Champions League

Os grandes duelos da década de 1990 que inauguraram a história de PSG x Real Madrid

Em outros tempos para os dois clubes, PSG e Real Madrid fizeram seus primeiros confrontos por Copa da Uefa e Recopa

O poderio de Real Madrid e Paris Saint-Germain nos últimos anos provoca duelos mais frequentes pela Champions League. Desde 2015, os dois clubes já se enfrentaram seis vezes pela competição continental. Dois novos jogos se adicionarão a tal cartel a partir desta terça-feira, pelas oitavas de final da Champions. No entanto, algumas histórias significativas estão guardadas no passado das copas secundárias da Europa. Durante os anos 1990, as duas potências nacionais se encararam em temporadas seguidas por Copa da Uefa e Recopa Europeia. E aqueles jogos tiveram uma importância considerável para o PSG, que aproveitou as classificações sobre os merengues para reivindicar sua representatividade além das fronteiras.

O primeiro embate entre os clubes aconteceu em 1992/93, pelas quartas de final da Copa da Uefa. Na época, o Real Madrid permanecia como uma das equipes mais respeitadas da Europa, mas atravessava uma seca de 27 anos na Champions e ainda convivia com o domínio do Barcelona em La Liga. A Copa da Uefa era o título possível naquele momento, embora com significado grande aos merengues durante o bicampeonato dos anos 1980. Já o PSG vivia o enriquecimento através do Canal+, que permitiu ao clube ser competitivo dentro da França e também fazer boas campanhas continentais. Ainda não dava para alcançar o Olympique de Marseille dentro da Ligue 1, embora a ascensão dos parisienses se tornasse mais clara.

Para atingir as quartas de final, o PSG tinha deixado pelo caminho PAOK, Napoli e Anderlecht. Campeão continental com o Porto em 1987, Artur Jorge treinava uma equipe recheada de talentos. Alguns nomes importantes do futebol francês estavam presentes, incluindo David Ginola, Paul Le Guen, Alain Roche e Bernard Lama. O Brasil também era decisivo nesta espinha dorsal, com Valdo e Ricardo Gomes. Já o destaque principal ficava com o talento fulminante de George Weah, trazido do Monaco naquela mesma temporada. Ficava claro como os parisienses tomavam forma para grandes ambições.

O Real Madrid tinha aproveitado um caminho mais tranquilo para superar Politehnica Timisoara, Torpedo Moscou e Vitesse nas fases anteriores. Benito Floro era o treinador que buscava tatear um futuro aos merengues. Nomes da famosa Quinta del Buitre seguiam presentes, como Emilio Butragueño, Manolo Sanchís, Míchel e Paco Buyo. A geração que se firmaria nos anos 1990 também reunia Fernando Hierro e Luis Enrique. Já o artilheiro estrangeiro naquele momento era Iván Zamorano, trazido do Sevilla para suplantar o retorno de Hugo Sánchez ao futebol mexicano. O zagueiro Ricardo Rocha e o meia Robert Prosinecki eram outros forasteiros disponíveis.

A ida, no Bernabéu, esteve nas mãos do Real Madrid. Os merengues abriram dois gols de vantagem logo no primeiro tempo. Butragueño marcou o primeiro após cobrança de escanteio e fez grande jogada para Zamorano anotar o segundo. Para ajudar, Paco Buyo estava inspiradíssimo na meta madridista. Na etapa complementar, o PSG descontou com David Ginola desviando de cabeça e até esboçou o empate, mas parou em Buyo. No entanto, um pênalti nos minutos finais permitiu que Míchel fechasse a conta, aproveitando o rebote após a cobrança defendida por Lama. O triunfo por 3 a 1 soava como um ótimo negócio aos madridistas.

Porém, o cenário se transformou no Parc des Princes, onde o PSG buscou seu milagre. George Weah anotou o primeiro gol ainda no primeiro tempo, em mais uma cabeçada fatal no primeiro poste, aproveitando escanteio cobrado por Valdo. Já o segundo tento viria apenas aos 35 da etapa complementar, em chute violentíssimo de Ginola, de fora da área. Naquele momento, a classificação era do PSG, que nem por isso diminui o ritmo. Tanto que assinalou o terceiro gol aos 42, graças a Valdo, gastando a bola naquela noite. O camisa 10 puxou contra-ataque, deu um drible seco em Ricardo Rocha e tirou do alcance de Buyo.

Paris é uma festa? Não quando há um Real Madrid do outro lado. E os merengues ressuscitaram no quarto minuto dos acréscimos. Após bola levantada na área, Zamorano se esticou todo para dar sobrevida à sua equipe. Com os 3 a 1 invertidos no placar, o confronto seguia à prorrogação. O que nunca aconteceu, graças Antoine Kombouaré. O zagueiro sequer tinha sido titular no Bernabéu, mas entrou em campo no Parc des Princes por conta da suspensão de Alain Roche. Aos 51 do segundo tempo, virou o herói da torcida parisiense. Valdo cobrou falta em direção à área e o camisa 5 subiu livre, decretando a vitória por 4 a 1.

Aquele épico significava demais ao Paris Saint-Germain, e não apenas por eliminarem o poderoso Real Madrid. Também era a primeira vez que o clube chegava entre os quatro melhores de uma competição continental. O sonho, todavia, não durou tanto. Roberto Baggio apareceu pelo caminho nas semifinais e anotou três gols para a Juventus, que acabaria com a taça. Ficava a tentativa de superar o feito na temporada seguinte. De novo, para um cruzamento entre espanhóis e franceses nas quartas de final.

Em 1993/94, PSG e Real Madrid disputaram a Recopa Europeia. Os parisienses conquistaram a Copa da França de 1992/93, primeiro troféu sob a direção do Canal+ e que encerrava um jejum de sete anos sem títulos, além de dez dentro da própria competição. Já os merengues se satisfizeram com a Copa do Rei de 1992/93, um breve consolo em meio ao tri do Barcelona em La Liga e também em relação ao vice da Copa do Rei contra o Atlético de Madrid na temporada anterior.

O Paris Saint-Germain venceu Apoel Nicósia e Universitatea Craiova nas fases anteriores da Recopa. Artur Jorge permanecia como técnico do elenco intacto em relação à temporada anterior, mas com um acréscimo valiosíssimo, diante da contratação de Raí – que seria reserva naqueles embates com os espanhóis. Já o Real Madrid, se não contava mais com Ricardo Rocha, tinha adicionado Rafael Alkorta e proporcionado a volta de Rafael Martín Vázquez. Benito Floro continuava como o comandante da equipe, que despachou Lugano e Tirol Innsbruck na caminhada até as quartas de final.

Desta vez, o PSG resolveu a parada logo na ida, dentro do Bernabéu, e venceu por 1 a 0. O início da partida parecia suficientemente aberto, com boas defesas dos goleiros e uma bola na trave de Zamorano. O gol, aos 35 minutos, surgiu graças ao talento individual dos parisienses. Valdo roubou a bola no meio e acionou Ginola. O craque deixou Sanchís e Chendo no chão, antes de rolar para o chute potente de Weah dentro da área. No final da primeira etapa, os merengues reclamariam de uma bola salva em cima da linha, alegando que o arremate entrou. Nada que a arbitragem tenha marcado. Durante o segundo tempo, o Real tentou pressionar com seu jogo aéreo, mas a verdade é que o PSG poderia ter construído uma vantagem bem maior. Foram vários contra-ataques abertos desperdiçados, sobretudo por Ginola.

No Parc des Princes, o PSG se valeu do triunfo anterior para se classificar com o empate por 1 a 1. Em crise, o Real Madrid tinha demitido Benito Floro e contava com um jovem Vicente del Bosque, então treinador da base, assumindo o time principal de maneira interina. E o “fato novo” não surtiu efeitos. De novo, os parisienses aterrorizaram os merengues nos ataques rápidos e perderam uma série de oportunidades. Aos 20 minutos, então, o Real abriu o placar num chute de Hierro que Butragueño desviou no meio do caminho. O PSG seguiu mais perigoso, até igualar aos seis minutos da segunda etapa. Valdo cobrou falta lateral e Paco Buyo saiu mal para cortar o cruzamento, deixando o caminho livre para o tento de Ricardo Gomes. Zamorano acertou a trave na melhor chance de vitória, mas de novo os madridistas sucumbiam.

Porém, as semifinais foram novamente uma barreira para o PSG naquela Recopa. A equipe seria eliminada pelo Arsenal, com empate em Paris e derrota em Londres. Ao menos, aquele ano marcaria o segundo título do clube no Campeonato Francês, após oito anos de espera. Os parisienses teriam sua glória continental pouco depois, em 1995/96, com o título da própria Recopa Europeia. Já o Real Madrid recuperou o troféu de La Liga em 1994/95, pouco antes de retomar a coroa continental na Champions de 1997/98. Foi o renascimento da hegemonia merengue, que mantém seu respeito no continente mesmo contra o mais estrelado elenco do PSG.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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