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Deixe de preconceito: por que a Grécia na Copa não é tão ruim

Você pode não gostar do estilo de jogo. Lamentar a falta de craques. Expurgar o excesso de placares magros. Não adianta nada. Pela segunda edição consecutiva, a Grécia estará na Copa do Mundo. O Navio Pirata já tinha feito uma primeira fase consistente, quando brigou ponto a ponto pela liderança da chave com a Bósnia – mas levou a pior justamente pelo saldo de gols. Já na repescagem, não houve o que minimizasse o favoritismo dos gregos contra a Romênia.

Em Pireu, vitória tranquila por 3 a 1 diante da torcida enlouquecida no Estádio Karaiskakis. Resultado que tranquilizou a Grécia para o jogo de volta, na Arena Nacional de Bucareste. E nem a lambança generalizada da zaga, que se atrapalhou toda para permitir o empate da Romênia por 1 a 1, estragou a festa. A classificação estava na mão e não escaparia mais. Outro sucesso para os gregos que, desde 2004, estiveram presentes em duas Copas e três Eurocopas, na melhor fase da seleção na história.

No entanto, ainda que o futebol pobre exibido na Euro 2004 tenha ficado grudado na retina, o time atual da Grécia evoluiu em relação àqueles tempos ancestrais. A filosofia de Otto Rehhagel continua bem aplicada por Fernando Santos, técnico que o substituiu em 2012. O Navio Pirata continua fortíssimo na defesa, seu pilar nessa classificação nas Eliminatórias. Mas também possui bem mais criatividade do que o “bumba meu boi para Charisteas”, o sistema ofensivo que imperava há dez anos.

A mudança dessa mentalidade no ataque teve seu melhor exemplo exatamente no jogo de ida contra a Romênia. Fernando Santos escalou o time com três homens de frente: Giorgos Samaras, Dimitrios Salpingidis e Kostas Mitroglou. Jogadores que, embora não sejam exímios dribladores, possuem um nível suficiente de técnica e boa mobilidade. Os três gols marcados em Pireu demonstraram isso, ainda que tenha sido a primeira vez nas Eliminatórias em que os gregos balançaram as redes mais de duas vezes.

De qualquer forma, se a ocasião pedir, o Navio Pirata não terá pudores em se fechar na defesa. Se o time vinha de sete vitórias consecutivas antes da decisão contra os romenos nesta terça, devia muito a essa segurança atrás. O time só sofreu dois gols nos últimos oito jogos e foi vazado apenas uma vez em casa nas Eliminatórias. Ainda que as falhas tenham permitido esses dois tentos, é justamente no entrosamento e no encaixe do setor que os gregos se prendem.

Na Copa de 2014, esperar a classificação da Grécia já seria bastante. O fator casa costuma contar bastante para a equipe, invicta no país em partidas oficiais desde 2008. Contudo, não é preciso evitar os jogos dos gregos. O futebol modorrento da Euro 2004, ainda que mantenha alguns traços, não é mais predominante. Ao invés de jogos sonolentos, dá para esperar algum lampejo de talento que vá além do veteraníssimo Karagounis.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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