior parte das vezes, o meia é controvertido entre os próprios turcos. Muçulmano, membro da terceira geração de uma família que saiu de Devrek para se instalar em Gelsenkirchen, Özil é o filho pródigo que não voltou. Segundo o próprio jogador, sua disciplina em campo se assemelha à dos alemães, mas ele não deixa de ter a técnica e o controle de bola característicos dos turcos.

Qualquer feito de Özil ganha rapidamente as manchetes na imprensa turca. Suas grandes atuações não deixam de ser exaltadas, são provas de que o sangue turco triunfa no mundo do futebol. A admiração pela categoria do atleta, contudo, não o poupa das críticas. Vez ou outra, a dolorosa escolha de ter escolhido defender a sua pátria de nascimento, e não a de seus pais, é lembrada pelos turcos.

Não à toa, o meia foi o personagem central do último encontro com os alemães, em partida válida pelas Eliminatórias da Euro. Mesmo com a partida sendo realizada no Olympiastadion, em Berlim, a comunidade turca foi maioria no estádio, dada a grande colônia de migrantes presente na Alemanha.

O jogo, em si, não foi tão quente como o esperado. O time de Guus Hiddink acabou envolvido pelos donos da casa, que dominou amplamente a partida. Não fossem algumas de Volkan Demirel, a Nationalelf poderia sair de campo com um placar ainda mais elástico do que os 3 a 0 aplicados. E, para dor dos visitantes, Özil cumpriu as expectativas em seu entorno. Autor do segundo gol, saiu como um dos melhores em campo apesar das rispidez de alguns adversários, que deixaram claro antes da partida a reprovação quanto à escolha do jogador.

E se a opção de Mesut Özil ainda é um golpe forte às pretensões dos Ay Y?ld?zlar, ao menos gerou um movimento interno contrário nas seleções de base. Para não ter que conviver com novos exemplos de descendentes que se destacam por outras seleções, a federação turca tem intensificado a busca por prodígios longe de seu território. Apesar de praticado há décadas, o “caso Özil” reascendeu o recrutamento das novas gerações de descendentes.

Os maiores exemplos para esses garotos hoje são ídolos na seleção principal. Como também mencionado por Pedro Venancio, Nuri Sahin nasceu em Lüdenscheid, fez toda a carreira na Alemanha, mas não negou o chamado turco para a disputa do Mundial Sub-17 em 2005. Hoje, acumula mais de duas dezenas de convocações para a seleção principal. Assim como Sahin, os gêmeos Hamit e Halil Altintop quiseram defender a pátria de seus ancestrais. E, um pouco antes, os meias Ümit Davala e Y?ld?ray Ba?türk tornaram-se ícones do time que chegou ao terceiro lugar na Copa do Mundo de 2002, mesmo sendo alemães de nascimento.

Do time que recentemente foi eliminado nas etapas qualificatórias do Campeonato Europeu Sub-21, foram nada menos do que vinte “estrangeiros” convocados ao longo das dez partidas da competição. São atletas de sete nações diferentes, sendo treze alemães e os restantes nascidos na Suíça, Bélgica, Áustria, França, Inglaterra e Holanda.

Não fosse o sistema do torneio, que classifica apenas os seis melhores segundos colocados, a Turquia, segunda colocada no Grupo 2, poderia ter ido mais longe no torneio. Como prêmio de consolação, ao menos uma geração promissora que cresceu longe do país começou a ser reunida.

Dentre os mais notáveis está o meia-atacante Gokhan Tore, que integra a equipe sub-21 já aos 18 anos. Nascido na cidade de Colônia, na Alemanha, o jogador começou na base do Bayer Leverkusen, mas foi levado pelo Chelsea, onde conquistou a FA Youth Cup neste ano. Também na Inglaterra, o meio-campista Cem Karacan é titular absoluto do Reading, que disputa a Championship nesta temporada. E no Bayern de Munique II, o camisa 10 é Deniz Yilmaz, centroavante campeão da Euro Sub-17 de 2005 com os turcos.

A grande esperança do elenco sub-21, no entanto, fica depositada em Tunay Torun, de 20 anos. O atacante, avaliado em 1,5 milhões de euros, recusou um convite das seleções de base alemãs antes de chegar ao time sub-17 da Turquia. Nascido em Hamburgo, o jogador passou pelos dois principais clubes da cidade, o St. Pauli e o Hamburg, o qual defende desde 2006. Uma das revelações na última Bundesliga, se recupera de uma grave contusão que o deixou seis meses parado.

Além daqueles que são destaques em outros países da Europa, há também os que fazem o movimento de retorno. Alguns clubes turcos, inclusive, têm investido fortemente na repatriação de prodígios. O maior exemplo desta política é o Kayserispor, terceiro colocado na Super Lig. Em seu elenco, são quatro membros da seleção sub-21 nascidos longe da Turquia, sendo três deles titulares.

De todos os jogadores do Kayserispor, entretanto, o de história mais peculiar é Semih Aydilek. O atacante, nascido na Alemanha, começou no Eintracht Frankfurt, mas defendeu clubes da Escócia e da Inglaterra antes de ser contratado pelos Anadolu Y?ld?z?. Em nível nacional, por sua vez, esteve com a seleção turca sub-17, antes de chegar ao Mundial Sub-20 com a Nationalelf. Como ainda não completou 21 anos, o atleta ainda poderá escolher a nação que defenderá.

E, assim como aguardam que Aydilek faça sua escolha para o lado da terra de seus pais, os turcos continuam esperançosos com muitas outras promessas. No time nacional sub-19, brilham os gêmeos alemães Volkan e Haydar Cekirdek, ambos do Hansa Rostock, além do meia Engin Bekdemir, ex-PSV e que defende atualmente a base do Porto. Já no sub-17, chamam atenção Okan Derici e Hakan Calhanoglu, que inclusive passou pela Alemanha Sub-16. E se Özil nunca vestirá a camisa da seleção turca, a lição dada pelo meia parece muito bem assimilada pela federação local.

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Equipe Trivela

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