Europa

Da Guerra da Bósnia ao lar em Roma, Dzeko repassa sua história no Players’ Tribune

Edin Dzeko é um grande personagem do futebol. Não apenas por seu talento, mas por toda a história de vida. O centroavante enfrentou as mazelas da guerra quando ainda era um menino na Bósnia e sobreviveu para vingar no esporte. Para levar seu país à Copa do Mundo. Para seguir os passos de seu ídolo, Andriy Shevchenko. Construiu uma carreira vitoriosíssima, com grandes momentos por Wolfsburg e Manchester City. E, agora, honra a camisa da Roma como poucos, entre os melhores jogadores da Serie A. Trajetória ímpar que o veterano teve o gosto de recontar ao The Players’ Tribune. Abaixo, traduzimos o texto. O original pode ser conferido neste link.

*****

Você não está morto

Estávamos mortos.

Isso é tudo que eu estava pensando enquanto assistia ao jogo do banco.

Antes da partida, todos nós pensávamos que o Manchester City era campeão. Nós sabíamos que o QPR estava lutando contra o rebaixamento, mas nos sentíamos fortes. Tudo que precisávamos fazer era derrotá-los e nós ganharíamos a Premier League. Ninguém acreditava que perderíamos o título. Tínhamos tudo em nossas mãos. Então, o jogo começa e tudo está quieto, até que… bang, aos 39 minutos, Zabaleta marca. Está 1 a 0 no intervalo. Eu quase comecei a relaxar, pensando que estávamos quase lá.

Então, o QPR empata aos três minutos do segundo tempo. Do nada. Aí eles têm um jogador expulso sete minutos depois. E de alguma forma, eles marcam o segundo gol. Isso tudo acontece em 18 minutos. Bang, bang, bang. Foi louco.

Eu me lembro um pouco depois do segundo gol, quando Roberto Mancini estava à beira do campo furioso com todos, apenas mandando eles se foderem. Eu nem sei com quem estava falando, apenas estava xingando.

Eu pensei que estávamos mortos. Era como se ninguém pudesse lidar com a pressão. Todos nós pensávamos que entregamos tudo. Depois de uma ótima temporada, iríamos perder em um jogo. Depois, Mancini me coloca e nós tentávamos fazer o nosso melhor, mas nada acontecia. Futebol é assim às vezes. A bola sempre acaba do lado de fora das traves.

Oitenta minutos, noventa minutos… estamos mortos.

Chegam os acréscimos e temos cinco minutos adicionais. Se você joga futebol em seu videogame e está perdendo por 2 a 1 depois dos 91 minutos, nunca conquistará a vitória. Está acabado. Vá em frente e tente de novo. Impossível.

Então, o escanteio. David Silva bateu. Eu marquei esse gol – uma cabeçada direta no meio, aos 91:20. Você pode me ver gritando, “Vamos lá!”, para todo mundo enquanto corro de volta ao círculo central. Restam dois, três minutos para jogar. Talvez não estivéssemos mortos ainda?

Então, vocês conhecem o resto. Eu não sei como fizemos aquilo. Definitivamente havia alguém lá em cima que nos deu a chance de sobreviver. As pessoas me perguntam o tempo todo sobre o gol de Agüero, e o que eu senti em campo. Para ser honesto, a emoção mais forte era alívio. Vocês não podem imaginar o quão aliviado eu estava quando o gol saiu. Nós trabalhamos a temporada inteira com esse grande time e jogamos muito bem, mas ficamos a poucos segundos de perder isso.

Era o primeiro título do City em 44 anos, ganhando assim? Loucura. Esse jogo me mostrou que no futebol e na vida, você nunca pode desistir. Se você desiste, é um homem morto. Nós estávamos mortos e viemos de lugar nenhum.

Você provavelmente vai dizer que eu gosto de recontar essa história, não?

Parte da alegria é relembrar os outros que jogaram comigo. Agüero, Silva, Yaya, Kompany e, claro, Mario Balotelli, que era realmente um cara bacana. Algumas vezes a imprensa o matava por nada e eu não entendia isso. Era como se ele fosse o protagonista de um filme, tudo de bom ou ruim era sempre Mario. Mas ele era um cara engraçado e foi campeão.

Eu tinha sorte, também, de ter Kolarov e Savic ao lado, dois caras que cresceram nos Bálcãs, como eu. Havia um orgulho especial em chegar à Premier League e se tornar campeão quando você vem de lá. Vocês precisam se lembrar que eu nasci em Sarajevo nos anos 1980. Durante a guerra, haviam momentos em que eu tive de parar de jogar futebol nas ruas porque as sirenes tocavam e nós precisávamos nos esconder.

Quando eu era um garotinho, não entendia realmente o perigo. Aos seis anos de idade, eu sabia o que estava acontecendo, mas honestamente não pensava muito sobre isso. Os pais pensavam em tudo e se preocupavam com tudo. Eles eram aqueles que carregavam o fardo, eu penso. Sem meus pais, minha vida não seria possível. Quando a guerra finalmente acabou, quatro anos depois, tudo estava destruído. Não havia mais cidade. Eu me lembro do meu pai me levando ao primeiro treino no Zeljeznicar e nós tivemos que pegar dois ônibus diferentes, além do bonde. Foi mais de uma hora para chegar lá e nós treinávamos em uma escola, porque o estádio tinha sido destruído. Ainda que meu pai trabalhasse, ele me levava lá todos os dias e quando o treino acabava, sempre me dava uma banana.

Mesmo nos momentos ruins, meus pais tentaram dar tudo para mim e minha irmã.

Todo mundo tem sonhos. Mas naqueles tempos, quando o país estava sendo reconstruído, era impossível pensar em algo mais. Só me lembro de estar feliz por poder jogar futebol de verdade pela primeira vez sem sirenes ou sem o perigo. Sem complicações. Apenas futebol. Se eu tinha um sonho, era jogar pelo time principal do Zeljeznicar. Era mais para fazer meu pai orgulhoso, porque ele nunca se tornou profissional, mas jogou a vida toda. Eu me lembro quando tinha 17 anos, estava com ele no shopping center. Um dia normal. Não me lembro o que comprávamos. De repente, um dos meus técnicos me ligam. Ele diz: “Amanhã, você vai se juntar ao time principal para a pré-temporada”.

Eu me viro ao meu pai e conto a ele. Ele fica completamente estarrecido.

“Quem? Por que? Quando? Com quem? O que?”

Foi o grande momento para mim, poder experimentar isso com ele, porque ele estava comigo desde o primeiro passo. Realmente, cada passo para treinar depois da guerra, nós demos juntos. Eu nunca esperava que pudesse jogar na Alemanha e na Inglaterra, e especialmente na Itália. Para mim, naqueles dias, a Serie A era o melhor campeonato. Nos anos 1990, vários grandes jogadores estavam na Itália e eu amava Shevchenko, especialmente. Quando eu era criança, um dos meus técnicos me chamava de Shevchenko, e ele dizia isso porque eu era parecido de rosto com ele. Eu amava isso, era meu herói.

Nunca me esquecerei do dia em que joguei contra Sheva, quando eu estava no Wolfsburg, em 2008. Ele estava emprestado ao Milan e jogamos no San Siro. Foi simplesmente incrível. Antes da partida, entrei no túnel e perguntei logo a ele se poderíamos trocar de camisa depois do jogo.

Ele disse que não teria problema.

Bem, eu imagino que ele ouviu o quanto eu tinha de respeito por ele, porque no intervalo, veio até a mim e me deu sua camisa. Nem esperou até depois do jogo. Sempre me lembro disso. Esses são os momentos realmente especiais.

É engraçado. Eu joguei futebol em vários países, mas apenas em Roma eu me sinto em casa. A Bósnia e Sarajevo sempre estarão em primeiro lugar no meu coração, mas Roma está em segundo. Para mim, lar é o lugar onde eu me sinto bem, onde penso apenas em futebol sem qualquer outro problema e onde minha família está feliz. Eu queria ir para a Serie A, então eu pude aprender a língua e estou construindo algo realmente bacana aqui.

As pessoas sempre me perguntam sobre a diferença entre jogar na Inglaterra e na Itália. A Inglaterra é velocidade, velocidade, velocidade. Aqui é tática, tática, tática. É incrível o quanto aprendi nesses três anos na Serie A. Eles pensam sobre cada pequeno detalhe. Mas o mais incrível é que posso chamar uma lenda como Totti de amigo. E digo sempre a ele que gostaria de ter chegado ao clube um pouco mais cedo em minha carreira, porque ele poderia ter me ajudado a marcar mais gols. Jogar algum tempo com ele me ajudou a melhorar substancialmente. Ele via tudo em campo e tocava bolas que me moviam a um espaço que eu sequer tinha considerado. Estou muito feliz que vim para a Itália e definitivamente aprendi muito sobre futebol aqui.

Tivemos nosso próprio momento emocionante na última Liga dos Campeões. O jogo contra o Barcelona é um daqueles que você mostra depois o vídeo às crianças e diz: “Veja, assista a esse jogo e você pode ver que nunca pode desistir”. A ida tinha sido 4 a 1. Perder por 4 a 1 para o Barcelona, de novo, te faz pensar que está morto olhando para o campo.

Mas então, com a volta em casa, eu tive um pouco de sorte e marquei o primeiro gol cedo. A torcida começou a nos dar energia. Depois conseguimos um pênalti no segundo tempo. De Rossi bateu e mandou no campo. O goleiro até tocou, mas De Rossi bateu com tanta força que entrou de qualquer maneira. Você tem aquela sensação no seu sangue, de que talvez acontecerá. Podemos?

Nós estávamos correndo, jogando como animais, dando tudo que tínhamos. Era como em 2012, gritando, “vamos lá!”.

Então, no fim, aos 37 do segundo tempo, Manolas marca o terceiro gol. Incrível.

Eu assisti à partida na manhã seguinte e parecia que poderíamos ter marcado cinco ou seis gols, com facilidade. Parece estranho dizer isso quando você está jogando contra o Barcelona, mas não era um milagre. Eles realmente não tiveram muitas chances. Foi o ápice do futebol para nós. Fomos taticamente perfeitos.

Nós estávamos mortos e então voltamos à vida. Isso pode acontecer em Manchester e em Roma. Pode acontecer em qualquer lugar. Isso é futebol.

Tenho 32 anos de idade agora e não sei o que acontecerá em breve. Eu definitivamente gostaria de levar a Bósnia a outro torneio internacional. Fiquei muito orgulhoso de dar um pouco de alegria ao meu país em 2014. Imagine, a primeira vez que a Bósnia vai à Copa do Mundo, fizemos nossa estreia no Maracanã contra a Argentina. Era como um sonho se tornando verdade. Eu apenas gostaria que pudéssemos ter impedido Messi de marcar!

Depois da Copa, penso que algo mudou em minha casa. Quando eu era uma criança crescendo na Bósnia, nossos ídolos no futebol sempre estavam jogando por países diferentes. Agora voltamos a Sarajevo e cada vez mais as crianças estão falando sobre jogadores bósnios – especialmente caras como Miralem Pjanic – e isso me faz realmente feliz.

Depois da guerra, éramos uma geração de crianças com sonhos simples. Nós queríamos jogar futebol em paz. Agora eu tenho o meu futebol e encontrei paz. Essa é minha vida. Eu quero jogar e assistir a todos os jogos que puder, sério. Algumas vezes minha esposa me pega vendo a Serie A, a Premier League ou qualquer outra coisa e me pergunta: “Não é futebol o suficiente?”

Eu apenas rio. Ela deve saber a resposta agora. Não, é claro, nunca é suficiente.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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