A Uefa vai mesmo tirar o Osasuna da Conference por um caso de corrupção que o clube combateu exemplarmente
Osasuna teve caso de corrupção esportiva há nove anos, mas crime foi denunciado e combatido por membros do próprio clube
A Uefa confirmou nesta terça-feira a exclusão do Osasuna na próxima Conference League. O Comitê de Apelações da entidade esportiva não aceitou o recurso de defesa apresentado pelo clube espanhol. A entidade europeia pune um caso de manipulação esportiva ocorrido há nove anos, quando os navarros corriam risco de rebaixamento em La Liga. Os dirigentes da equipe deram dinheiro a jogadores de outros times em forma de incentivo, para que vencessem concorrentes do Osasuna na parte inferior da tabela. No fim das contas, o esquema não deu certo e os Rojillos terminaram rebaixados. Mais importante, o esquema de corrupção foi denunciado e combatido pela direção que assumiu o clube logo depois disso, em caso que gerou punições na justiça espanhola e prisões dos envolvidos com o crime. A Uefa, porém, não quis nem saber da atitude correta do Osasuna e sancionou o clube da mesma maneira.
O Osasuna promete acionar o Tribunal Arbitral do Esporte para rever a decisão e disputar a próxima Conference League. O clube reafirmou sua discordância sobre a decisão da Uefa, especialmente pela atitude que a atual direção teve ao redor do caso. “O Clube Atlético Osasuna não compartilha em absoluto do critério da Uefa, nem da instrução do caso levada a cabo, e lamenta a mensagem errônea que a Uefa envia ao mundo do futebol, castigando quem denuncia a corrupção e a persegue judicialmente”, enfatizaram os navarros em sua nota oficial. Com a punição aos Rojillos, o Athletic Bilbao herdará a vaga na próxima Conference.
Osasuna é a maior vítima, duas vezes
Há um crime cometido no episódio, o que é um fato. Não à toa, o caso teve desdobramentos jurídicos e resultou em prisões. No entanto, o Osasuna teve a postura mais exemplar possível para limpar sua imagem e buscar justiça diante da situação. Rebaixados em La Liga 2013/14, os navarros enfrentaram sérios problemas financeiros e correram risco de rebaixamento à terceira divisão. A mudança na diretoria permitiu que o caso de manipulação fosse detectado, especialmente pelo uso do dinheiro do clube de maneira indevida. Os atuais dirigentes dos Rojillos fizeram a denúncia e colaboraram com a justiça pela punição de quem dilapidou o patrimônio do clube.
A reconstrução do Osasuna aconteceu nos bastidores e também em campo. O clube passou duas temporadas na segunda divisão e, depois do acesso, caiu novamente para mais duas campanhas na segundona. A estabilidade na elite só seria reconquistada a partir de 2019/20, muito por conta do excelente trabalho de Jagoba Arrasate no banco de reservas. A temporada passada foi histórica no El Sadar, com o vice na Copa do Rei e a sétima colocação em La Liga, que rendeu a volta às competições europeias após 16 anos. Porém, o que parecia um sonho e proporcionou a devida comemoração efusiva dos navarros, vira um grande pesadelo por causa da burocracia.
A Uefa pode até justificar que o caso é grave o suficiente para não deixar passar batido e que não punir o Osasuna abriria precedentes. No entanto, tal decisão da entidade parece ser mais um prêmio à impunidade do que qualquer outra coisa. Caso o Osasuna não tivesse agido contra seus antigos dirigentes e não tivesse buscado justiça, provavelmente a corrupção esportiva teria ficado por isso mesmo. Os navarros poderiam disputar a Conference. Entretanto, foi exatamente a atitude de combate ao crime que, por linhas tortas, gera a punição à instituição.
O Osasuna, como instituição, deveria ser tratado como maior vítima do caso de corrupção esportiva. No entanto, a Uefa aponta o dedo para o clube como culpado. Isso prejudica a imagem dos Rojillos diante daqueles que não conhecem a fundo o caso e só tomam nota da punição, enquanto também questiona os méritos exibidos em campo. Já para quem sabe os meandros do que aconteceu, impera mesmo a sensação de injustiça, como se os navarros estivessem de mãos atadas por aquilo que foi o caminho correto diante do episódio.
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Uefa é forte com os fracos, fraca com os fortes
A atual diretoria do Osasuna tem toda razão ao dizer que a Uefa possui pesos diferentes em sua justiça desportiva – “forte com os fracos e fraca com os fortes”, segundo comunicado anterior. A mão pesada para penalizar clubes menores, sobretudo de ligas periféricas, não se nota com os poderosos do continente. O Fair Play Financeiro e outras regras podem ser quebradas de forma ilimitada ou consideradas prescritas, enquanto o deslize de outras agremiações, anos atrás, é punida com rigor. E o caso do Osasuna é mais exemplar ainda, diante da maneira como o clube fez o certo em sua atual gestão. Quando o futebol deveria estar mais interessado em ações afirmativas contra a manipulação, a Uefa dá uma rasteira nisso, preocupada com minúcias.
Mesmo que o TAS reverta o caso, a temporada europeia do Osasuna já fica bastante comprometida. O planejamento para a Conference League deveria estar a todo o vapor. Sem a certeza da participação, o clube vê limitadas as suas finanças, até na busca de patrocínios, e não pode encorpar o elenco da maneira devida. Mesmo o Athletic Bilbao, beneficiado por tabela ao ficar logo abaixo em La Liga 2022/23, não poderá se preparar da forma adequada. Nesse tipo de caso, era de se esperar uma postura pública dos demais clubes também em apoio dos navarros. Além disso, as próprias entidades espanholas deveriam dar um passo à frente. A federação espanhola, contudo, preferiu ficar de picuinha e trocar acusações com os Rojillos.



