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Dinamarca e Holanda: dois sonhos na final da Euro feminina

Alemanha, França, Inglaterra, Suécia, até Noruega… o futebol feminino europeu tem algumas seleções que podem ser chamadas de tradicionais. Entretanto, a Eurocopa viu a queda de todas elas, uma após a outra. E possibilitou às seleções que ainda sonhavam com um lugar ao sol dar o passo adiante. Duas delas sonharam mais do que qualquer uma. Talvez por isso, decidirão a Euro feminina no próximo domingo, às 12h de Brasília, no Grolsch Veste de Enschede: Dinamarca e Holanda, ambas buscando um título inédito.

Pode-se dizer que a Dinamarca foi a primeira das “médias” a falar grosso na Euro. Afinal de contas, nas quartas de final superou uma situação adversa para fazer história contra a campeoníssima Alemanha: mesmo após tomar um gol precoce, em falha da goleira Stina Lykke Petersen, foi atrás, conseguiu o empate no começo do segundo tempo e alcançou, no fim, a virada que parecia inimaginável, derrubando hegemonia de 22 anos das germânicas, campeãs europeias ininterruptamente desde a Euro de 1995.

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Todavia, o jogo contra a Áustria (outra grande surpresa, eliminando a Espanha nos pênaltis) mostrou um nervosismo gigante de ambas as equipes. Principalmente nas finalizações. Do lado dinamarquês, Nadia Nadim, Katrine Veje e Pernille Harder tentavam alguma coisa; pela Áustria, a confiança era em Laura Feiersinger e Verena Aschauer. Todas elas até avançavam ao ataque, mas na hora de finalizar, quase sempre o resultado era desastroso.

Tais falhas nas finalizações podiam nem ter consequência, se o gol não tivesse demorado. Mas demorou, e vendo o tempo normal escorrer, tanto dinamarquesas quanto austríacas começaram a revelar tensão. E o jogo em Breda foi ficando mais nervoso, mais amarrado… numa palavra, ruim. Não impressiona que o 0 a 0 tenha ficado no placar, ao final dos 90 minutos – e dos 120 também.

Com duas “azaronas” tendo de encarar os chutes da marca do pênalti, ficava a dúvida: qual dos sonhos continuaria? O da Áustria, que poderia ser finalista logo em sua primeira participação numa Euro feminina? Ou o da Dinamarca, que mostrava disposição tática e poder de reação? Pois foi a goleira Petersen quem deu a resposta: após falhar nas quartas, a camisa 1 dinamarquesa respondeu com juros. Primeiro, viu Feiersinger mandar a bola longe do gol. Depois, defendeu todas as cobranças restantes das austríacas (Viktoria Pinther e Verena Aschauer).

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Com isso, a Dinamarca deu-se ao luxo de perder um chute (Sofie Pedersen), mas acertou outros três, fez 3 a 0 e garantiu a final – e a chance de ir além em relação à campanha da Euro 2013, quando alcançou as semifinais. Aliás, a chance de ir além em relação a seu retrospecto: cinco semifinais europeias alcançadas, cinco derrotas. A pressão foi exposta pelo técnico Nils Nielsen em duas frases: “Foi um jogo muito longo, até me sinto mais velho ao fim dele” e “Quando elas dormirem, toda a comissão técnica vai sair e beber um copo de cerveja. Só um, porque ainda não vencemos nada”.

Netherlands' forward Vivianne Miedema (3R) celebrates with  teammates after scoring a goal  during the UEFA Womens Euro 2017 football tournament semi-final match between Netherlands and England at the FC Twente Stadium, in Enschede on August 3, 2017. / AFP PHOTO / Daniel MIHAILESCU        (Photo credit should read DANIEL MIHAILESCU/AFP/Getty Images)

Nielsen faz bem. Até porque o outro sonho finalista da Euro feminina parece ainda maior. Se chegar entre as semifinalistas já parecia algo digno para a anfitriã Holanda, quando a Euro começou, o que se vê agora é uma seleção duplamente fortalecida. Psicologicamente, porque, na falta de motivos para alegria com o futebol masculino, os holandeses abraçaram as “Leoas Laranjas”. Estádios lotados para os jogos da seleção, audiências batendo recordes sucessivamente na televisão, torcedores em festa nas ruas.

E tecnicamente, porque a vitória contra a Suécia, pelas quartas de final, no sábado passado, já revelava uma equipe que sabia jogar com a bola nos pés. Graças, principalmente, a duas jogadoras: Shanice van de Sanden, sempre veloz pela direita, e Lieke Martens, cada vez mais isolada como a melhor jogadora da Euro em termos técnicos. No entanto, contra a Suécia, outras apareceram. Como Vivianne Miedema: enfim, a mais badalada jogadora holandesa colaborou decisivamente, fazendo seu primeiro gol numa competição importante.

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Ficava o gigante desafio: enfrentar a Inglaterra, algoz da Holanda nas semifinais da Euro 2009, com time mais experiente, atuando num campeonato melhor estruturado. Pois as holandesas, de novo, minoraram o peso da responsabilidade naturalmente: assim como haviam feito com as suecas, aguentaram a pressão adversária no começo da partida, começaram a reter a posse de bola e buscaram paulatinamente o ataque. Assim, novamente, Miedema abriu o placar.

Contando com a qualidade de Jodie Taylor, goleadora da Euro feminina, as inglesas foram à frente. Criaram chances. Talvez até merecessem o empate. Mas pararam numa atuação firme da dupla de zaga formada por Anouk Dekker e Stefanie van der Gragt – e se passassem delas, paravam em Sari van Veenendaal, se consolidando como melhor goleira da Euro, com apenas um gol sofrido. Enquanto isso, a Holanda esperava pela chance. E ela foi “fornecida” pela defesa inglesa: uma falha de Fara Williams no recuo deixou Daniëlle van de Donk livre para tocar na saída da goleira Siobhan Chamberlain e fazer 2 a 0. O jogo estava resolvido. No final, o terceiro gol, de Martens, só serviu para explodir o ambiente, com as reservas invadindo o gramado para comemorar com a autora.

A técnica Sarina Wiegman expôs o tamanho da confiança após o jogo: “Vamos rumo ao título”. De fato, a Holanda entra como favorita. Pelo fator casa, por já ter vencido a Dinamarca (1 a 0, na fase de grupos), por ter mais jogadoras decisivas. Todavia, um dos momentos em que as “Leoas” mais se viram atacadas em toda a campanha foi justamente ao vencer as dinamarquesas, quando Van Veenendaal saiu como o destaque da partida, tantas as bolas defendidas no segundo tempo.

A chance da revanche, para a Dinamarca se transformar numa nação vencedora como a vizinha Suécia. A chance que a Holanda tanto construiu, tijolo por tijolo, para popularizar de vez o futebol feminino no país. Dois sonhos. Só um deles virará realidade, na final de domingo.

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