Champions League

O duelo de técnicos: a reconstrução de Allegri versus o aperfeiçoamento de Zidane

Por Bruno Bonsanti

A final da Champions League, neste sábado, em Cardiff, tem personagens interessantes no banco de reservas: um ex-jogador de pouco sucesso e experiente como técnico ao lado de um dos maiores da história dando seus primeiros passos na nova carreira. Tanto Massimiliano Allegri quanto Zinedine Zidane chegam à partida mais importante da temporada europeia com total controle sobre seus elencos e suas táticas, em busca do cobiçado título.

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Allegri nunca o conquistou. Foi o último técnico campeão italiano pelo Milan e escolhido pela Juventus para suceder Antonio Conte. A sua missão era justamente fazer o que vem fazendo: transformar a Velha Senhora em uma candidata recorrente ao título europeu e ele já entregou duas finais. O detalhe mais interessante é que, em três anos, chegou à decisão da Champions League com duas equipes totalmente diferentes, evidenciando poder de adaptação e capacidade de montar seu time de várias maneiras.

Já Zidane assumiu a batata quente de, mesmo sem experiência prévia como treinador, encarar as cobras criadas do vestiário do Real Madrid, depois da demissão de Rafa Benítez. Sua aura impôs respeito imediato e suas estratégias táticas foram melhorando com o tempo. Conquistou a Champions League em seus primeiros seis meses com a prancheta na mão e, neste sábado, busca o inédito feito de se tornar o único técnico bicampeão europeu na era moderna da competição.

Allegri, o (re-)construtor

Allegri, técnico da Juventus (Foto: Getty Images)

A Juventus entrou em campo, no Estádio Olímpico de Berlim, para enfrentar o Barcelona, pela final da Champions League, com Buffon; Lichtsteiner, Barzagli, Bonucci e Evra; Pirlo, Marchisio, Pogba e Vidal; Morata e Tevez. Llorente, Roberto Pereyra e Kingsley Coman entraram no segundo tempo. Desses 14 jogadores, nove não fazem mais parte do elenco da gigante de Turim. Mesmo assim, apenas dois anos depois, a Velha Senhora está em mais uma decisão europeia.

O trabalho de reconstrução que Allegri comandou nos últimos 24 meses foi estupendo. O seu time foi dizimado depois de Berlim. Tevez sentiu saudade de casa, os contratos de Pirlo e Llorente venceram, Vidal foi atraído pelo Bayern de Munique, para onde também foi Coman. Na janela seguinte, Pogba foi vendido por uma fábula para o Manchester United, o Real Madrid exerceu seu direito de comprar Morata de volta, Pereyra foi para o Watford e Evra voltou para a França. Apesar de algumas saídas sem compensação para a Juventus, as vendas dos últimos dois mercados deram € 252 milhões para os cofres do técnico italiano, que soube usar o dinheiro para construir outra equipe muito forte.

Allegri repôs Tevez imediatamente com a contratação de Dybala, por € 40 milhões. Também trouxe Alex Sandro, do Porto, por € 26 milhões, para ser o sucessor natural do envelhecido Evra na lateral esquerda. Pagou mais € 20 milhões para reforçar o elenco com Mandzukic, que se tornaria uma peça chave da hexacampeã italiana. Trouxe Cuadrado, primeiro por empréstimo, depois por € 20 milhões. Gastou mais € 31 milhões em Hernanes e Zaza, que não deram certo e já foram embora. E fechou com Khedira, de saída do Real Madrid.

Na segunda janela, a Juventus foi esperta para assegurar os serviços de Daniel Alves, cujo contrato o Barcelona havia chegado ao fim, e usou o dinheiro de Pogba para arrancar Higuaín do Napoli. Completou a equação com Pjanic, contratado da Roma por € 32 milhões, e recheou o elenco para a disputa de várias competições com Pjaca, do Dínamo Zagreb, Benatia, do Bayern de Munique, e Lemina, do Olympique Marseille, em um total mais de € 60 milhões.

Mais do que a ótima atuação no mercado de transferências, chama a atenção a maneira como Allegri conseguiu encaixar as peças no seu time e fazê-las atuar em sintonia tão rapidamente. Dificilmente dá para dizer que a temporada passada foi um fracasso para a Juventus, campeã do doblete nacional, com os títulos do Campeonato Italiano e da Copa Itália, e derrotada nas oitavas de final pelo Bayern de Munique, apenas na prorrogação. Mas ainda era um time um pouco remendado, costurando pedaços da temporada anterior com outros do time atual.

O meio-campo seguiu forte, com Khedira, Marchisio e Pogba, além das eventuais presenças de Hernanes, Sturaro e Pereyra. Mas perdeu a chegada de Vidal e a criatividade de Pirlo. A armação caiu no colo dos extremos, muitas vezes laterais adiantados no sistema com três zagueiros. E o ataque perdeu contundência, apesar de Dybala ter entrado muito bem na equipe, com 23 gols em sua primeira temporada. Morata e Mandzukic, porém, combinaram para apenas 25 tentos entre eles. Tevez, sozinho, havia feito 34 na sua última temporada na Itália.

A parte da criatividade foi resolvida com Pjanic, o recuo de Dybala para atuar atrás do centroavante, e a forte presença de Daniel Alves pela direita. A contundência ficou a cargo de Higuaín, autor de 32 gols nesta temporada. Para equilibrar a equipe, Allegri praticamente abriu mão do esquema com três zagueiros e protegeu os dois meias – Marchisio ou Khedira ao lado do bósnio – com os excelentes trabalhos defensivos de Mandzukic e Cuadrado pelas pontas.

A defesa da Juventus foi excepcional nesta temporada: a melhor da Itália, com 27 gols sofridos em 38 partidas, e também a menos vazada da Champions League. A Velha Senhora levou dois tentos na fase de grupos, passou pelas oitavas e pelas quartas de final intacta, e viu suas redes serem balançadas apenas uma vez, pelo poderoso ataque do Monaco, na semifinal. Não importa que os dois laterais brasileiros não sejam muito bons defensivamente, nem que nenhum dos meias seja especialista em desarmes, desde que todos os jogadores corram bastante e executem com rigor suas funções sem a bola. Colocar isso na cabeça dos jogadores foi o segundo grande mérito de Allegri. O primeiro foi ter construído, em apenas dois anos, uma equipe finalista da Champions League quase do nada.

A evolução de Zidane

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Os resultados de Zidane são praticamente perfeitos. O Real Madrid, sob seu comando, arrancou para pressionar o Barcelona, ano passado, e conquistou a última edição de La Liga, o primeiro título espanhol dos merengues em cinco anos. Na Champions League, 100% de aproveitamento até agora: duas campanhas, duas finais e um título. O segundo pode sair no sábado, quando a sua capacidade como treinador enfrentará o teste mais difícil, contra a ótima Juventus de Allegri, na decisão de Cardiff.

O trabalho de Zidane como treinador, tanto na parte tática quanto na administração de pessoas, está evoluindo. A curva crescente é natural: a carreira do francês em equipes principais começou em janeiro do ano passado e mal completou um ano de idade. Quando estamos falando de um profissional evidentemente inteligente e aplicado, é normal que haja um aperfeiçoamento gradual de métodos e ideias, e é exatamente isso que estamos vendo na atual temporada.

Em seu primeiro semestre de portador de prancheta, Zidane resolveu o que estava ao seu alcance. Sua mera presença como chefe pacificou o sempre complicado vestiário do Real Madrid, que pode até contestar um treinador vencedor como Rafa Benítez – não seria o primeiro a duvidar do espanhol -, mas reserva muito respeito a um dos homens que melhor chutou a bola em toda a história. Tornou a bola parada uma arma mortal no ataque e equilibrou o meio-campo com a entrada de Casemiro.

A própria introdução do volante brasileiro foi uma amostra de que o francês busca melhorar. A mudança mais visível de Zidane em relação à equipe de Benítez foi uma trinca de meio-campo, mas a primeira tentativa foi com Toni Kroos de volante, atrás de Modric e Isco ou James Rodríguez. Kroos chegou a atuar nessa posição sob o comando de Guardiola no Bayern de Munique, mas era outra função: na Alemanha, sua principal responsabilidade era a saída de bola, dar o passe que quebra as linhas defensivas do adversário, protegido por atletas como Schweinsteiger, Javi Martínez e Müller. Ou Lahm e Thiago, que eventualmente foram mais recuados. Funcionou porque todos esses fazem um trabalho defensivo melhor do que Modric, Isco e James. Na Espanha, o equilíbrio veio com os altos índices de desarme e interceptações de Casemiro, complementados por Kroos e Modric.

Ciente de que a chave de muitas partidas está no meio-campo, esse setor foi mais uma vez modificado na atual temporada. Um pouco por acaso porque o gatilho foi a lesão de Gareth Bale, em novembro. O Real Madrid, até então, colecionava bons resultados, mas sofria no desempenho, com o empate por 3 a 3 com o Legia Varsóvia sendo o exemplo mais simbólico das dificuldades defensivas da equipe. A recomposição do trio de ataque formado pelo galês, Benzema e Cristiano Ronaldo não é a mais eficiente do universo, o que sobrecarregava o meio-campo. A saída forçada de Bale permitiu que Zidane desse mais oportunidades para Isco, que vinha comendo a bola nas partidas em que o francês rodava o elenco. Ele se tornou um novo ponto de equilíbrio, melhorando tanto a parte defensiva quanto o setor de criação e, mesmo com a recuperação de Bale, a tendência é que comece como titular em Cardiff.

Zidane apresenta uma flexibilidade tática que tem sido importante. Na temporada passada, a postura contra o Manchester City, na semifinal da Champions League, foi mais defensiva do que a habitual – era uma equipe que empilhava goleadas no Campeonato Espanhol – e resultou na vitória por 1 a 0 no placar agregado. Na decisão, também deixou a bola com o Atlético de Madrid, que não soube muito bem o que fazer com ela. O Real Madrid foi campeão nos pênaltis. No reencontro com os colchoneros, no primeiro turno de La Liga, Zidane usou o 4-4-1-1, deixando Cristiano Ronaldo bem à vontade como o homem mais avançado da equipe. Resultado: 3 a 0, com tripleta do português. Às vezes, não funciona tão bem. O duelo contra o Sevilla, no returno do Espanhol, foi disputado com um raro sistema de três zagueiros, e os homens de Sampaoli triunfaram por 2 a 1.

Suas táticas também foram bastante elogiadas no jogo de ida das quartas de final contra o Bayern de Munique, quando retornou do intervalo com Bale mais próximo do meio-campo, e conseguiu virar a partida para 2 a 1 – auxiliado pela expulsão de Javi Martínez, aos 16 minutos do segundo tempo. Este jogo mostrou outra qualidade de Zidane: a utilização de reservas na hora certa. Seu substituto favorito na primeira temporada foi Lucas Vázquez. Na segunda, conseguiu bons resultados introduzindo Asensio durante os jogos. Outro que cresceu de produção foi Marcelo. O lateral esquerdo brasileiro, muito à vontade para atacar, chega a Cardiff com 13 assistências na temporada, a melhor marca da sua carreira com a camisa branca.

O maior mérito de Zidane, porém, foi ter resolvido a equação de Cristiano Ronaldo. O português colecionou números fantásticos nas últimas três temporadas – 51, 61 e 51 gols -, mas chegava às últimas partidas, as mais decisivas, longe da melhor forma física, tanto que não conseguiu fazer uma boa Copa do Mundo, em 2014, e se machucou na reta final da Eurocopa, ano passado. Foi convencido a descansar e a guardar o gás para a hora da onça beber água. Ficou fora de partidas fora de casa pela liga espanhola e destruiu Bayern de Munique e Atlético de Madrid, além de marcar gols decisivos nas últimas rodadas do título nacional.

Apesar dos resultados, o desempenho coletivo da equipe de Zidane foi muitas vezes criticado. Mas o francês tem conseguido encontrar respostas, quando necessário, e fez mudanças pontuais para crescer na hora certa. E, assim, está a um jogo de se tornar o primeiro técnico a vencer a Champions League duas vezes seguidas desde Arrigo Sacchi e o único da era moderna da principal competição europeia de clubes.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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