Champions League 2026/27

O Lyon x Barça é uma ótima deixa para relembramos a defesa antológica de Coupet contra Rivaldo

Barcelona e Lyon são velhos conhecidos na Liga dos Campeões. O confronto desta temporada é o quarto entre os clubes pela competição, todos eles ocorridos neste século. Pela segunda vez se encaram nas oitavas de final, como em 2008/09, quando uma atuação estrondosa de Thierry Henry valeu a classificação dos blaugranas em sua caminhada rumo ao título. No entanto, o duelo mais lembrado foi justamente o primeiro, em 10 de outubro de 2001. Apesar da vitória do Barcelona por 2 a 0, Grégory Coupet terminou como o grande herói da noite. Afinal, diante de Rivaldo, o lendário goleiro dos Gones foi capaz de executar uma das defesas mais impressionantes da história – quiça, a mais difícil já realizada em uma partida de Champions.

O jogo acontecia no Camp Nou, válido pela terceira rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões. O Barcelona atravessava uma fase de transição e o Lyon apenas começava a estabelecer sua dinastia na Ligue 1. Desta maneira, o resultado não fugiria tanto da lógica. Os blaugranas ganharam por 2 a 0, em resultado que triunfo sua classificação, enquanto os gones sequer passaram de fase. Pormenores que pouca gente se lembra. Bem menos do que aqueles que se recordam do impossível protagonizado pelo goleiro.

Não deveria ser um lance difícil. Era uma bola na fogueira, de fato, em que Cláudio Caçapa estava pressionado por Rivaldo. Porém, entre tantas decisões possíveis, o zagueiro do Lyon decidiu recuar para Coupet. E complicar extremamente o goleiro. A bola por cobertura ia em direção ao gol. O francês não poderia usar as mãos para defendê-la, senão ofereceria de graça o tiro livre indireto ao Barcelona. E então fez o seu primeiro milagre: deu um salto para trás e, de peixinho, cabeceou a bola contra o próprio travessão. Por centímetros, o lance espetacular não se transformou em uma lambança daquelas. Mas às vezes só uma pitada de sorte ajuda a concretizar o fantástico.

O melhor, de qualquer forma, estaria por vir. Coupet se esborrachou dentro de seu próprio gol, na sequência do movimento. E o rebote ainda permanecia vivíssimo dentro da pequena área. Pior do que isso, acabou à mercê de Rivaldo, um dos melhores do mundo naquele momento. O brasileiro seguiu acreditando no lance e apareceu livre para emendar a sobra às redes. Com a certeza de quem já imagina de que maneira vai comemorar, o blaugrana saltou para uma cabeçada fulminante, como manda o manual – queixo no peito, em direção ao chão.

O que Rivaldo não percebeu (e certamente nenhuma outra alma viva entre os 60 mil presentes no Camp Nou) era que, enquanto a bola caía, Coupet se levantava. E, ainda dentro do gol, ele aguardava o arremate. Precisou atacar a bola e, com um salto da mais pura agilidade felina, espalmou o tiro em cima da linha. À queima-roupa. Inacreditavelmente. Não rendeu os três pontos, a classificação ou que mais fosse – depois dos 34 do segundo tempo, Patrick Kluivert e o próprio Rivaldo anotaram os gols do triunfo catalão. Mas aquele instante fabuloso valeu o testemunho de tantas pessoas como uma das maiores façanhas que um goleiro é capaz de realizar.

“Eu estava adiantado, não esperava por aquilo. A única coisa que pensava é que era um recuo e eu não poderia usar as mãos. Não era ruim de cabeça, então imaginei o que fazer e saltei. Tive um pouco de sorte quando a bola bateu na trave. Depois disso, Rivaldo só tinha que pegar a oferenda. Ele só precisava cabecear, mas acho que não era necessariamente o movimento preferido dele – felizmente. Bom, ele cabeceou do mesmo jeito e eu voltei a tempo de salvar. Minha velocidade não era ruim na época, sou nostálgico!”, relembrou Coupet, anos depois, em entrevista à revista SoFoot. “O Barcelona era uma outra dimensão para nós, mas queríamos fazer o melhor. Ao final nós perdemos, embora essa continue sendo uma memória marcante”.

* Parte deste texto foi publicada originalmente em dezembro de 2017

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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