Como a TNT Sports vai chegar a 16 anos de domínio sobre a Champions League
Acordo de renovação anunciado pela Uefa consolida uma ‘era’ que vem desde o Esporte Interativo na TV brasileira
A Uefa anunciou na semana passada a vitória da Warner Bros. Discovery, dona da TNT Sports, no processo de concorrência pelos direitos de transmissão da Champions League no Brasil no ciclo entre 2028 e 2031. Na prática, uma renovação contratual por quatro temporadas para a empresa que já domina desde 2015 a competição no país.
Há 11 anos, quando o então Esporte Interativo passou a ser a “Casa da Champions”, destronando a ESPN, que dominou o torneio desde a década de 1990, muita gente torceu o nariz, olhou com desconfiança, imaginou que a experiência não passaria do primeiro ciclo de três anos, entre as temporadas 2015/16 e 2017/18, e que logo os direitos voltariam para o canal da Disney. Mais de uma década depois, noticiamos a quarta renovação, o quinto ciclo.
Tudo isso é uma soma de fatores que tornaram o Esporte Interativo/TNT Sports um adversário praticamente imbatível nas concorrências de direitos da Champions. A coluna lista agora alguns deles:
1 – Foco total na Champions em tempos de mudanças no mercado
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O Esporte Interativo/TNT Sports teve como momento de maior barulho no mercado brasileiro a compra dos direitos de transmissão em TV por assinatura de alguns dos clubes do Brasileirão para o ciclo 2019-2024. O pacote incluía Palmeiras, Santos, Bahia, Athletico, Coritiba, Fortaleza, Ceará, e os dois primeiros anos do Internacional, entre outros times. Mas não passou de 2021 nesses moldes.
Diante de uma era pré-“Lei do Mandante”, o canal só podia mostrar jogos entre dois times com quem tinha contrato, o que reduziu sensivelmente o cardápio de opções. A opção foi romper o contrato e focar no futebol europeu. Outras compras até vieram, como os direitos do Paulistão, desde 2022, e no mesmo ano de jogos do Athletico Paranaense como mandante na Série A.
Mas a TNT Sports não fez loucuras para disputar outros direitos que apareceram em tempos de mudanças no mercado de mídia esportiva no Brasil. A Libertadores, por exemplo, viu até a Paramount aparecer como compradora no ciclo 2023-2026. Mesmo quando a Globo rescindiu o contrato pelo segundo pacote de plataformas pagas da competição, em 2020, para o ciclo até 2022, não houve movimentação da TNT Sports para entrar no torneio.
O Brasileirão, agora muito mais previsível com a Lei do Mandante, também foi uma janela de oportunidade que a TNT Sports não atravessou. A Amazon levou 38 jogos do pacote do bloco Forte União, e a Globo ficou com a maioria, além das 38 partidas abertas da Record e da CazéTV.
Só no fim do ano passado é que a TNT Sports apareceu como compradora de direitos da Conmebol, ainda assim um pacote de 16 jogos da Sul-Americana em sinal aberto, que será usado no YouTube a partir de 2027, substituindo os atuais direitos do SBT, além do pacote de highlights da Libertadores e da própria Sula no lugar da CazéTV.
Enquanto a rival Disney concentrou tudo em manter o domínio sobre Libertadores e Sul-Americana, e até arriscou um pouco mais ao levar a Série B do Brasileirão, a TNT Sports sempre teve como foco continuar investindo na Champions League.
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2 – Força da moeda estrangeira
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Se a ESPN optou por focar nas competições da Conmebol e na manutenção das ligas nacionais europeias, como a Premier League, e a Paramount também só entrou na briga por Libertadores e Sul-Americana no ciclo 2023-2026, as concorrências do mercado interno sofrem tentando lidar com quem entra com dólar no Brasil.
É muito mais difícil para a Globo e a CazéTV, por exemplo, concorrerem com a Warner Bros. Discovery, Disney e outras gigantes de mídia internacionais quando as disputas são feitas por empresas e agências de fora e precificadas em moeda estrangeira.
3 – Cobertura virou referência
Espalhar correspondentes pela Europa, ter a oferta completa de jogos no streaming desde o extinto EI Plus, passando pelo também finalizado Estádio TNT Sports e chegando à atual HBO Max, usar as plataformas digitais gratuitas, como YouTube, para amplificar o alcance do conteúdo, disponibilizar dois canais na TV paga (TNT e Space), tudo isso criou uma rede bastante segura para estabilizar a situação da Champions League não apenas como produto, mas também no imaginário do torcedor.
Tanto que internamente o próprio SBT, que transmite no sinal aberto desde 2021 a competição, sabia que a dificuldade maior no retorno do torneio à TV aberta seria capturar a atenção do nicho que ama futebol europeu e já estava plenamente acostumado a ver com as narrações de André Henning, Jorge Iggor (hoje na Globo, narrador da GE TV), Luis Felipe Freitas (hoje na CazéTV), Octavio Neto e demais nomes que vinham desde a fase Esporte Interativo.
E é realmente muito mais difícil para qualquer canal hoje no sinal aberto. Que, aliás, só está transmitindo o torneio no ciclo atual porque a TNT Sports topou sublicenciar os direitos ao SBT. Ainda não há definição sobre esse acordo ser mantido para as temporadas 2027/28 a 2030/31, mas é uma possibilidade na mesa.
4 – Champions intocável mesmo em meio ao caos
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A TNT Sports não foi exatamente um exemplo de estabilidade em tudo o que viveu no mesmo período em que dominou a Champions League no Brasil. Em 2015, quando assumiu as transmissões no lugar da ESPN, o então Esporte Interativo já era uma marca associada ao campeonato. Tinha surgido em 2004, na RedeTV!, trazendo pacote de eventos que tinha como grande destaque justamente esse torneio.
Depois, como canal independente nas parabólicas, a TV Esporte Interativo transmitiu em sinal aberto de 2009 a 2014 com o pacote das terças-feiras, além de ter a final em VT com algumas horas de atraso. Foi nesse período que a TopSport, empresa de marketing esportivo que criou o EI, vendeu o canal para a Turner, hoje Warner Bros. Discovery, e provocou as primeiras mudanças na estratégia.
Nascido como faixa na TV aberta e evoluído como canal aberto, o projeto passou a ser todo focado na TV paga e no streaming pago para as transmissões. No início eram dois canais dedicados, o EI Maxx e o EI Maxx 2.
Em 2018, porém, a Turner mudou de novo a estratégia e acabou com os canais pagos segmentados, devolveu direitos de transmissão históricos do EI, como a Copa do Nordeste, mas segurou firme e ainda conseguiu a renovação da Champions para o segundo ciclo de direitos em plataformas pagas.
Passou a usar TNT e Space, ampliou a propaganda do streaming, demitiu vários funcionários, mas ainda se consolidou produzindo as transmissões do Facebook, que entrou no lugar da Globo como detentor de plataformas abertas no segundo semestre daquele ano.
Anos mais tarde, veio a fusão entre Warner e Discovery, mais uma mudança um tanto caótica que em nada abalou a relação com a Champions League.
A migração de Esporte Interativo para TNT Sports, em 2021, e depois a mudança de plataforma de jogos do Estádio TNT Sports (ex-EI Plus) para a HBO Max no streaming também foram movimentos suaves em comparação ao caos vivido pelo torcedor no mercado como um todo nessa época.
Agora, o próximo desafio mora na compra da Warner Bros Discovery pela Paramount, ainda uma incógnita para o mercado de mídia esportiva no Brasil. A Paramount, no mesmo processo de concorrência que nomeou a TNT Sports como detentora da Champions no Brasil até 2031, levou metade da competição nos demais países da América do Sul e também no México pelo mesmo período. O que mostra uma convergência de planos nessa área.