Europa

Clube da Suécia cria código de conduta que pune seus próprios atletas por simularem faltas

A simulação de faltas é um dos costumes mais execrados do futebol. A Lei de Gerson preponderante nos gramados muitas vezes motiva a ridicularização, quando comparada a outras modalidades, além de provocar a ira de torcedores em diversos cantos do mundo – mas, quase sempre, somente quando o próprio time é prejudicado. A transformação deste cenário depende basicamente de iniciativas próprias e da conscientização sobre a desonestidade. Por isso mesmo, o Östers, tradicional clube da Suécia, saiu à luta contra os cai-cais em seu elenco. Desde o ano passado, os jogadores que fingem em campo estão sujeitos a punições.

“Os futebolistas do Östers não devem se jogar, não devem exagerar. É uma decisão tomada pela direção. E se os jogadores continuarem fazendo isso? Está escrito preto no branco no código de conduta do clube: iremos punir nossos próprios atletas, multá-los ou mesmo suspendê-los”, afirmou Johan Lindberg, executivo do time, em entrevista ao jornal Aftonbladet. “Não é uma ideia que surgiu do dia para a noite e veio à toa diante da classificação do Barcelona sobre o Paris Saint-Germain. Embora vivamos em mundos diferentes, este não é o tipo de futebol que defendemos. Não queremos vencer dessa maneira”.

“Acreditamos que é possível fazer o futebol melhor do que é hoje. Não vamos sentar em um tribunal e examinar cada decisão controversa. Mas podemos acabar pelo menos com a trapaça? Queremos fazer a diferença e, portanto, estamos prontos para agir com os nossos jogadores. Acreditamos que somos um clube que pode influenciar outros e nosso trabalho é colocar pressão para que posições semelhantes se espalhem. Não quero esse vírus no meu elenco. Se um jogador faz coisas assim, não me importo se ele é bom. Eu não o quero por aqui”, complementou Lindberg.

Segundo os dirigentes do clube, o código de conduta influencia também a política de contratações. O Östers vem deixando claro aos seus reforços o que se espera de um jogador e o que não se tolera. Não à toa, um de seus contratados que saiu da linha na última temporada não teve o vínculo renovado. Dono de quatro títulos nacionais, o time disputará a segunda divisão do Campeonato Sueco em 2017, cujo início está marcado para abril.

Obviamente, o novo sistema está sujeito a erros. Por isso mesmo, Lindberg sustenta o diálogo como base do processo. Caso um jogador saia da linha, ele terá a presunção da inocência. Além disso, há uma preocupação para que a orientação não iniba situações de jogo. “Eu questionei no início, devo admitir. Há tantas outras coisas a trabalhar neste clube. Mas, ao mesmo tempo, eu entendo e acho que é uma boa iniciativa. Não se pode dizer que tudo é apenas responsabilidade da Uefa, do Barcelona ou dos árbitros. Temos uma parte pequena nisso. Mas é um caminho longo, não é uma questão fácil”, pontua o técnico Thomas Askebrand.

Entre os jogadores, o anúncio da medida causou estranhamento em um primeiro momento. Alguns chegaram mesmo a conversar com os dirigentes, indagando se isso não poderia interferir no espírito competitivo. Mas, aos poucos, a ideia vem sendo assimilada. “No começo, demos risada e fizemos piadas. Mas, olhando bem, é extremamente difícil para um juiz. Tudo pode parecer uma falta. Se há o contato, se alguém se joga… Então, se é possível ficar em pé, por que não ficar em pé? Colocamos na nossa cabeça que iremos facilitar a decisão aos árbitros. Com o tempo, esperamos deixar tão claro que ele saiba automaticamente que os jogadores do Östers sempre tentam ficar em pé”, afirma o atacante David Johannesson. Na temporada passada, ao menos, não houve influência sobre o desempenho da equipe. Pelo contrário, os atletas conquistaram o título da terceirona, garantindo o acesso.

No fim das contas, a postura do Östers é cercada de idealismos. Um idealismo que, se fosse mais comum, ajudaria bastante o futebol. “Pode ser que nada aconteça, que atravessemos a temporada inteira sem uma polêmica. Mas, de certa forma, eu até espero que alguma controvérsia aconteça, para que possamos provar que somos sérios. Pode soar prepotente, mas…”, declara Lindberg. “Isso nunca dará errado se tentarmos criar um ambiente no qual agiremos da mesma maneira que esperamos que os outros ajam conosco. Isso é tão simples. Nunca pode dar errado quando você quer fazer o certo”.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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