Europa

Dez boas histórias para ficar de olho a partir da definição dos grupos da Euro 2016

O aumento de seleções da Euro 2016 já previa grupos menos bombásticos do que nas últimas edições do torneio. Afinal, as chances de se cruzarem quatro ex-finalistas, como aconteceu em 2012, eram nulas. Ainda assim, o sorteio neste sábado proporcionou chaves interessantes. De uma maneira geral, o equilíbrio imperou. Mesmo os grupos que não possuem tantos candidatos à liderança contam com boas chances de surpresa. Prometem uma disputa aberta desde as suas primeiras rodadas.

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Além disso, como geralmente acontece em competições de seleções, alguns confrontos remetem a boas histórias. E a Euro 2016 estará recheada disso, contando desde o seu início com clássicos, tanto do ponto de vista esportivo quanto do geopolítico. Abaixo, listamos nove confrontos particulares que devem chamar atenção na primeira fase do torneio continental, bem como projetamos o que pode acontecer nos mata-matas.

A contribuição dos romanis ao futebol francês

cantona

Poucos países possuem traços tão fortes dos imigrantes em seu futebol quanto a França. E a Romênia conta com a sua dose de influência. O único técnico estrangeiro dos Bleus em toda a sua história era romeno. Stefan Kovács fez fama ao substituir Rinus Michels no Ajax e levar o clube a dois títulos da Champions. Deixou os holandeses justamente para assumir a França, embora não tenha vivido grandes sucessos. Sem a vaga na Copa de 1974 ou na Euro de 1976, permaneceu só dois anos no cargo. Além disso, o sangue dos romani (povo nômade geralmente identificado entre os ciganos e de forte presença na Romênia) já correu nas veias de nomes importantes dos Bleus. Eric Cantona é o mais célebre. Já no atual elenco, há a presença de André-Pierre Gignac, que cresceu em caravanas ciganas.

Os irmãos que recontam a Guerra do Kosovo

04.Mar.2011; Basel; Fussball: Granit und Bruder Taulant Xhaka posieren vor dem Stadion (Andreas Meier/freshfocus)

Os seguidos conflitos na região da antiga Iugoslávia provocaram uma diáspora durante os anos 1990. Em especial, a Guerra do Kosovo espalhou albaneses étnicos por diferentes países da Europa. Em especial, a Suíça. Alguns dos principais jogadores de origem albanesa defendem a seleção alpina, incluindo Shaqiri, Kasami e Mehmedi. Entretanto, não há caso mais simbólico que o vivido pelos Xhaka. A família imigrou para a Basileia antes que as batalhas mais sangrentas estourassem nos Bálcãs, e os dois futebolistas da casa já nasceram na cidade. Contudo, tomaram caminhos diferentes em sua carreira. Enquanto Granit Xhaka recebeu chances desde cedo na Suíça e optou pela nacionalidade, o seu irmão mais velho, Taulant, preferiu a Albânia, após anos nas seleções de base suíça. Ex-companheiros no Basel, se enfrentaram em jogo que também servirá para a confraternização.

O craque britânico enfrenta a Inglaterra

Gareth Bale, do País de Gales (Foto: AP)

Dentre as nações britânicas, nenhuma é mais atada à Inglaterra no futebol do que Gales. Embora a seleção exista desde o Século XIX, seu sistema de clubes se manteve dentro do futebol inglês até a década de 1990, quando a liga finalmente foi criada. E, apesar disso, os times mais tradicionais optaram por seguir nos campeonatos dos vizinhos. Assim, a rivalidade entre galeses e ingleses se constitui especialmente entre as seleções, acostumadas a se enfrentar desde os tempos de Home British Championship. Clássico que terá conotação especial na Euro. Poucas vezes Gales esteve tão próximo da força da Inglaterra, e terá a chance de surpreender em Lens. Alguns galeses certamente seriam titulares com Roy Hodgson, em especial Gareth Bale. O craque chegou a ser sondado para defender os Three Lions, por causa de sua avó, mas optou por honrar a nacionalidade galesa. Sua escolha poderá ter grandes efeitos na Euro.

Alemanha x Polônia, os inimigos íntimos se reencontram

Lewandowski comemora a classificação da Polônia à Eurocopa com champanhe em campo

A história da Polônia é profundamente marcada pela Alemanha, sobretudo diante do que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. No futebol, contudo, é impossível contar a trajetória da seleção polonesa sem passar pelo país vizinho. Algumas das principais campanhas foram feitas por lá, como a conquista do ouro olímpico em 1972 ou o terceiro lugar na Copa de 1974. Assim como alguns de seus maiores craques brilharam por clubes germânicos, a exemplo de Ernst Wilimowski. Por outro lado, a recíproca também se torna verdadeira, sobretudo por Miroslav Klose, maior artilheiro da história do Nationalelf. E o encontro, que aconteceu três vezes desde 2014, se repetirá na Euro. O momento, aliás, pode ajudar a Polônia. Há um ano, a equipe conquistou sua primeira vitória na história contra os alemães. Conta com Lewandowski como inimigo íntimo, conhecedor como poucos das virtudes e dos defeitos de seus companheiros no Bayern e no Dortmund.

Os craques croatas contra o tiki-taka

croatia

Os dois principais maestros do futebol espanhol na atualidade são croatas. Modric e Rakitic regem os gigantes do país com muita técnica e unem seus talentos na seleção, compondo um meio-campo de rara qualidade no futebol mundial. Se a dupla serve de diferencial para Real Madrid e Barcelona, poderá desbancar justamente aqueles que chegaram ao seu ápice graças à posse de bola. A meia-cancha espanhola segue muito bem servida, com craques do porte de Iniesta, Fàbregas, Thiago Alcântara, Busquets, Koke, Cazorla, David Silva e Mata à disposição. Ainda assim, é difícil colocar algum deles individualmente à frente dos croatas neste momento. Tentando mudar o estilo da Fúria, Vicente del Bosque terá um dos embates mais duros possíveis na cadência de jogo.

Turan e Cech, protagonistas de um jogão do passado

Peter Cech com protetor de cabeça (AP Photo/Massimo Pinca)

Um dos melhores duelos de primeira fase em Eurocopas aconteceu há quase oito anos. Turquia e República Tcheca se enfrentavam na última rodada, brigando por um lugar nas quartas de final. E os tchecos pareciam garantidos nos mata-matas, depois de abrirem dois gols de vantagem no início da segunda etapa. Um engano fatal. Arda Turan iniciou a reação turca a 15 minutos do fim, para que Nihat buscasse a virada por 3 a 2 já nos instantes finais, contando com um erro incomum de Petr Cech. A falha marca negativamente a carreira de um dos maiores ídolos da história da seleção, que poderá se redimir contra os mesmos algozes. Juntos, meio-campista e goleiro são as grandes referências de suas equipes. E, outra vez na rodada final, poderão fazer mais um duelo decisivo em grupo bastante parelho.

Goleiros brilhantes, de gerações diferentes

Italy Czech Republic WCup Soccer Buffon

Os 37 anos não pesam sobre Gianluigi Buffon. Mesmo se aproximando do fim da carreira, o camisa 1 permanece como um dos melhores goleiros do mundo. E, diante dos problemas de renovação da seleção italiana, se torna um raro porto seguro na Azzurra. Se as coisas não funcionam tão bem na linha, o veterano segura a responsabilidade sob as traves. Do outro lado, enfrentará na Euro um de seus substitutos no clube dos melhores arqueiros do mundo. Courtois, por sua vez, vê o peso em seus ombros cair às avessas. O elenco da Bélgica é ótimo, mas por vezes imaturo. Assim, o goleiro teve papel fundamental na Copa de 2014, evitando um papel decepcionante dos Diabos Vermelhos. Dois anos depois, os belgas terão a chance de ratificar o bom momento. E o sucesso certamente passa pelas luvas de Courtois e de Buffon, logo no jogo de estreia.

O adeus dos grandes artilheiros

Denmark Sweden Soccer Euro

Puskás, Kocsis, Klose e Gerd Müller. As lendas de Hungria e Alemanha são os maiores goleadores da história por seleções europeias. Entretanto, seguem com dois veteranos em seu encalço, justamente rivais na Euro 2016. Entre os jogadores que permanecem em atividade, Robbie Keane e Zlatan Ibrahimovic são os únicos com mais de 60 gols por suas equipes nacionais. O maior artilheiro da Irlanda soma 67 tentos, cinco a mais que o astro sueco. E ambos terão provavelmente a última chance da carreira de brilhar em um grande torneio. Aos 35 anos, Keane permanece vital na Irlanda, com cinco gols nas Eliminatórias. Já Ibra, mais do que isso, carregou a Suécia à fase final. A sobrevivência em um grupo complicado significa um jogo a mais para ampliar as marcas.

O império que se dividiu e seguiu rumos diferentes

alaba

Áustria e Hungria formaram uma das potências mais importantes da Europa até a Primeira Guerra Mundial. Porém, os caminhos distintos seguidos pelos dois países, de certa maneira, também influenciaram o futebol. Em contextos políticos e econômicos diferentes, ambos formaram dois dos maiores esquadrões entre as décadas de 1930 e 1950. Mas, nos últimos anos, conviveram com o insucesso. Enquanto a queda do comunismo secou o financiamento do esporte húngaro, os austríacos viram a economia de seus clubes ser sufocada a partir da expansão da União Europeia. Mas ambos voltam à elite do futebol continental juntos, por trajetos diferentes. Os austríacos souberam se aproveitar da transformação de seu país, abrindo a seleção aos imigrantes. Por outro lado, os húngaros vivem o lampejo de uma geração envelhecida. Embate representado por Király e Alaba: o goleiro que, enfim, vive a grande chance da carreira, contra o craque que promete levar a sua seleção a novas glórias.

Um grupo fácil pode não ajudar nos mata-matas

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A Eurocopa com 24 seleções torna o chaveamento nas oitavas de final variável. Ser primeiro colocado do grupo não garante necessariamente um duelo contra os terceiros colocados. Pior para as duas melhores equipes do Grupo E, um dos mais complicados, que pegarão o líder do F e o segundo do D. Além disso, por mais que o equilíbrio tenha imperado nos grupos, talvez isso não aconteça na reta final. Basta ver o caminho duríssimo que, por exemplo, a Alemanha pode enfrentar. Se confirmar o favoritismo, o Nationalelf tem chances de pegar uma sequência com Bélgica, Itália, Espanha ou Croácia nas quartas de final, além da França nas semifinais. Obviamente, quem quer ser campeão não escolhe adversário. Mas a liderança, em alguns casos, não parece significar necessariamente uma vantagem.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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