Europa

Dez histórias que mostram um pouco mais por que o título do Trabzonspor é tão especial

O Trabzonspor encerrou um jejum de 38 anos e uma sina de seis vices com um desempenho excepcional, que honra a rica história do principal clube do interior da Turquia

Historicamente, o Campeonato Turco conta com os chamados “Três Grandes”. Besiktas, Fenerbahçe e Galatasaray se firmaram como potências desde os primórdios do futebol no país e dominaram os campeonatos locais por décadas, antes em Istambul e depois na nacional Süper Lig. A partir da década de 1970, contudo, os turcos adotaram o conceito de “Quatro Grandes”. O Trabzonspor fez por merecer a inclusão nesse seleto grupo. Conquistou seis títulos num intervalo de nove anos e mostrou como o esporte também poderia ser forte numa cidade do interior – menos que Trebizonda tivesse uma população que não chegava a 10% do total de Istambul, a centenas de quilômetros de distância.

A partir de 1984, muita gente poderia questionar a ideia de “Quatro Grandes”. O trio de ferro de Istambul continuou erguendo taças, mas o Trabzonspor lidou com um amargo jejum no Campeonato Turco. Foram 38 anos sem levar o troféu, incluindo seis vices. Por mais que a Tempestade do Mar Negro (como é apelidado o clube) vencesse diversas vezes a Copa da Turquia e se mantivesse como um importante competidor na Süper Lig, a seca na principal disputa reduzia seu status em âmbito nacional. Não reduziu, todavia, sua tradição e muito menos o fanatismo de sua torcida.

No último final de semana, enfim, o Trabzonspor conquistou o sétimo título no Campeonato Turco e reivindicou novamente sua grandeza. O gigantismo ao redor do clube seria dimensionado pela festa inacreditável feita pelos seus torcedores, do Estádio Senol Günes às ruas de Trebizonda. Por todo o contexto, dá para dizer também que essa taça dos azulgrenás é uma das mais especiais da Europa nos últimos anos. Aproveitamos a deixa, então, para relatar detalhes históricos e atuais que dão mais sabor ao feito do Trabzonspor. É um daqueles momentos no futebol para realmente se exaltar.

– A torcida mais fanática do país?

As cenas protagonizadas pela torcida do Trabzonspor falam por si. O espetáculo seria realizado desde a véspera do jogo decisivo, quando o Estádio Senol Günes estava abarrotado para o último treino do time. No dia seguinte, durante o empate por 2 a 2 contra o Antalyaspor, um clima impressionante tomou conta das arquibancadas e, ao final do jogo, também do gramado, quando uma invasão massiva ocorreu para celebrar a taça. Já nas horas seguintes, ninguém dormiria em Trebizonda. Até parecia que a cidade inteira, localizada numa região metropolitana de 800 mil habitantes, havia saído às ruas para celebrar o fim da espera de 38 anos. O show de luzes foi um espetáculo à parte, mas a empolgação de tanta gente é o que realmente marca esse feito da Tempestade do Mar Negro.

Cabe dizer, porém, que a grandeza do título do Trabzonspor não é algo que se traduz somente pelas quase quatro décadas sem a Süper Lig. Há um fanatismo inerente ao redor dos azulgrenás. que acompanhou o time nas horas boas e nas ruins. Por mais malucas que sejam as torcidas de Besiktas, Fenerbahçe e Galatasaray, elas estão inseridas numa disputa dentro de Istambul. O Trabzonspor tem Trebizonda só para si e representa o único clube do interior a bater de frente com as potências do maior centro urbano da Turquia. Há um senso de pertencimento gigantesco e também um desejo de desbancar a metrópole. A Tempestade do Mar Negro fez isso algumas vezes e pôde repetir a sensação nesta temporada. Tamanho fanatismo é vivido por sua gente no dia a dia, em uma cidade que respira futebol e na qual o futebol é sinônimo de seu principal clube. Levar essa taça era a deixa para que o resto do mundo notasse a paixão vivida em máxima potência em Trebizonda.

– O símbolo do interior da Turquia

O sufixo “spor” em boa parte dos clubes turcos não é uma mera coincidência. Ele geralmente indica clubes que passaram por um processo de fusão entre as décadas de 1950 e 1960. Para formar um Campeonato Turco nacionalmente forte em todo o território, e não concentrado apenas em Istambul, de onde a liga partiu primordialmente, diversas cidades do interior fundiram seus times em um só. Foi algo que aconteceu também em Trebizonda, cidade no nordeste do país, às margens do Mar Negro, em 1967. Todavia, o processo de fusão seria atravancado pela grande rivalidade local entre Idmanocagi e Idmangücü, que dominavam o campeonato municipal. As duas forças regionais não aceitavam se tornar uma só. Apenas depois de cinco anos de tensas negociações é que o processo aconteceu. A unificação foi forçada, com a ameaça da federação de que Trebizonda não contaria com um representante nas ligas profissionais e protestos da população em prol do entendimento. No fim das contas, os rivais deram o braço a torcer e formaram o Trabzonspor.

A rixa ainda se manteve na hora da escolha das cores. Nessa época, Idmanocagi e Idmangücü já tinham liderado fusões menores na cidade, mas ninguém queria abrir mão de seus uniformes. O consenso só aconteceu quando os representantes dos velhos times precisaram escolher cores diferentes daquelas que usavam antes. Foi quando nasceu a icônica camisa entre o grená selecionado por um e o azul celeste optado por outro – que também representavam a cidade e o mar. Uma combinação única, que faz a Tempestade do Mar Negro ser reconhecida em diferentes cantos do planeta.

– O timaço que antecedeu os 38 anos de jejum

Um nome fundamental na história do Trabzonspor é o de Ahmet Suat Özyazici. Nascido na cidade, ele defendeu o Idmanocagi nos tempos de jogador e faria parte do Trabzonspor nos primeiros anos após a fusão. Penduradas as chuteiras em 1972, ele assumiu o comando da equipe em 1973. Viraria o técnico responsável por levar a Tempestade do Mar Negro pela primeira vez à primeira divisão do Campeonato Turco, em 1974. Durante a estreia na elite, os azulgrenás ficaram na nona colocação da liga e chegaram à final da Copa da Turquia, derrotados pelo Besiktas. Na seguinte, já levariam o inédito título e se consagrariam como o primeiro time a romper a hegemonia do trio de ferro de Istambul. Não seria uma exceção daquela campanha em particular, aliás.

De 1975/76 a 1983/84, o Trabzonspor conquistou o Campeonato Turco seis vezes e seria vice nas outras três em que não ficou com a taça. Foram dois títulos consecutivos, antes de um tri, até a última conquista da sequência em 1984. Özyazici seria o comandante em quatro deles, enquanto outros dois seriam registrados por Özkan Sümer, outro antigo ídolo com quem costumava se revezar no cargo – e que depois virou presidente. Paralelamente, o time também ganhou três vezes a Copa da Turquia. Estava claro como uma nova potência nacional havia se erigido naquele momento.

O grande mérito do Trabzonspor era sua força defensiva. Os azulgrenás não enchiam os olhos no ataque, mas possuíam uma das melhores defesas do mundo. Em cinco dos seis títulos, a Tempestade do Mar Negro sofreu uma média de gols inferior a 0,5 tentos por jogo. O ano mais absurdo foi o de 1978/79, o primeiro do tri consecutivo: foram míseros sete gols tomados em 30 partidas, média inferior a uma bola nas redes a cada quatro rodadas. Em nenhum compromisso o time sofreu mais de um gol e passou uma sequência de 12 duelos sem ser vazado. Apenas o Galatasaray, no fim do segundo turno, foi capaz de impedir o título invicto, com o triunfo por 1 a 0. Segundo dados do RSSSF, é a segunda menor média de gols sofridos na história das ligas nacionais europeias.

Em tempos nos quais o futebol turco tinha pouca representatividade além das fronteiras, porém, o Trabzonspor não faria campanhas tão destacadas assim nas copas europeias. Apenas na estreia pela Copa dos Campeões, em 1976/77, o time passaria pela primeira fase, ao vencer os islandeses do Akranes. Apesar da queda nas oitavas, ainda assim, uma vitória histórica seria registrada com o 1 a 0 sobre o Liverpool em Trebizonda. Os Reds buscaram os 3 a 0 em Anfield e, classificados, levaram o inédito título ao final daquela competição. Depois disso, o Trabzonspor se limitou a eliminações precoces. A lista de algozes da Tempestade do Mar Negro no período inclui equipes como o Dynamo Kiev, o Hajduk Split e o Dnipro, além de Internazionale e Kaiserslautern nas vezes em que os turcos acabaram limitados à Copa da Uefa.

– O maior goleiro da história da Turquia

Diante de números defensivos tão espetaculares, a grande figura do Trabzonspor em seus anos dourados naturalmente seria um defensor – mais especificamente, um goleiro. E, antes de se tornar o treinador da Turquia semifinalista da Copa em 2002, Senol Günes se firmou como lenda na meta da Tempestade do Mar Negro. Nascido na cidade, o garoto era apaixonado por basquete, mas acabou usando as mãos de outra forma no esporte, tornando-se goleiro na base azulgrená a partir dos 17 anos. Sua estreia na equipe principal, aos 20 anos, aconteceu quando o time ainda militava na segundona. Seria um dos responsáveis pelo inédito acesso e virou uma estrela nacional logo cedo, pelos milagres que operava. Passaria a ser conhecido como “Zoff Turco”.

Günes viveu todo o ápice de sua carreira na meta do Trabzonspor. Foram 15 anos de time, sempre como titular, de 1972 a 1987. Assim, o goleiro foi onipresente na conquista dos seis títulos do Campeonato Turco e, mais do que isso, passou a usar a braçadeira de capitão. Chegou a ficar 1112 minutos sem sofrer gols pelo Campeonato Turco, um recorde, e também virou o titular da seleção. Com 535 partidas disputadas pela Tempestade do Mar Negro, é o segundo com mais aparições pela agremiação. O estádio do clube inaugurado em 2016 leva o nome de Senol Günes, com toda a justiça. Não à toa, o veterano é considerado por muitos como o maior arqueiro da história do país.

“Com um ambiente familiar, a contribuição de nossos treinadores e a integração da cidade, levamos o primeiro time lendário do Trabzonspor a conquistar o campeonato. Sempre estivemos ligados com os torcedores, treinadores e jornalistas da cidade. Quando íamos a um jogo, todos tomávamos nossos lugares, alguns em campo e outros nas arquibancadas. Essa equipe teve um grande impacto, quando o Trabzonspor deu cor ao futebol turco por muitos anos. Sou feliz e orgulhoso de ser um membro daquela equipe. Tenho que agradecer a todos eles. É a filosofia que se mantém hoje no Trabzonspor”, resumiria Günes, anos depois.

Além do goleiraço, aqueles times do Trabzonspor tinham outros tantos símbolos. E é importante notar como boa parte deles nasceu em Trebizonda, reforçando os laços do clube com a comunidade local. Muitos sequer tinham saído da cidade, até iniciarem as longas viagens de 20 horas de ônibus rumo a Istambul para disputar o Campeonato Turco. O lateral direito Turgay Semercioglu e o zagueiro Necati Özçaglayan, ambos também oriundos da cidade, foram os outros dois jogadores presentes em todas as seis conquistas, assim como Günes. Já nomes como o lateral esquerdo Cemil Usta, o ponta Ali Kemal Denizci, o centroavante Necmi Perekli e o meia Iskender Günen não participaram de todas as campanhas, mas igualmente figuram no rol de maiores ídolos da Tempestade do Mar Negro. Nomes obrigatórios para reconstruir a trajetória lendária.

– Os repetidos vices durante o jejum

A longa espera do Trabzonspor pelo título no Campeonato Turco não era amarga apenas pelo tempo decorrido. Um incômodo tão grande quanto as quase quatro décadas era causado pela quantidade de vezes em que a equipe bateu na trave. Mesmo os retornos de Senol Günes, na função de treinador a partir de 1988 (depois de trabalhar durante um tempo como professor de estudos sociais no ensino médio), não ajudaram a Tempestade do Mar Negro a repetir os anos gloriosos. Foram seis vices nesse longo intervalo.

Os dois primeiros foram seguidos, em 1994/95 e 1995/96, com Günes no comando. Os azulgrenás ficaram três pontos atrás do Besiktas no primeiro ano e dois atrás do Fenerbahçe no segundo – com direito a uma derrota no confronto direto a três rodadas do fim, de virada e em casa, que custou a liderança e abriu o caminho ao Fener. O consolo ficaria para o título da Copa da Turquia em 1995, em cima do Galatasaray. Os atacantes Shota Arveladze e Hami Mandirali estavam entre as referências do time nesse momento histórico. Outros dois vices seguidos ocorreram em 2003/04 e 2004/05, embora em ambas os azulgrenás não tenham chegado a ameaçar tanto os títulos do Fenerbahçe. De novo, no mesmo período, dois títulos na Copa da Turquia atenuaram as decepções. Gökdeniz Karadeniz e Fatih Tekke formavam uma histórica dupla de ataque naqueles anos.

Já o vice provavelmente mais doloroso aconteceu em 2010/11, de novo com Günes à beira do campo. O Trabzonspor liderou em 15 das 34 rodadas, a última delas no fim de abril. O time protagonizou uma alucinante disputa ponto a ponto com o Fenerbahçe. Os azulgrenás ficaram invictos nas últimas 15 partidas, com 12 vitórias no período. Mesmo assim, o desempenho não foi suficiente para superar o Fener, que levou a taça por ter quatro gols a mais no saldo. Aquele título dos Canários foi acusado de manipulação de resultados e o time até perdeu a vaga na Champions, mas nada foi provado para impugnar a conquista. Burak Yilmaz era quem fazia chover no ataque da Tempestade do Mar Negro. Uma temporada antes, o time conquistara a Copa da Turquia.

Por fim, o vice de 2019/20 contou com uma derrocada do Trabzonspor durante a reta final. Os azulgrenás lideravam até sete rodadas do término do campeonato, mas abusaram dos tropeços no desfecho da competição e permitiram que o Istambul Basaksehir levasse a taça com quatro pontos à frente. Era uma campanha aberta, pelo mau desempenho do trio de ferro. Ídolos nos tempos como jogadores, Ünal Karaman e Hüseyin Cimsir passaram pelo banco naquela campanha. Ugurcan Çakir, Abdülkadir Ömür e Anthony Nwakaeme eram nomes importantes na época que permaneceram ao título de 2021/22, embora aquela equipe fosse protagonizada por figurões como Alexander Sörloth e José Sosa. Pra variar, ao final da temporada, aconteceu o título mais recente na Copa da Turquia, que interrompeu uma espera de dez anos.

– A campanha impecável de 2021/22

Esta foi uma temporada bem ruim do trio de ferro de Istambul, não tem muito como negar. Porém, não é isso que deva tirar os méritos do Trabzonspor. Os azulgrenás sobraram ao longo de toda a campanha e dispararam na liderança independentemente da crise dos concorrentes. O primeiro turno da Tempestade do Mar Negro foi absurdo. A equipe de Abdullah Avci manteve a invencibilidade por 15 rodadas, com 12 vitórias nesse intervalo. Ganhou de Fenerbahçe e Besiktas, além de ter empatado com o Galatasaray. Assim, o time já tinha uma vantagem de 12 pontos na liderança no início de dezembro, quando sofreu sua primeira derrota, na visita ao Antalyaspor. Depois disso, seriam mais 13 jogos de invencibilidade e outras nove vitórias somadas, até que outra derrota ocorresse, na visita ao Caykur Rizespor.

As últimas semanas foram mais inconstantes para o Trabzonspor, com uma vitória e quatro empates nas últimas cinco rodadas. Mas, para quem já tinha sustentado uma vantagem de mais de dez pontos durante grande parte da Süper Lig, não era isso que atrapalharia a conquista. Assim, o empate por 2 a 2 contra o Antalyaspor durante o último final de semana bastou. É um rendimento excelente, com 22 vitórias e 11 empates em 35 rodadas, além de 65 gols marcados e 31 sofridos. O aproveitamento de pontos atual é superior ao dos campeões turcos das últimas cinco temporadas, o que mostra como a Tempestade do Mar Negro poderia prevalecer mesmo contra versões mais competitivas do trio de ferro.

– O grande treinador enfim reconhecido

Abdullah Avci não é um treinador muito conhecido fora do Campeonato Turco. No entanto, o título com o Trabzonspor marca o ápice de um comandante que frequentou bastante o topo do país. Reconhecido por seu trabalho na base, Avci comandou a seleção sub-17 em período marcante. Num time estrelado por Nuri Sahin, a equipe nacional conquistou o Europeu Sub-17 de 2005 e chegou à semifinal do Mundial Sub-17 no mesmo ano. Sua primeira experiência numa equipe principal aconteceu à frente do Istambul BB (o atual Basaksehir), em passagem que durou cinco anos e que estabeleceu o time como um importante figurante na metade de cima da tabela da Süper Lig.

Até por seu passado nas seleções de base, Abdullah Avci assumiu a equipe principal da Turquia em 2011. Seria um trabalho de renovação, que não passou de 18 jogos, diante do mau começo nas Eliminatórias para a Copa de 2014. Ainda assim, uma série de jogadores estrearia na seleção adulta por suas mãos, incluindo Burak Yilmaz. Demitido pela federação em 2013, Avci voltou ao Basaksehir em 2014. Foram mais cinco temporadas, em que ajudou o clube recém-promovido da segundona a se tornar candidato ao título, com dois vices na Süper Lig. O técnico, todavia, sairia uma temporada antes da taça ser erguida pelos novos ricos. Acertado com o Besiktas, Avci não deu certo em sua primeira oportunidade num dos três grandes turcos. Saiu depois de seis meses e, em novembro de 2020, assumiu o Trabzonspor. É o responsável pelo passo além dos azulgrenás. Aos 58, enfim ergue o troféu nacional.

– Os símbolos locais que se engrandecem

O Trabzonspor possui um número relativamente baixo de jogadores turcos entre seus titulares. Na partida do título, apenas três atletas nascidos no país fizeram parte do 11 inicial. Mas, tal qual nas glórias do passado, o goleiro também foi uma liderança importante dos azulgrenás. Ugurcan Çakir não nasceu em Trebizonda, mas é cria da base da Tempestade do Mar Negro e possui enorme identificação com o clube. O arqueiro chegou à cidade na adolescência e, depois de um ano no 1461 Trabzon, foi contratado pelo Trabzonspor aos 16 anos. Virou jogador das seleções de base, encerrou sua formação na agremiação e estreou no time adulto em 2014/15. Apesar de um curto empréstimo de volta ao 1461 Trabzon, o arqueiro se tornaria um dos jogadores mais identificados com o Trabzonspor.

Çakir é titular há quatro temporadas e uma face importantíssima nesse crescimento recente. Virou um dos melhores goleiros da Süper Lig, algo reconhecido com as convocações à seleção principal desde 2019. Foi o titular na Euro 2020 e também nas Eliminatórias para a Copa de 2022. Além do mais, virou capitão do Trabzonspor e se coloca como um digníssimo herdeiro de Senol Günes. Aos 26 anos, tem um longo caminho para se firmar como um dos maiores ídolos da história azulgrená. Já na partida do título, outros dois turcos se destacaram. Trazido do Besiktas nesta temporada, o polivalente Dorukhan Toköz marcou o gol do título. Aos 25 anos, também frequenta as convocações da seleção. E um prata da casa a brilhar é o camisa 10 Abdülkadir Ömür, de 22 anos. O meia é nascido em Trebizonda e formado no clube. Deu as duas assistências no empate com o Antalyaspor. Estreou na seleção principal em 2019 e, considerando sua boa sequência nesta temporada, deverá ser melhor observado nas próximas convocações.

– Os medalhões estrangeiros que contribuíram

O Campeonato Turco costuma ser um prato cheio aos medalhões. O elenco do Trabzonspor não foge disso. O nome que chama mais atenção é o de Marek Hamsik. Aos 34 anos, o eslovaco foi titular durante boa parte da campanha, apesar de alguns problemas de lesão, e contribuiu especialmente à excelente largada dos azulgrenás. Outro bastante tarimbado do grupo é Gervinho, mas o marfinense rompeu os ligamentos do joelho e disputou apenas nove partidas, com dois gols anotados. Bem mais efetivo no ataque foi o centroavante Andreas Cornelius. O dinamarquês tem uma trajetória experimentada em clubes tradicionais, mas viveu a principal temporada da carreira ao chegar do Parma, com 15 gols acumulados na Süper Lig. O cabo-verdiano Djaniny e o nigeriano Anthony Nwakaeme foram outros nomes rodados que fizeram diferença na frente.

Em janeiro, o Trabzonspor anunciou a contratação de Edin Visca. E o bósnio, principal destaque no título do Basaksehir em 2019/20, também faria a diferença em seu primeiro semestre com os azulgrenás. Velho conhecido de Abdullah Avci, o ponta logo entrou como titular e desequilibrou várias vezes no segundo turno. Ainda vale mencionar o meia grego Anastasios Bakasetas, que começou muito bem a campanha e se destacou especialmente na vitória do primeiro turno sobre o Fenerbahçe, e o compatriota Manolis Siopis como volante. Na defesa, o zagueiro holandês Stefano Denswil é outro nome conhecido, enquanto o polonês Tymoteusz Puchacz chegou como solução em janeiro para a lateral esquerda.

– A legião brasileira bem representada

O Trabzonspor possui uma relação ampla com o futebol brasileiro. Nenhum outro país estrangeiro teve mais jogadores na Tempestade do Mar Negro, com 17 atletas nascidos no Brasil passando pelo elenco a partir de 1999. Muitos deles não são tão conhecidos e não tiveram estadias longas. No entanto, há figurinhas carimbadas nesse passado. O goleiro Jefferson, antes de ser ídolo do Botafogo, defendeu os azulgrenás por três temporadas e teve momentos importantes. O maior ídolo é o meia Alanzinho, que chegou em 2009 e acumulou 185 partidas pela equipe, essencial no time campeão da Copa da Turquia em 2009/10 e no vice nacional durante a temporada seguinte. Jajá Coelho acumulou muitos gols em 2010/11, antes de ter seu posto no ataque ocupado por Paulo Henrique, outro a superar a marca das 100 partidas.

Já no elenco atual, são dois brasileiros. Vitor Hugo chegou do Palmeiras em 2020 e se firmou como uma referência na zaga. O beque de 30 anos chegou a ter alguns problemas de lesão na atual campanha, mas é dos nomes mais importantes na espinha dorsal azulgrená. Já na lateral direita, Bruno Peres veio da Roma e também se firmou no 11 inicial durante a campanha do título. O defensor marcaria inclusive um gol importante na rodada prévia à conquista, abrindo a vitória sobre o Adana Demirspor, embora tenha sofrido uma ruptura no tendão de Aquiles que custou sua presença em campo justamente no empate contra o Antalyaspor. Os dois escrevem seu nome na história.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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