Europa

David Martindale foi da prisão por tráfico de drogas a candidato a técnico do ano na Escócia

Um dos grandes trabalhos como técnico na Escócia nesta temporada é de um nome altamente improvável. David Martindale tem uma trajetória incomum no futebol. Aos 46 anos, ele dirige o Livingstone, depois de assumir interinamente o cargo depois da saída de Gary Holt. Havia dúvidas, porém, se ele poderia ter licença para ser técnico profissional. Isso porque ele foi condenado a seis anos e meio de prisão em 2006 por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Em audiência da Federação de Futebol da Escócia (SFA) nesta terça-feira, ele foi declarado “adequado e capaz” para exercer o cargo.

Havia questionamentos se Martindale poderia ocupar o cargo com a sua ficha criminal. A liberação da SFA foi comemorada pelo Livingston. “O clube está satisfeito com o desfecho positivo que chegou, algo que nos permite traçar uma linha neste episódio particular e dá a David a chance de focar completamente no seu trabalho como técnico de futebol”, diz um comunicado do clube. “Nós acreditamos que este é o desfecho correto e pensamos que manda uma mensagem positiva por toda a sociedade”, continua o texto.

“Eu gostaria de dizer de agradecer publicamente à SFA, à SPFL (a liga escocesa) e, mais importante, eu gostaria de agradecer a cada pessoa nas redes sociais, os torcedores, comentaristas e imprensa por seu apoio”, disse Martindale. “Um grande agradecimento a Hannah Bardell [deputado], Angela Constance [membro do parlamento escocês] e ao professor Phil Scraton e eu estou muito feliz que a SFA me deu a chance de continuar a minha carreira com o Livingston Football Club”.

Martindale era assistente técnico e assumiu interinamente o time principal em novembro, com a saída de Holt. De lá para cá, o time subiu de produção, saiu da zona perigosa de rebaixamento, chegou a uma final de Copa e já almeja classificação na Europa. Foi efetivado no cargo no dia 21 de dezembro e é um candidato forte a técnico do ano na Escócia – junto, claro, a Steven Gerrard, que comanda o líder Rangers, que tenta quebrar a sequência de nove títulos seguidos do Celtic.

O envolvimento com o crime organizado

A trajetória de Martindale é bastante incomum. Ele jogou nas categorias de base do Motherwell e do Rangers, mas nunca se dedicou o bastante para ser jogador profissional. Sem tornar-se profissional, abriu um negócio: um bar. Quando o seu bar pegou fogo e não tinha seguro, ele teve um prejuízo na casa de £60 mil. Foi quando decidiu se envolveu com tráfico de drogas.

“Escute, eu sabia o que estava fazendo”, admitiu Martindale em entrevista ao Guardian. “Eu não estou tentando embelezar o meu envolvimento. Minha motivação era financeira, puramente ganância”, continuou. “Eu cresci em conjuntos de habitação. Você quer ser o cara que dirige uma BMW ou Range Rover. Você não quer ser o cara entrando e saindo de trabalhos e lutando para pagar o aluguel”.

Preso em 2004, ele saiu da prisão depois de quatro dias ao pagar fiança. “Quadro dias trancado em uma cela é horrível. Pareceu quatro meses. Eu sabia que tinha que mudar a minha vida”, disse. Foi por isso que ele decidiu entrar na Heriot-Watt University para um diploma de gerenciamento de projetos. Ele foi preso em 2006, depois de condenado, e ficou quatro anos na cadeia. Ele se declarou culpado no seu julgamento. “Ficar de pé no tribunal, sabendo que você está à mercê do juiz e que ele tinha o futuro em suas mãos foi uma experiência que nunca mais vou repetir”, afirmou.

O recomeço como voluntário

Quando saiu, em 2010, a Heriot-Watt, que tinha um projeto de reabilitação de presos, deu um emprego a ele. O trabalho com futebol, porém, era só algo que ele fazia no tempo livre. Com experiência nas categorias de base, passou a trabalhar voluntariamente na comissão técnica do Broxburn United depois de sair da prisão. “Eu nunca cheguei nem perto do potencial que eu tive”, afirmou Martindale. “Outro jogador que jogou tudo fora enquanto estava crescendo. O futebol sempre veio relativamente fácil para mim, honestamente, mas eu não estava jogando ou treinando em um nível profissional. Eu sei que desperdicei oportunidades que apareceram para mim quando eu era mais jovem”.

Ele chegou ao Livingston para, em um primeiro momento, trabalhar voluntariamente, meio período. Acabou ganhando um cargo permanente quando John McGlynn assumiu como técnico da equipe, em 2014. “Eu não tinha experiência”, afirmou. “Eu pegava cones, recolhia as bolas e assistia John. Eu estava me voluntariando lá às terças e quintas de manhã, então voltava aos locais de construção que trabalhava”.

O sucessor de MacGlynn, Mark Burchill, sabia do interesse em Martindale em se envolver mais no trabalho da comissão técnica. Ainda assim, o seu trabalho envolvia arrumar as cadeiras na sala de imprensa, arrumar as coisas na sala do técnico, entre outras coisas, em uma rotina de 70 horas. Foi com David Hopkin, sucessor de Burchill, que deu a Martindale o cargo de assistente técnico. “Hoppy foi incrível”, afirmou.

“Eu ficarei em dívida com ele pelo resto da minha carreira”. Ele se tornou responsável pelo setor de recrutamento. O clube conseguiu acessos consecutivos, galgando divisões. “Alguns dos jogadores tinham uma bagagem histórica. Mas eu estou orgulhoso pelo fato de que, assim como eu, o Livingston tinha a mente aberta”.

Martindale se preparou para o momento. Quando recebeu o cargo de assistente, ele se inscreveu na Federação Irlandesa para tirar as licenças da Uefa e atualmente tem a sua licença nível B e está prestes a conseguir a licença nível A. Ele decidiu estudar na Federação Irlandesa porque a Escocesa é mais rígida em relação a quem tem um histórico com ficha criminal, como é o seu caso.

Em 2018, o clube ofereceu a ele o cargo de técnico quando Hopkin deixou o clube. Era maio e ele foi o responsável pela maioria das contratações. Só que Martindale recusou, por temer que pudesse fazer o clube passar vergonha pelo seu passado e também pela sua falta de experiêcia. Kenny Miller foi contratado como técnico, mas ficou pouco tempo e voltou a jogar e por isso Gary Holt foi contratado. Ele ficou até novembro, quando se demitiu. Novamente, veio a chance de assumir o time. Desta vez, mais experiente, ele decidiu abraçar o desafio.

A campanha meteórica desde que assumiu como técnico

Quando assumiu o cargo de técnico do time, o Livingston estava em 10º (entre 12 times) e só a dois pontos do último colocado na tabela. Agora, o time é quinto colocado, oito pontos ateás do Hibernian, quarto. Além disso, está na final da Copa da Liga da Escócia, onde enfrentará o St. Johnstone na final, no dia 28 de fevereiro. Em geral, técnicos de times pequenos sonham em treinar clubes maiores, mas essa era uma realidade tão distante que nem passava pela cabeça de Martindale. Ao menos até agora.

“Eu estava preocupado porque isso parecia a milhas de distância do meu alcance estar na Premiership, então eu nunca pensei nisso. Não sou apenas eu, há uma estrutura e uma grande equipe de trabalho, mas então você percebe que você não está a milhões de milhas disso de modo algum. O time conseguiu resultados contra o Celtic e você pensa sobre o recrutamento, então você tem um impulso: ‘Eu posso fazer isso, eu tenho uma pequena chance no futebol’”, afirmou o agora treinador efetivo do Livingston.

Martindale foi perguntado, então, se o seu passado pode ser impeditivo para ele. “Isso provavelmente fará que a parede seja maior para mim para superar. Sempre haverá obstáculos, mas eu honestamente não me importo com isso. Eu criei os obstáculos. Eu tenho que trabalhar mais duro que outro cara que não esteve na prisão? Provavelmente, com razão. Mas contanto que você tenha uma oportunidade”, afirmou o técnico do Livingston.

 

 

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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